DE QUEM É O OLHAR

Sejamos cidadãos do mundo!

Todos


Por:Monika Dresing

Liam Desic
2016-08-22
hoje vivemos uma situação em que os movimentos nacionalistas, populistas, reaccionários surgem em todo o lado. Têm o objectivo de voltar a um passado que já não existe nem nunca existiu

Muitos alemães da minha geração, isto é, pessoas nascidas nas décadas a seguir à segunda guerra mundial, tal como eu, não conseguiam identificar-se de forma positiva com o seu país. Antes pelo contrário, cada derrota da selecção, cada prémio não atribuído a um alemão causava uma certa alegria. Para nós, o passado nazi em que os nossos pais e avós tinham activamente participado formou um peso bastante grande que se instalou na consciência, evitando que surgissem emoções positivas em relação a símbolos, tradições, costumes e até canções alemães.

 

Quando comecei a visitar Portugal encontrei uma situação totalmente diferente. As pessoas falaram de forma muito positiva de tudo o que era português, queriam que eu gostasse do seu país, do sol, das pessoas, do clima, das praias, do peixe – tudo isto supostamente o melhor do mundo. Em mim, isto causou emoções ambivalentes: gostei de muita coisa que vi e vivi neste país e compreendi a satisfação e até o orgulho das pessoas, mas a outra face deste orgulho, a expressão de um certo patriotismo ou mesmo nacionalismo era algo que em mim estava sempre associada a sentimentos negativos.

 

Todavia, apercebi-me da diferença mais importante entre um patriotismo/nacionalismo português e a mesma coisa na Alemanha. Portugal era um país pequeno, bastante pobre, sem grandes poderes, e assim o nacionalismo não podia ser perigoso para o exterior. Além disso, não tinha representação na esfera política. A Alemanha, por outro lado, já naquela altura, antes da unificação, era uma grande potência económica com muita influência política. No entanto, apercebi-me também do facto de que cá, quando se falava do passado, eram sempre os grandes feitos, os descobrimentos e mais descobrimentos que se mencionavam e quase nunca o lado mais feio do passado, as consequências para os povos colonizados e, mais recentemente, as guerras coloniais. As moedas não têm apenas um lado brilhante, têm sempre um verso.

 

Estou a escrever isto porque hoje vivemos uma situação em que os movimentos nacionalistas, populistas, reaccionários surgem em todo o lado. Têm o objectivo de voltar a um passado que já não existe nem nunca existiu: nações etnicamente “limpas” onde todos têm a mesma religião, com fronteiras fechadas. Mas a “globalização” não pode ser invertida. Aliás, nenhum país deste tipo conseguiria sobreviver, pelo menos não conseguiria manter o seu nível de vida. Os promotores destes movimentos estão a fazer um “jogo” pelo poder pessoal e/ou partidário nos seus países e nas suas regiões sem tomarem em conta os perigos inerentes a este jogo. E os seguidores, na sua grande maioria, são pessoas inseguras, com pouca autoconfiança que querem regressar a um passado imaginário que supostamente os tornaria mais importantes.

 

Mas os problemas globalmente existentes, nomeadamente a desigualdade económica, origem de quase todos os outros problemas, só podem ser tratados numa escala mundial. Por isso é tão importante que não sublinhemos as diferenças entre os povos, mas sim aquilo que nos une. Isto não quer dizer que se deviam esquecer as tradições e costumes. Antes pelo contrário, a soma das tradições de cada um dos povos, portanto, o passado de toda a humanidade faz parte do saber global e pode enriquecer-nos mutuamente.

 

Em Lisboa, na estação do metro “Cidade Universitária”, lê-se uma frase de Sócrates (neste caso o filósofo da antiga Grécia): “Não sou nem Ateniense nem grego, mas sim um cidadão do Mundo.” Já naquela altura, muitos séculos antes do aparecimento dos estados nacionais, ele viu o mundo como um todo e compreendeu que o pensamento não devia ser limitado por qualquer regionalismo.

 

No meu entender, não há falta de símbolos nacionais, tais como bandeiras e hinos. Hoje em dia fazem parte do folclore desportivo, um novo tipo de tradição com extensão global e normalmente pouco agressivo. Nas escolas, no entanto, onde há quase sempre alunos dos quatro cantos do mundo, seria mais importante mostrar-lhes o que podem aprender uns dos outros e ensinar-lhes a serem cidadãos do mundo.