FESTIVAL

Montras deram vida a São Luís

Mostra de artistas e artesãos locais

2016-08-22
Sem carros na rua do Comércio, os artistas invadiram os vidros das lojas e os palcos improvisados com propostas de música, fotografia, moda e danças

Ela é grande, muito grande. “Não é nada”, dizem as crianças, “ela usa andas”. Ela é Ana Gabriel, a artista que abriu e revelou as Montras do festival com o mesmo nome que se realizou nos dias 13 e 14 de Agosto, na ruas do Comércio e da Igreja, em São Luís. Passo a passo, ao som da viola campaniça de Marco Vieira, a artista vai revelando as montras. O MERCÚRIO também lá esteve e relata agora o que lá viu e ouviu.

 

Os mais pequenos são os primeiros a ver o que estava escondido atrás de jornais e papéis colados nas montras. “É um bom sinal”, diz Marta Serrão, da Transição São Luís, entidade co-organizadora do evento juntamente com o Colectivo Artístico Intervenção Social (Cais). “Se as crianças estão bem, se sentem liberdade, é porque há bom ambiente, ajudaram a arrancar os papéis que tapavam as montras, sentiram que tinham um papel a desempenhar”, conta.

 

Aqui há demonstrações artísticas que passam por artesanato, moda, fotografia, ilustração, instalação, poesia, arquitectura, belas artes e escultura cerâmica. “Tudo é preparado com muitos meses de antecedência, para que cada artista ou artesão - o festival dá primazia aos que residem ou trabalham na freguesia de São Luís - encontre o seu lugar”, explica Marta Serrão acrescentando que o leque de artistas neste que é o segundo ano do evento “se alargou consideravelmente”.

 

Entre as que causam mais “Ah” e “Oh” de espanto, encontram-se três vestidos dos artistas convidados de Lisboa, a dupla João Branco e Luís Sanchez, conhecida no mundo da moda como Storytailors. “O nosso conceito está reflectido num diário – o Diário de uma princesa em descoberta – que cruza três histórias da cultura portuguesa: a lenda das “Três mouras encantadas”, a história de “Santa Joana Princesa”, padroeira de Aveiro, e “Os Lusíadas” de Luís de Camões”, explicam. Apesar de convidados, a ligação com Odemira é forte: a família de João Branco é de São Martinho das Amoreiras, são proprietários do “Monte das Pretas”, uma quinta em tempos muito próspera e conhecida na região.

 

Outra montra em destaque é a da antiga “Loja Nova do 14”. A designer de moda Ana Baleia arrumou cerimoniosamente produtos e artigos da loja na montra e no centro destaca-se o vestido “14 Algibeiras”, trabalho que, diz a artista, “celebra o comércio tradicional, os saudosos cartuxos e embrulhos de papel pardo, os alqueires de cereais, os litros de feijão, as grosas de botões, as jardas de linha e os retalhos de pano”.

 

À noite os três vestidos hão-de mudar de cor para maior espanto dos visitantes e a loja do 14 ilumina em lusco-fusco as madeiras que ainda resistem na loja, que já fechou. À noite, de resto, tudo é diferente. Que dizer de uma mandala gigante, escultura cerâmica (Tiago Jesus), que aparece numa casa arruinada? Ou de uma casa abandonada onde as figuras recortadas da capa de da banda sonora um filme antigo rodado nos anos 60 aparecem de novo para o assombrar - instalação de João Veiga. Ou ainda das elegantes receitas alentejanas manuscritas pela italiana Kuara? 

 

O pôr-do-sol traz consigo propostas musicais e teatrais. As mais tradicionais passam pelo cante alentejano e ao baldão. Mas houve espaço para experimentar danças irlandesas aos pares e em roda, para ver “danças cerimoniais de práticas ancestrais” da Filipa Saramago, concertos de “covers”, para ouvir poesia.

 

Ainda mais experimental e invulgar foi o teatro musical “Ninfa do Lixo”, espectáculo com lixo e sobre lixo. Teatro musicalizado com instrumentos feitos com lixo e com recurso a marionetas de lixo e vídeo instalação, a peça chama a atenção para o problema dos plásticos nos oceanos.

 

Na antiga casa agrícola dos Simões, agora sede e ponto de partida da Cultivamos Cultura, a directora Marta de Menezes, explica a participação da plataforma no evento: “A comunidade de S. Luís é muito especial e a Transição São Luís teve o mérito de dar a conhecer muitos destes artistas e criar rede, de outra forma muitos trabalhos não seriam conhecidos”.

 

“A Cultivamos Cultura é um espaço para a experimentação e prática da arte contemporânea evidenciando a sua relação com ciência, tecnologia e ambiente”, explica, lembrando que a plataforma existe desde 2009 e tem acolhido artistas nacionais e internacionais. “Os artistas encontram aqui em São Luís qualidade de vida, uma vida noutro ritmo diferente das cidades e encontram também objectos e vivências que seriam difíceis de encontrar de outra forma”, justifica. A proposta da Cultivamos Cultura no Montras acabou por ter saldo muito positivo, com centenas de visitantes a percorrer o espaço para ver uma exposição com muitos trabalhos dos artistas residentes.

 

O formato de espectáculos pequenos em duração mas grandes em qualidade teve também o seu mérito. E para o ano? “Não sabemos, essas montras ainda não foram descerradas”, brinca Sara Serrão. E apoio da câmara? “Este evento mostra a força dos pequenos, da independência e da força da população, mas tivemos apoio logístico da câmara, agora apoio financeiro camarário é algo que temos de debater na Transição, se precisamos e se queremos”, remata.

 

Destaque final para uma estranha obra de arte que apareceu na rua, um garrafão de água ferrugenta. Será instalação? Não, apenas uma forma de protesto que aproveita a presença de visitas para denunciar o problema da água com excesso de magnésio (ver reportagem no site peça "São Luís desespera com água da rede cor de ferrugem")

 

Por Ricardo Vilhena (não usa AO)