TURISMO

Duna Parque hotel group

História integração e inovação

2016-08-22
Fomos falar com Jan Wiggert Kuijvenhoven, o administrador do grupo Duna Parque Hotel Group, um homem com algum cuidado nas palavras e com um sentido de humor apurado, também sarcástico

Curiosamente, segundo Jan Wiggert, o nome Duna Parque é “geralmente associado à sua localização junto das dunas de Vila Nova de Milfontes, mas o que as pessoas desconhecem é que a origem do nome ‘Duna Parque’ está na tradução literal do Holandês para o Português do nosso nome de família: Kuijvenhoven”. 

 

 

O GRUPO

 

Seguindo as pegadas do pai, Jan Wiggert cedo se dedicou às lides da gestão hoteleira. Começou como gerente do Duna Parque, nos finais dos anos 80, e é neste momento o responsável por todo o grupo.

 

O Duna Parque Hotel Group gere hoje cerca de duzentas unidades de estadia - desde  os tradicionais quartos de duas pessoas até aos apartamentos e moradias de seis pessoas - em dez lugares distintos, entre o concelho de Odemira e o concelho de Mértola.

 

O grupo conta ainda com cinco restaurantes que vão da comida mais tradicional como o tão famoso ‘bitoque na pedra’ até à comida internacional como a italiana e a japonesa. São eles o HS Buffet & Grill, HS Pasta e Pizza, Casa dos Bifes e Duna Sushi, em Vila Nova de Milfontes e o Seppia no Alentejo Hotel Star, em S. Domingos (Mértola)

 

 

AS PESSOAS

 

São mais de cem as pessoas que trabalham diretamente para o Duna Parque Hotel Group. A desertificação do interior do concelho de Odemira é notória com a diminuição acentuada da população. Vila Nova de Milfontes e Boavista dos Pinheiros têm compensado alguma dessa perda. Ainda assim, e segundo Jan Wiggert, “os recursos humanos continuam a ser um problema, antigamente tinhamos muitas pessoas da freguesia, depois começamos a ter pessoas mais do interior do concelho e hoje temos gente do resto do Alentejo (os alentejanos do interior gostam da ideia do Alentejo Litoral) e temos também alguns estrangeiros que prevejo virmos a ter cada vez mais”, conclui.

 

A experiência com os estágios no grupo “é positiva”, diz, e “há quem tenha feito um estágio de duas ou três semanas e tenha ficado por cá para ‘fazer’ o verão”.

 

Jan Wiggert acredita na integração das pessoas na sociedade através do trabalho e afirma: “o que eu gosto na nossa empresa é que não fazemos parte de nenhum grupo religioso, político ou outro, e assim atraímos pessoas muito diversas para trabalhar connosco como alguns estrangeiros que vivem um pouco na margem da sociedade local”.

 

“Se é homem ou mulher, novo ou velho qual a sua etnia ou a sua cor, etc., nada disto é assunto”, diz Jan Wiggert, “as pessoas quando vão para outro país querem ser iguais, querem ter os mesmos direitos e deveres mas na Europa somos todos holandeses ou portugueses ou turcos e desta forma não funciona bem e reparar isso, agora, é difícil”, e continua, “nos Estados Unidos da América são todos americanos, é o famoso ‘melting pot’”.

 

Jan Wiggert confessa que é confrontado com algumas ideias que não acha corretas, “hoje em dia não se podem tolerar piadas racistas porque no final de contas as pessoas só querem ser tratadas por igual e quanto a isso há um longo caminho a percorrer, incluindo no concelho de Odemira e de certeza que as pessoas que vêm para cá têm os seus motivos e nós temos de viver com isso”, e questiona, com algum humor, “se um dia não houver mais ninguém que queira vir, o que é que faremos?”.

 

 

OS MELHORAMENTOS EM VILA NOVA DE MILFONTES

 

Quer a construção do jardim público quer a obra da requalificação urbana e costeira de Vila Nova de Milfontes, para Jan Wiggert, “são obras de grande necessidade para a freguesia e finalmente alguma coisa está a ser feita para bem da comunidade e do turismo, 5 estrelas”, diz.

 

Jan Wiggert considera que, de seguida, existem três coisas que podem ser feitas em Vila Nova de Milfontes, com “muito mais facilidade e muito menos capital do que o programa Polis”.

 

A primeira é “a remoção do lixo, a limpeza das ruas, das ervas que crescem por todo o lado, a vila não está cuidada e isso afeta o turismo e, consequentemente, as pessoas que trabalham nessa área”, afirma.

 

A segunda são os arranjos das rotundas. “Quando vou a Mértola passo por muitas terras alentejanas e reparo que as rotundas de Vila Nova de Milfontes são as que estão menos cuidadas, até os nossos vizinhos de Porto Covo estão a fazer alguma coisa e a ideia de lá colocar um barco não é tão despropositada quanto isso”, prossegue com um sorriso.

 

Por último “temos de arranjar um modelo, uma forma de vender Vila Nova de Milfontes como um Resort”, adianta.

 

 

MILFONTES RESORT

 

Segundo Jan Wiggert, “as pessoas não têm noção mas, no negócio do turismo no Alentejo, Vila Nova de Milfontes está logo a seguir a Évora, em termos de procura, em termos económicos para o setor, depois a Zambujeira do Mar, Marvão, Elvas... e o restante não tem grande expressão”.

 

Quem fizer uma pesquisa online depara-se com várias dezenas de unidades em oferta disponível. “Eu falo com os operadores que têm os seus dados, eu sei o que se passa no Marvão, por exemplo, e em Mértola, sei onde o turismo ‘mexe’ e isto aqui, em termos económicos, ‘mexe’”, diz Jan Wiggert.

 

“O que se passa é que não estamos a vender bem o nosso produto, não temos um marketing planeado, não há nenhuma entidade que aposte nisso, seja o Turismo do Alentejo, a Câmara Municipal ou a Junta de Freguesia, não há esforço nem para Vila Nova de Milfontes, nem para a Zambujeira do Mar nem para o Almograve”, afirma e prossegue, “o Turismo do Alentejo diz que tem de promover o Alentejo e não apenas um concelho, a Câmara diz que tem de promover o concelho e não apenas uma freguesia, a Junta de Freguesia sabemos o orçamento que tem...”.

 

Para Jan Wiggert se, por ventura, fosse necessário colocar um subtítulo por baixo de Vila Nova de Milfontes seria ‘praia e náutica’, “não é só canoagem, isso tem de evoluir, tem de ser algo mais abrangente porque há muitas empresas que trabalham o rio com muitas atividades náuticas, ‘stand up paddle board, surf, bodyboard, surf ski, pesca, passeios no rio, etc.”.

 

A ideia de Milfontes Resort surge da necessidade de se encontrar um modelo, eventualmente que se autofinancie, em conjunto com as restantes unidades hoteleiras da freguesia “mas fomos nós, em conjunto com outras duas unidades de alojamento, a financiá-la”, diz Jan Wiggert.

 

O Duna Parque Hotel Group, nesta plataforma trata apenas do alojamento. “A parte da restauração e de outros negócios ou atividades e o desenvolvimento do website estão por conta de Luís Freitas”, diz Jan Wiggert que admite não saber se tem “tempo, energia e capital disponível para levar o projeto para a frente sozinho mas eu queria dar o exemplo do posicionamento de Milfontes como um Resort, porque isto pode ser visto como tal, as pessoas de fora de Portugal, o mercado internacional, não encaram Milfontes como um destino de permanência para as suas férias e isso pode ser mudado com uma estratégia de marketing correta”, sublinha.

 

Vila Nova de Milfontes tem hotéis, tem restaurantes e um número considerável de micro empresas de animação turística “portanto, nós temos cá tudo, só que não está a ser vendido convenientemente”, afirma Jan Wiggert, “e o grande desafio é cativar as pessoas de fora a prolongar a sua estadia e espero agora que esta primeira abordagem de Milfontes Resort seja bem aceite por outros e que se pegue nisto mas para se concretizar são precisas verbas ‘a sério’”.

 

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O MERCÚRIO aproveitou a visita ao Duna Parque Hotel Group para falar com Graça Ramos, Isilda Simão e Cláudia Silva, três das pessoas que trabalham no grupo e que deixam aqui o seu testemunho na primeira pessoa.

 

Graça Ramos

Gerente responsável pela Restauração do HS Milfontes Beach

 

Comecei por trabalhar noutra área do grupo mas agora estou a coordenar esta equipa para que trabalhe em boa forma, para que haja bom atendimento e que todos os clientes sejam bem recebidos, que fiquem satisfeitos e que queiram voltar.

 

É um trabalho aliciante porque é uma forma de podermos contactar com os clientes, de conhecê-los e saber se estão a gostar da sua estadia. Ao fim e ao cabo é aqui, num dos restaurantes, que as pessoas têm um pouco de tempo para se sentar, descansar, comer uma boa refeição e descontrair. É, portanto, a oportunidade de conseguirmos saber onde podemos melhorar o nosso serviço.

 

A restauração não é uma área fácil mas aqui é uma área bonita porque temos quatro conceitos: o Grill, a Pizzaria, a Casa dos Bifes e o Sushi. É engraçado como, sendo o Duna Parque Hotel Group um grupo grande e com uma grande variedade de clientes, conseguimos conciliar estes conceitos e direcioná-los para que os clientes se reúnam todos aqui e que tenham a oportunidade de conhecer a nossa gastronomia.

 

Tenho um ‘Staff’ grande e pretendo conseguir gerir isto com uma boa harmonia porque é aqui que passamos uma grande parte do nosso tempo.

 

O valor das pessoas está no seu ser e na sua essência, valorizando-nos. E se nós tivermos isso sempre presente conseguimos transmiti-lo às outras pessoas. Gosto de passar boas mensagens e de fazer as pessoas se sentirem bem para que trabalhem satisfeitas, com um sorriso, transformando o negativo em positivo.

 

A empresa aposta muito nos jovens. Eles começam por vir para cá estagiar. Vêm com muitas dúvidas acerca das suas capacidades mas aqui abrimos-lhes as portas. São jovens de 16 ou 18 anos que ainda não sabem muito bem que direção tomar e aqui podem aflorar as diversas especialidades. Muitos, depois de concluir o estágio, percebem que gostam disto e acabam por ficar a trabalhar connosco durante o verão. Desta forma nós conseguimos desenvolver melhor as suas competências e, como temos várias áreas dentro do grupo, como o turismo ambiental ou em espaço rural, eles têm aqui a oportunidade de definir melhor a as suas afinidades e aptidões.

 

Eu quero realçar a importância de se perceber e valorizar o esforço realizado pelo Duna Parque Hotel Group em manter um nível alto de empregabilidade durante todo o ano, dando ao pessoal alguma estabilidade, algo que penso ser pouco comum na maior parte das empresas do ramo da hotelaria da nossa freguesia, e mesmo do concelho de Odemira, devido à sazonalidade. Penso que esta é uma forma de fixar pessoas e de dinamizar e fazer crescer a economia local.

 

 

Isilda Simão

Dirige as lavandarias do Duna Parque Hotel Group

 

Eu já venho do tempo em que o HS tinha a gestão da Santa Casa da Misericórdia de Odemira. Com a nova gestão houve um pequeno desvio das minhas funções aqui dentro mas rapidamente o Jan Wiggert percebeu que eu estaria melhor neste cargo e voltou a dar-me o ‘comando’, agora não de uma mas de duas lavandarias (risos), o que para mim representa uma enorme responsabilidade e um desafio que me dá maior sentido à vida.

 

O nosso intento aqui é darmos o máximo de qualidade de roupa e de asseio aos nossos clientes. Dentro dessa perspetiva trabalhamos muito com os outros sectores de todas as unidades.

 

A nossa equipa não é tão jovem como a da restauração, embora também tenhamos estagiários de vez em quando, que atravessam os vários sectores, através de um protocolo que temos com o Colégio Nossa Senhora da Graça. Somos poucas pessoas mas todas muito boas (risos). É uma equipa muito unida que se vê como uma família. Somos todas pessoas que agarram o seu trabalho e sabem o que estão a fazer. Aqui fazemos tudo: lavagem, secagem, engomamos, dobramos, temos a costura, tratamos de toda a roupa da hotelaria, da restauração, dos clientes que o solicitem, tudo.

 

Nesta empresa há pessoas que são muito polivalentes que quando precisamos delas estão sempre dispostas a ajudar. As pessoas vivem do seu trabalho. E aqui em Vila Nova de Milfontes o que é que temos? Turismo. Por isso, esta maneira de trabalhar ajuda as pessoas a manter o seu posto de trabalho o ano inteiro.

 

Desde que este hotel passou para a empresa Duna Parque, o pessoal triplicou. Aqui há uma dinâmica especial, há inovação. O Jan Wiggert não para e conta com a equipa dele porque se o pessoal vê que o patrão trabalha, tem tendência a trabalhar também. E se ele consegue, nós também conseguimos (risos)... e vamos atrás. Para um barco funcionar tem de ter um bom comandante e nós, aqui, temos uma pessoa muito humana que se preocupa com as pessoas e os seus problemas. Esta é uma empresa integradora.

 

Há um caso aqui muito bem sucedido de uma pessoa que veio da CERCI sem autonomia nenhuma, tinha muitas crises e era muito difícil trabalhar com ela. Hoje, se for preciso, ela faz o seu trabalho sozinha e fica perfeito. Neste momento é autónoma e tem carta de condução e tudo.

 

Quando alguém vem para cá trabalhar pode ir fazendo pequenos trabalhos mas pode também evoluir porque lhes são dadas ferramentas de trabalho e oportunidades. E isso não é muito comum noutras empresas.

 

 

Cláudia Silva

Diretora Técnica da atividade física do grupo

 

Eu trabalho no ginásio do HS Milfontes Beach. Sou de Arruda dos Vinhos e sou licenciada em desporto e formei-me em Personal Training no Holmes Place, em Lisboa.

 

Costumava vir para cá trabalhar no verão mas depois tive a oportunidade de dar aulas de educação física na escola. Entretanto não foi possível continuar com esse trabalho e vim para aqui trabalhar a tempo inteiro. Primeiro no restaurante, depois na receção do Duna Parque Beach Club, depois ainda na receção e no ginásio e, finalmente, foi-me dada a oportunidade de ficar como diretora técnica do ginásio, porque aqui as oportunidades são dadas a quem quer trabalhar. Sinto também que nesta empresa existe uma grande camaradagem.

 

O meu trabalho é controlar tudo o que envolve a atividade física do grupo. Aqui as coisas têm de ser um pouco diferentes do que em Lisboa, onde tudo se paga. E com isso temos conseguido um aumento de pessoas a treinar, sobretudo junto da população local mas também do Cercal e de Odemira. Durante o verão temos também os clientes que vêm de férias mas que pretendem manter os seus treinos nas máquinas de exercícios.

 

Desde que a pessoa chega que eu faço um acompanhamento pessoal para que não se desmotive. A minha ideia é manter o nível de satisfação das pessoas, que não se aborreçam de fazer sempre a mesma coisa e por isso os meus planos de exercício são dinâmicos.

 

A primeira coisa que faço é uma avaliação inicial, depois é estipulado o plano de treino para um ou dois meses. No final faz-se uma nova avaliação, vê-se a evolução de cada um e faz-se um novo plano de treino diferente, para não desencorajar e para que as pessoas sintam outro estímulo. E assim garantimos a continuidade do treino.

 

Se alguém não gosta de um determinado exercício, ou não gosta das máquinas, por exemplo, eu faço um treino completamente diferente porque é melhor as pessoas fazerem o que gostam do que fazerem frete e desistirem.

 

Há também aqui alguns atletas de alta competição que fazem alguma horas de trabalho comigo, no ginásio.

 

 

Por Pedro Pinto Leite