PALAVRA DE PALHAÇO

TransformaGolo

Vencer também o dia-a-dia


Por:Enano Torres

2016-08-22
A equipa uniu-se sem o seu líder no campo e, enquanto todos diziam que a seleção sem ele não era nada, o impossível torna-se possível

Onde é que estavas na noite de 10 de Julho do 2016? Esta vai ser uma das perguntas mais lembradas no futuro dum pequeno-grande país chamado Portugal.

 

O mundo inteiro assistiu à mais grandiosa noite do futebol nacional onde, pela primeira vez na história, Portugal conquistou um título num grande torneio.

 

É uma história de encantar para relembrar, num campeonato que começou no dia 10 de Junho, dia de Portugal e acabou no 10 de Julho.

 

Havia de acabar em França, país hospedeiro mas pouco hospitaleiro.

 

França-Portugal, final do euro 2016. A final sonhada por muitos. Sobretudo para os milhares de imigrantes portugueses em terra gaulesa, onde por tantos e tantos anos foram considerados como “grandes trabalhadores” para, por fim, mostrar aos franceses que estão ali por direito.

 

De facto os franceses estavam a jogar no seu território, embora o estádio de Saint-Dennis tenha sido construído com as mãos, o suor e o sangue do tuga!

 

Pelo que, profundamente, posso dizer que jogámos em casa.

 

Começa o jogo e ninguém acredita no infortúnio maior lusitano quando um ‘médio’ francês provoca a lesão do CR7. O rapaz tenta seguir mas pouco depois verifica que não consegue e atira-se ao chão entre lágrimas de dor e de raiva. Milhões de portugueses, e não só, levam as mãos à cabeça; o derrotismo português ao pormenor: sem Cristiano não ganhamos!

 

Do nada aparece a parte poética, milagrosa, para consolar as lágrimas do Ronaldo. Uma borboleta poisa-lhe na pálpebra, beijou o olho choroso do capitão. Contam os mais velhos que era a reencarnação do Eusébio a dizer-lhe para não se preocupar que o herói, no jogo mais importante da Seleção, teria um outro nome. E após insistir em jogar dá-se conta de que o não consegue acabando por sair lesionado.

 

Os franceses respiram em tranquilidade e confiança quando sabem que o Rei já não está no relvado, mas o excesso de confiança nunca é bom.

 

A equipa uniu-se sem o seu líder no campo e, enquanto todos diziam que a seleção sem ele não era nada, o impossível torna-se possível. Os jogadores sacam força aumentada, se calhar com intervenção Divina, transformando a emoção em sentimento, garra, união, força ,solidariedade, espírito de equipa.

 

Vimos como Ronaldo mostrou o verdadeiro papel de líder na vontade de querer, na coragem, na valentia, na determinação, na forma como motivou os colegas como se fosse um segundo treinador; na forma como a lesão se transformou numa oportunidade e não numa catástrofe.

 

Confesso que, com esta atitude do Ronaldo, a minha admiração por ele aumentou pois foi o maior exemplo de positivismo ante um infortúnio e nos problemas do dia-a-dia de todos nós é este o exemplo que devemos seguir. 

 

Enquanto eram emitidas as imagens do Cristiano a dirigir, sinto que essa energia também chegou aos portugueses. Através do exemplo sentiram-se motivados, gerando uma corrente positiva, de vontade, de querer, de humildade e da força da perna dum Herói do Mar inesperado, que nos levou à vitória, vindo das profundezas da Mãe África; quem iria apostar que o nosso Eder, aquele que foi tão criticado por fazer parte de um clube francês, conhecido como o “Patinho Feio” ia dar o inédito título a Portugal?

 

Sim, um negro desferiu o chuto milagroso, epopeico; diante da história que envolve a relação do país ibérico com o continente africano é impossível não nos sensibilizarmos com o feito maravilhoso do negro Eder, o órfão dos arrabaldes de Coimbra, tantas vezes renegado e maltratado, que saiu do banco e disse ao treinador que ia marcar o golo. A sua única intervenção na competição foi a mais importante e decisiva, com uma clara mensagem para além do futebol. Nunca se sabe de onde surgem os meios para concretizar os objetivos.

 

Deste primeiro título da Seleção Nacional podemos aplaudir a iniciativa de Portugal em vencer o preconceito e se arriscar em colocar nas mãos de um filho de África a oportunidade de dar alegria à tradição branca europeia. Além de comemorar mais uma vitória dos que acreditamos que todos somos iguais e que as fronteiras são apenas linhas imaginárias que delimitam diferentes culturas mas não deveriam dividir corações.

 

Um triunfo histórico que muito eleva o nome de Portugal além-fronteiras.

 

Um triunfo que gerou um retorno mediático para os patrocinadores de 117 milhões, além do título ter gerado um impacto de 609 milhões na economia portuguesa; reconhecendo que o futebol, além do desporto, é um negócio que gera muito dinheiro.

 

Já agora, gostava de destacar a figura do Senhor Engenheiro Fernando Santos, um treinador que escreveu a carta de agradecimento pela vitória três semanas antes da final!

 

Que sempre afirmou que só regressaria a Portugal no dia 11 com a Taça, que soube transmitir essa força, essa vontade a todos os jogadores, e bem! É essa força que nos permite estar unidos num único propósito e conseguir o que pretendemos.

 

Sermos ativos, protagonistas e decisores da nossa vida, esta força pode ser canalizada para tudo o que quisermos na vida, muito para além do desporto!

 

É esta a lição que devemos tirar; nós temos o poder de mudar; nós temos o poder de criar a nossa realidade; sem sermos vítimas dos acontecimentos, podemos ser a causa e não apenas um efeito.

 

Por favor chega de fado triste e baixa autoestima. Nós podemos, nós conseguimos. Que venha a positividade, a alegria, a comemoração constante da Vida diária, da nossa própria descoberta e realização.

 

Que tenhamos essa borboleta voadora que lembre, nos momentos cinzentos, que nós temos o poder absoluto de mudar e que ninguém nos diga que somos menos que os outros, pois realmente a diferença está em cada um de nós, no que fazemos e como o fazemos.

 

A diferença no caminho começou com o pontapé do nosso antigo “patinho feio”, agora Comendador, para cada um dos nossos corações. Agora é saber qual é nosso jogo na vida, a equipa que temos e termos determinação para ultrapassar as barreiras do dia-a-dia sem espírito derrotista. Pois malta: somos Campeões da Europa!!!