NA PRIMEIRA PESSOA

Porque terão os equipamentos municipais de fechar para férias?

Não há explicação


Por:Manuel Cruz

2016-08-22
Mais de quarenta anos desses tempos iniciais da iniciativa popular, os executores do poder político, democraticamente eleitos, no Município de Odemira, infelizmente, não conseguiram interiorizar

Faço parte de uma geração de homens e mulheres que cresceram inventando e criando, com empenho e muito trabalho, que lutaram para viverem numa sociedade fraterna, livre e plural, com a plenitude de direitos, de igualdade sem discriminação pelas opções culturais, religiosas, políticas ou pela raça de origem de cada um.

 

Tinha quinze anos quando fui trabalhar para a “loja”, naquele final do ano de 1968. Nesse ano de lutas pela liberdade em França, continuava a escuridão e o sufoco da ditadura salazarista em Portugal.

 

A guerra nas colónias em África servia de desculpa para que as liberdades e as iniciativas populares fossem limitadas e os ajuntamentos controlados e a criatividade oprimida.

 

Ao balcão, quando a tertúlia era fiel, falava-se com desagrado sobre as razões que tinham levado ao encerramento da Sociedade Recreativa.

 

Fundada em 15 de Março de 1929, por um grupo de pessoas entusiastas pela música, impulsionados por um professor que tinha sido “desterrado” por delito de opinião para o Alentejo profundo, com a criação de uma Tuna, foi durante mais de três décadas um espaço de democracia. Claro que uma democracia “inter pares” pois o acesso a sócio era muito selectivo e estava restrito a um núcleo de pessoas abastadas ou não o sendo trabalhavam no comércio ou nos serviços.

 

O governo civil foi restringido as actividades e aos poucos foi decaindo a frequência dos sócios e a sociedade fechou portas.

 

O entusiasmo do pós 25 de Abril de 1974, levou a que a juventude da terra tocasse a rebate, usando das amplas liberdades conquistadas, tomasse as rédeas da vida associativa, voltando a dar vida a um espaço de criação recreativa e cultural, claro, já com vida plena de democracia, onde a orientação era um espaço para todos.

 

Foram tempos de alegria de criação e de modelação duma geração que sabia o que queria para a comunidade.

 

Vem a propósito esta introdução para realçar o trabalho que homens e mulheres realizaram por todas as terras do nosso concelho.

 

Por todo o lado foram criados pelas populações espaços para a realização de acções culturais, recreativas e desportivas. Nesses tempos éramos nós, cidadãos deste concelho, que recolhíamos fundos para a compra dos materiais e que, com trabalho voluntário, íamos construindo os espaços comunitários.

 

E para quê? Para que todos os habitantes tivessem acesso à prática desportiva e cultural.

 

Com o tempo esse esforço foi sendo complementado com a construção de equipamentos Municipais.

 

O Estado democrático, trouxe-nos, talvez a primeira das conquistas de Abril, depois da liberdade: o Poder Local Democrático e a Lei de Finanças Locais que dotou os Municípios de meios financeiros.

 

E o Município de Odemira foi construindo espaços com qualidade que permitem aos Munícipes o seu uso, engrandecendo o seu beme-star físico e intelectual.

 

Mas… Hoje, em 2016 da era Cristã, mais de quarenta anos depois desses tempos da iniciativa popular, os executores do poder político, democraticamente eleitos, no Município de Odemira, infelizmente, não conseguiram interiorizar os muitos exemplos que as associações culturais e desportivas fazem no seu dia-a-dia para que as instalações estejam ao serviço das comunidades todos os meses do ano e ano após ano.

 

Constata-se que lhes falta talvez o facto de não ser preciso fazer, pois podem mandar fazer. E este pequeno pormenor faz toda a diferença. Quando a comunidade faz é porque quer usufruir e sente a necessidade de que faz falta e é importante. Quando se manda fazer, pode não se sentir exactamente a amplitude da necessidade do seu uso.

 

Apetece-me gritar alto e exteriorizar o meu descontentamento e pergunto:

 

Será que os habitantes do concelho de Odemira vão todos gozar as suas férias para fora do concelho?

 

Porque será que no mês de Agosto, ano após ano, não têm o direito de frequentar a Biblioteca Municipal “José Saramago” em Odemira ao fim de semana? Porque é que o horário normal de funcionamento não abrange parte da noite, para que quem trabalha possa também ter o seu usufruto?

 

Qual a razão para que neste mês não possam ir ao Cineteatro Municipal “Camacho Costa”, na sede do concelho?

 

E quanto ao usufruto das Piscinas, no complexo desportivo municipal “Justino Santos”, porque estão impedidos, no oitavo mês do ano, de as utilizar?

 

Porque estão fechadas, na hora de almoço, as casas de banho e balneários no centro da vila? Porque é que não abrem ao fim de semana? E os visitantes da vila, aos Domingos, com o comércio fechado, aonde podem fazer “xixi”?

 

Protesto!!!

 

Não é aceitável a desculpa de que os funcionários em serviço nestes equipamentos terem que ter férias, pois todos os outros serviços do Município não fecham em mês nenhum e também os colegas desses serviços gozam os dias de férias a que têm direito.

 

Argumento, justificando…

 

No mês em que estão no concelho o maior número de pessoas, estão cá os filhos do concelho emigrados que regressaram para o gozo das suas férias, estão também os muitos turistas que nos visitam. É também um mês de maior disponibilidade para muitos residentes que gozam as suas férias “cá dentro”.

 

Não nos cansamos de dizer que somos um concelho “Odemirável” para viver e visitar.

 

Gastam-se muitos recursos do Município para transmitir essa mensagem, mas depois… o apoio que o Município tinha a obrigação dar, para ajudar nesse desígnio, do desenvolvimento económico ao sector do turismo, era ter disponíveis esses equipamentos de uso colectivo. Mas o que tem de facto são esses equipamentos “fora de serviço”, também a descansar dum ano de utilização.

 

É tempo de reflectir e dizer basta!!!

 

Queremos os equipamentos em Agosto ao “Serviço do Povo” quer seja o povo residente ou o visitante.

 

Os equipamentos são, por direito, dos cidadãos e ninguém lhos pode privar o pleno uso.