MIRADOIRO

Clichés e outras formas de não-pensamento

Desmontar e denunciar clichés, em qualquer campo que seja, é um acto cultural


Por:António Quaresma

2016-08-22
Quando o conceito histórico “corsários” passou para o léxico comum a imagem geralmente escolhida para o representar foi a dos “piratas das caraíbas”. As tentativas de alterar este imaginário têm sido baldad

Desmontar e denunciar clichés, em qualquer campo que seja, é um acto cultural. Na verdade, o lugar-comum constitui uma forma estereotipada e enviesada de olhar a realidade e um meio de anulação do pensamento, de supressão da razão.

 

O Mercúrio glosou, há algum tempo, o cliché preferido de muitos odemirenses e eu ouvi-o ontem repetido em público: “Odemira é o maior concelho da Europa”. Em que se baseia esta afirmação? Ninguém sabe. Faz sentido este tipo de comparações? Não, claro, pois a administração local e as respectivas células territoriais variam nos países da Europa. Alguém um dia, insatisfeito com o facto de Odemira ser o concelho mais extenso do País, alargou-lhe esta qualidade à Europa, e, graças à ausência de “espírito crítico” (já agora, não confundir este com o vício de apontar defeitos), a coisa pegou.

 

Há dias escutei, também em público, outro já velho chavão odemirense, que confirma esta espécie de mania do ranking: “o Mira é o rio menos poluído da Europa”. Sem se pôr em causa a excelência do rio Mira, em vários aspectos, trata-se mais uma vez de uma afirmação gratuita, de que, além disso, o Mira não precisa. Que trabalho científico a comprova? A que parâmetros diz respeito? A que tempo se refere?

 

Ainda um terceiro exemplo, também local: quando o conceito histórico “corsários” passou para o léxico comum e para realidades como feiras de turismo, concursos, etc., a imagem geralmente escolhida para representar o corsário foi a dos “piratas das caraíbas”, extraída dos filmes de Hollywood e da Internet. As tentativas de alterar este imaginário têm sido baldadas. Há, até, quem tenha respondido que “está bem assim!”: aqui, além da ignorância, é a arrogância no seu esplendor!

 

Os clichés citados nestes exemplos constituem formas benignas e, dir-se-á, o seu uso não traz qualquer mal ao mundo. Em certa medida – apenas em certa medida – é verdade. Mas eles denotam, na época do acesso fácil à informação, a credulidade acrítica, a falta de base cultural mínima, enfim a incapacidade de superar afirmações e informações, cuja veracidade deveria, à partida, pôr-se em causa, parcial ou totalmente.

 

Há poucas horas abri o Facebook, e lá estavam outras formas, mais ou menos vincadas, de não-pensamento. Numa delas um “amigo de facebook” tinha partilhado e comentado uma notícia, cuja veracidade não havia confirmado, porque, muito simplesmente, servia a sua opção partidária, aliás de acordo com um padrão muito corriqueiro. Neste caso é o sectarismo que, perante um espírito crítico menos forte, se impõe.

 

Pode objectar-se, relativizando a pertinência desta prosa, com argumentos estimáveis, estivessem eles noutro contexto, que se está a exigir um grau de sofisticação que nem todos podem ter e que é normal haver gostos, ideias e posições diferentes. Mas eu lembro que o pensamento é a característica que melhor define a espécie humana e que os casos acima citados representam formas demasiado superficiais e truncadas de pensamento.

 

Creio que é difícil estar sempre isento de cair no “pecado” que aqui se repudia, mas abjurá-lo conscientemente ajuda muito.