EDITORIAL

A inconsequência do inconseguimento

O exemplo da gestão pública


Por:Pedro Pinto Leite

ilustração: Ema Falcão
2016-09-25
Um gestor público deveria ter a mesma perspetiva de um desportista radical: falhar, o mínimo pormenor que seja, pode provocar a morte do ‘artista’. Por isso, tudo deve estar o mais
acautelado possível para que o ris

Paulo Soares de Pinho, professor da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, diz que “o direito a falhar empresarialmente é fundamental para que existam empreendedores”, sendo estes “pessoas propensas ao risco, tomam iniciativas que muito poucos ousariam e que sem eles nunca seriam tentadas. No geral, as perdas em que fazem a economia incorrer acabam por ser substancialmente inferiores aos ganhos espetaculares das iniciativas bem-sucedidas. E, por definição de risco, a probabilidade de falhar é obviamente elevada”.

 

É bom que se faça a diferença entre direito a falhar e incompetência: um empreendedor aprende com os erros; um incompetente, não.

 

Há uns anos, numa sessão pública de esclarecimentos sobre programas de apoios financeiros europeus, havia alguém do público, um pouco indignado, que falava do direito ao erro e que aqueles programas não previam isso.

 

Simplificando, a execução das candidaturas em questão teria de ter sucesso e um sucesso que se medisse em folha de cálculo, em números. E quanto maiores, melhor. Caso contrário, o candidato teria de devolver o financiamento.

 

Muitas coisas são previsíveis. Até alguns imprevistos. Mas nada é garantido e pode sempre haver erros e falhas e insucessos. Mas, com estratégia, planeamento, antecipação e alguma experiência, os erros podem ser minorados e o sucesso mais fácil de atingir.

 

Então, se por um lado o meio académico defende ao empreendedorismo o direito a falhar como um promotor do sucesso porque é que as instituições públicas não contemplam essa eventualidade?

 

A grande diferença está no capital. No primeiro caso o capital é privado e no segundo, público. E isso faz toda a diferença.

 

As instituições públicas não preveem o erro porque o dinheiro é dos contribuintes, pago com os seus impostos. Mesmo os fundos comunitários têm origem nos impostos, não caem do céu. Por mais que muita gente queira fazê-lo crer, o dinheiro público não serve para fazer experiências.

 

Nesse caso, a gestão pública deveria ser exemplar.

 

Devia, mas não é!

 

Não o é porque a sociedade civil não é tão exigente com as instituições como as instituições o são para consigo. A sociedade portuguesa é muito refilona mas pouco exigente (exceto para com os filhos).

 

Ouve-se com frequência dizer que os políticos “fazem o que querem”. O que, até certo ponto, é verdade porque o povo o permite.

 

Um gestor público deveria ter a mesma perspetiva de um desportista radical: falhar, o mínimo pormenor que seja, pode provocar a morte do ‘artista’. Por isso, tudo deve estar o mais acautelado possível para que o risco seja mínimo.

 

Daí os projetos, as comissões, os concursos, as consultas públicas, et cetera.

 

O investimento público não é um investimento de risco, como aquele que faz um empreendedor. Na gestão pública não há espaço para a tentativa erro porque isso sai muito caro, sai do bolso de todos e não apenas de alguns.

 

Um empreendedor que falhe constantemente é despedido ou posto de parte ou o seu nome fica “manchado” mas, um gestor público “incompetente”, para usar as palavras de Paulo Soares de Pinho, “nunca é despedido e vai sendo promovido por antiguidade”, ou pelos votos.

 

Porque o MERCÚRIO é de Odemira, veja-se apenas um exemplo local de um grande “incoseguimento” sem qualquer consequência: o parque de estacionamento da praia do Malhão, feito apesar dos avisos da população, desfeito (leia-se destruído) pelas evidências, e refeito (leia-se remendado) como deveria ter sido feito. Tudo com dinheiro dos contribuintes.

 

Numa tentativa de tranquilizar a população, o presidente da câmara desculpa-se com o projetista e reforça a ideia de que a obra não é feita com dinheiro da câmara, “é uma obra do Estado”. Ufa! Assim a população fica muito mais descansada.

 

P.S. (de Post Scriptum e não o outro) - Já agora, os pinos e os sinais de trânsito retirados foram devolvidos ao projetista, deitados fora, vendidos e desta forma recuperado algum capital, ou vai haver uma consulta pública para se saber onde devem ser colocados? Fica a pergunta.