PALAVRA DE PALHAÇO

Venano Verão

Até 2017


Por:Enano Torres

2016-09-25
Geralmente o público alvo associado ao palhaço são as crianças mas esta teoria comigo, posso assegurar, não é válida

Desde há doze anos, na época do verão, fico na nossa Costa Alentejana realizando espetáculos de rua, cada noite, em Milfontes, Zambujeira e Porto Covo, nos meses de julho e agosto, abdicando de viajar para o estrangeiro onde tenho convites para trabalhar em Festivais Internacionais de Teatro de Rua, preferindo estar na terra onde moro para entreter os residentes e os milhares de turistas que nos visitam na época balnear.

 

Esta temporada fiz 53 espetáculos pelas noites, com uma média de 350 pessoas por espetáculo, o que dá no total umas 18.550 pessoas que apreciaram as improvisações, aventuras e desventuras do Palhaço Enano e não só, mas também, das centenas de voluntários que participaram, pois os shows são baseados na participação ativa do público.

 

Geralmente o público alvo associado ao palhaço são as crianças mas esta teoria comigo, posso assegurar, não é válida pois a presença contínua e repetida de adultos no meu show é uma constante, cada noite.

 

Tenho famílias, que ano após ano repetem a sua presença, do norte ao sul de Portugal e também muitos emigrantes e estrangeiros que marcam na agenda das férias datas para “ver o Palhaço Enano”; algumas delas, antes de escolher o lugar de destino de férias, até perguntam com antecedência se estarei a realizar shows nos lugares do costume, ou as crianças que, ao longo do ano, perguntam aos papás quanto falta para ver o Palhaço.

 

Com estes factos verifico que, ao longo deste tempo, converti-me numa referente e deliciosa atração turística para as noites do verão no lugar onde decidi residir há 15 anos; a prova está nas centenas de pessoas que assistem às apresentações, uma e outra vez.

 

Já agora gostaria de agradecer publicamente às Juntas de Freguesias de São Teotónio, Vila Nova de Milfontes (Câmara Municipal de Odemira) e também à Junta de Porto Covo, pela confiança depositada em mim, permitindo-me ter um espaço para desenvolver a Arte de Rua, ou como eu chamo: o Teatro da Liberdade.

 

Desejo partilhar convosco um facto que aconteceu comigo em agosto num dos shows na Zambujeira do Mar, o qual ficou marcado no meu coração e, curiosamente, o seu protagonista não era um turista mas um idoso residente da vila.

 

Ele estava a espreitar o meu show, isolado, distante do público. Reparei nisso e convidei-o para vir mais para a frente. Sentei-o numa das cadeiras que levo e ficou a ver o meu espetáculo. Todo (hora e meia). No fim, quando as pessoas remuneram a Arte de Rua no chapéu, ele aproximou-se devagarinho, esperou que as crianças tirassem as fotos com o Palhaço, tirou um envelope branco antigo (onde imagino que guarda a sua pensão) e deu-me, na mão, uma nota de dez euros...

 

Eu fiquei aflito, comovido com seu gesto, ganhei coragem e pedi para poder tirar esta foto com o Sr. Alentejano da Zambujeira que me partiu o coração! Agradeceu, mais uma vez, o meu trabalho e foi-se embora devagarinho com paradas constantes para olhar o lugar eterno do nosso encontro.

 

Na semana seguinte, olhei para esse mesmo lugar e lá estava ele outra vez preparado para ver o show com a energia inspiradora e mágica do palhaço e do seu público para voltar a sentir-se criança. E não estava só mas, felizmente, acompanhado.

 

Meus sinceros agradecimentos a todas as pessoas que assistiram aos meus shows e que tornam impossível não escrever: até 2017 no Venano do Verão!