DE QUEM É O OLHAR

Democracia na vida quotidiana

É importante vencer o medo


Por:Monika Dresing

2016-09-25
E, sem este sabor a democracia, desaparece também o interesse pela política porque esta parece ser ‘dos outros’, dos poderosos, algo que não se pode influenciar

Muitas vezes utilizamos algumas das palavras que “desde sempre” faziam parte da nossa linguagem activa sem pensarmos no significado concreto ou nos vários significados que possam ter, p. ex. as palavras democracia, liberdade, igualdade, etc. São noções que facilmente se podem tornar em palavras ocas, qualquer coisa como bandeiras ideológicas, que ouvimos e dizemos, pensando que descrevem uma realidade sobre a qual já não é necessário reflectir. Só que “a realidade” não é uma coisa fixa, os tempos mudam e com eles os conteúdos destas noções abstractas.

 

O que significa a democracia para nós e a nossa vida? Qual é o conteúdo concreto, quer dizer, como se aplica a democracia no dia-a-dia? Quais são os direitos que temos, quais as obrigações? Como podemos obter os nossos direitos, como podemos controlar os que nos governam? O que distingue uma vida na democracia duma vida na ditadura?

 

Recentemente li um discurso feito por uma filósofa alemã, Carolin Emcke, que falou sobre liberdade, igualdade, fraternidade, dizendo que é necessário traduzir estas noções em experiências para que elas possam ser imagináveis. Segundo ela, a linguagem dos especialistas tem que ser traduzida em realidades democráticas vividas. São necessárias histórias concretas para percebermos qual o sabor da liberdade, qual a sensação da igualdade, qual o som da fraternidade.

 

Mais uma vez: O que é a democracia para nós? Quais são as condições, na sociedade e dentro de nós, para que possamos ter estas experiências e viver uma vida democrática? Como podemos traduzir a palavra democracia numa realidade vivida?

 

De acordo com a constituição, Portugal é um país de direito, o que significa que também o estado, quer dizer, as instituições, os políticos, os funcionários têm que obedecer à legislação em vigor. Assim, deveria ser possível resolver todos os litígios, todas as divergências de forma inequívoca. Sabemos bem que a realidade é outra.

 

Já várias vezes ouvi dizer que certas pessoas tinham medo de se queixar quando os seus direitos tinham sido desrespeitados. Receavam represálias, tinham medo de serem intimidadas e preferiam calar-se. Às vezes, este medo tem a sua justificação numa experiência concreta já vivida, mas muitas vezes é um medo pouco claro, a ideia de que “as autoridades” têm sempre o poder de prejudicar as pessoas, que fazem o que quiserem, que “não vale a pena” opor-se a uma decisão que é ou parece ser injusta.

 

Este medo que quase toda a gente já alguma vez sentiu impede que se possa saborear a democracia, sentir-se como um cidadão igual a qualquer um. E, sem este sabor a democracia, desaparece também o interesse pela política porque esta parece ser “dos outros”, dos poderosos, algo que não se pode influenciar.

 

Torna-se, portanto, muito importante vencer o medo. É difícil? Então temos que procurar suporte e ajuda. Há amigos que nos podem ajudar, vivemos em comunidades onde outras pessoas, às vezes, enfrentam os mesmos problemas, existe a Deco, associação que defende os direitos do consumidor, também perante os serviços públicos, podemos juntar-nos a outras pessoas e iniciar um movimento cívico em relação a um assunto específico, etc. No entanto, tudo isto tem uma condição indispensável: temos que falar sobre os problemas, torná-los públicos. Só assim é que podemos encontrar suporte. Com outras pessoas ao nosso lado o medo vai desaparecendo, não tenho dúvidas. E no fim já podemos sentir o que é a democracia, pelo menos um aspecto básico dela: não ter medo de autoridades.