E SE ALGUÉM SOUBESSE A RESPOSTA?

Ai que Vergonha!

A vergonha tem uma faceta adaptativa


Por:Maria Monteiro

2016-09-25
A vergonha é uma emoção auto consciente poderosa

É verdade que a vergonha tem uma faceta adaptativa, mas não é sobre essa que vou escrever! As experiências precoces na infância orientam e regulam o desenvolvimento físico, psicológico e social. Experiências precoces de calor/afeto e segurança contribuem de forma positiva para a saúde mental, promovem competências sociais, a felicidade e uma visão de si e dos outros mais favorável e funcional. Pelo contrário, experiências precoces ameaçadoras, como o abuso, o maltrato, a rejeição parental e o criticismo, têm sido associadas a maior vulnerabilidade para a psicopatologia e a fraco ajustamento sócio psicológico na idade adulta e também a sentimentos de vergonha. Link

 

É nas experiências precoces que iniciamos a socialização aprendendo os papéis e estatutos sociais a desempenhar em sociedade. As regras sociais são apresentadas à criança que por sua vez vai adquirindo competências de compreensão do funcionamento social. São estas competências que lhe permitem compreender que o outro tem uma opinião acerca dela e que essa opinião não lhe é indiferente. A opinião dos outros é valorizada e orienta o nosso comportamento no sentido de agradar o outro. Essa avaliação pelos outros das nossas características pessoais por vezes é alvo de críticas negativas fazendo-nos sentir desconfortáveis e, caso aconteça frequentemente, rejeitados e inferiorizados.

A vergonha é uma emoção auto consciente poderosa. É uma resposta aversiva face a uma ameaça ao eu que irá influenciar a forma como nos vemos. Tenha atenção ao que diz às crianças pois “(…)o tipo de rótulos que as figuras parentais poderão atribuir à criança (“burro”, “mau”, “desajeitado”), coloca-a numa posição indesejável/inatrativa e de estatuto inferior” (Bergner citado por Gilbert et al., 1998). “Estas experiências precoces de vergonha podem estabelecer na criança uma visão de si como mau ou defeituoso ou como tendo um baixo estatuto e pouca atratividade aos olhos dos outros, o que afetará a sua capacidade para tolerar deceções e conflitos subsequentes na vida adulta” (Gilbert et al., 1998) e podem ter um impacto traumático com consequências na vida futura. Tal vai ao encontro de estudos realizados por vários teóricos, que afirmam que a qualidade das interações precoces da criança e seus cuidadores é um importante mediador na relação entre a infância e a psicopatologia na idade adulta. Link

 “De acordo com Gilbert (2002a), a vergonha é uma experiência associada a significados pessoais e culturais específicos, e uma emoção multifacetada constituída por diversos aspetos e componentes:

1. Componente cognitivo social ou externo: a vergonha é experienciada em contextos sociais e encontra-se associada a pensamentos de que os outros nos veem como maus, inferiores, defeituosos, inadequados.

2. Componente de autoavaliação interna: a vergonha envolve uma autoavaliação global negativa, seja de inadequação, de inferioridade, comummente associada a pensamentos automáticos negativos acerca do Eu.

3. Componente emocional: as emoções e sentimentos envolvidos na vergonha são diversos e incluem, por exemplo, ansiedade, raiva, aversão e desprezo pelo Eu, estando relacionados com a repentina perda de afeto positivo. Esta emoção é muitas vezes tida como oposta ao orgulho e está relacionada com a auto diminuição.

4. Componente comportamental: a vergonha está frequentemente associada a comportamentos de defesa, com o intuito de esconder ou fugir. É exemplo, a inibição do comportamento.

5. Componente fisiológico: apesar de a sua natureza não estar clara, a vergonha encontra-se associada à resposta de stress, podendo envolver, em determinados casos, a ativação do sistema nervoso parassimpático.” Link

Sendo os pais os primeiros agentes de socialização é nas interações em família que as crianças aprendem e constroem uma representação de si e dos outros, das emoções, das formas de sentir e de se comportar. É nestas interações precoces que se começa a construir o sistema de regulação emocional que vai influenciar a forma como a criança lida com as emoções (positivas e negativas) no dia-a-dia. Ambientes em que as crianças são ridicularizadas, desvalorizadas que não permitem a expressão das emoções, a valorização e o reconhecimento provocam na criança uma perceção de que são fracas, desinteressantes e desvalorizadas pelos outros. Crescem com dificuldades em reconhecer as suas próprias emoções, em valorizar-se como pessoas e demonstram fraco ajustamento sócio psicológico na idade adulta.

O caminho a percorrer será em primeiro lugar tomar consciência das situações que podem provocar sentimentos de vergonha em nós e nos outros, dos pensamentos e sentimentos associados a essas situações e adotar uma atitude compassiva para consigo e para com os outros.