NA PRIMEIRA PESSOA

Momento de indecisão… um dilema que me provoca insónias…

enfim … reformas-te ou não te reformas?


Por:Manuel Cruz

Felix Russel-Saw
2016-09-25
Se me reformar este ano vou receber mais do que se me reformar mais tarde. Não deveria haver uma situação de permanência das regras actuais, para situações como a minha, de períodos contributivos longos, que permiti

Longe ficou o ido dia 29 de Agosto de 1964 da era que Portugal adoptou para calendarizar o tempo pela qual, nós Portugueses, nos regemos.

 

Certamente não foi um dia diferente de muitos outros para o comum dos mortais que nasceram na nossa região, embora no concelho de Odemira, ao tempo, (pois hoje algumas tradições já não são o que eram), esse fosse um dia importante: de lazer, de convívio e de ida à praia. Era o dia dos banhos do 29 e da feira da praia da Zambujeira, portanto, um dia de efeméride e de festa no concelho.

 

Mas… para fim foi um marco daqueles construídos como uma pedra indestrutível, tão dura como o ferro, daquelas que abundam na freguesia de São Luís e que muitas iguais são também ícones e marcos do meu orgulho, por contribuírem para a construção de obras emblemáticas como são: o paredão da barragem de Santa Clara A Velha, que passados quase 50 anos continuam a reter as águas tranquilas, límpidas e preciosas do rio Mira; e os canais de rega que permitem transportar esse insubstituível e precioso líquido, que sacia a nossa sede e irriga os campos do perímetro de rega do Mira, que alimentando animais e plantas, vai criando valor em alimentos, lavando a sujidade dos nossos corpos cobertos do suor criado pelo labor do trabalho diário ou porventura expelido devido a momentos de relaxe ou de amor… e que tudo transforma.

 

Mas que marco?

 

Marcou-me para a vida, esse marco, pois foi o meu primeiro dia de trabalho para terceiros. Não contam o trabalho familiar na cava do milho, da rega do feijão, na sementeira das batatas, na apanha do grão, no desencamisar o milho ou no tratar dos animais domésticos, na ajuda à minha família.

 

O puto saiu do conforto da saia da mãezinha porque tinha que se fazer à vida, pois então… como todos os putos da minha geração... era assim e ponto final. Já era uma sorte ter tido a oportunidade de concluir a escolaridade obrigatória de então, a 4.ª Classe, o que os nossos pais não tinham obtido, e o darem-nos essa possibilidade foi, para eles, apesar do orgulho que tiveram, um sacrifício e mais canseira e trabalho. Estava na hora da saída do ninho.

 

Com esse conhecimento e saber (sim. “saber”!!! a 4:º classe era diferente, muitíssimo diferente, do 4.º ano de hoje) estava em condições, preparado, para o mercado de trabalho.

 

Os “marcos” são pedras com as quais fui construindo o meu castelo e a fortaleza, onde conto abrigar-me para passar, com dignidade, os dias que percorrerei até que a escuridão da noite entre no meu cérebro, provoque a inibição do envio da mensagem aos outros órgãos de que o dia continua e, então, estes adormeçam e tornem o meu corpo inerte. Claro, contudo, uma acção diferente, ao perder a vida, o corpo começará a dar continuação de vida, ou nova vida, aos vermes que dele se apoderem, até que seja decomposto e seja devolvido à mãe natureza, terra, donde se alimentou e viveu.

 

Dessas pedras (marcos), relembro outra. Datada na minha memória e bem guardada e defendida nos Arquivos guardados noutra fortaleza, também construída com os contributos de muitos (muitíssimos) homens e mulheres deste Portugal, que com seu trabalho e os seus descontos sociais sobre o rendimento dos seus salários, ergueram e fortaleceram – a Segurança social.

 

Esse dia tem data registada e é lido como 07 de Janeiro de 1969.

 

Muitos anos passaram, muitos governos e políticas influenciaram a sua gestão, muitas pedras se ergueram no caminho. Desde os governos nomeados, ditatoriais, do Estado Novo, que foram derrubados pela revolução do 25 de Abril de 1974, os governos nomeados, provisórios, seguintes e os governos eleitos em democracia, foram, até hoje, publicando regras e gerindo esse fundo para as reformas, descontado por trabalhadores e seus patrões, retirado do valor obtido do trabalho e canseira dos homens e mulheres deste país que com o seu esforço, no sector privado da economia, contribuíram para a construção do país onde vivemos e a Segurança Social de que dispomos.

 

Muitas das políticas seguidas trouxeram interrogações. O resultado dessas políticas influenciaram a gestão dos valores depositados à sua guarda, as reservas e meios actuais conhecidos, levam a muitas mais interrogações sobre a sustentabilidade futura para continuar a pagar (devolvendo) as reformas dos trabalhadores.

 

Eis que completo, no fim deste ano, um “marco” histórico contributivo, pleno de 48 anos vezes 12 meses, (claro que também aqui contam os 2 anos de serviço militar, sem contributos) de descontos para a Segurança Social (antes designada Caixa de Previdência).

 

É Obra… são de facto muitos anos…

 

Será que estou velho? Olho para trás e o que vejo: muita coisa criada, muitas realizações conseguidas, os filhos criados e “orientados”, os netos a crescer.

 

Mas… sinto saúde, vejo horizontes por atingir, vejo tanto onde posso ajudar, vejo tanta coisa por fazer neste nosso quotidiano, e continuo a ver o nosso concelho com tanto objectivo por concretizar… E o “Melhor Concelho do Mundo”, que ambicionamos, com tanto em falta de nos dar.

 

As regras de acesso à pensão de reforma, continuam com um grande incerteza quanto ao futuro, e são, incompreensivelmente, desajustadas para aqueles que querem continuar a sua vida activa.

 

Eis pois os motivos da minha angústia, da minha indecisão e das noites sem dormir, a minha “pedra no sapato”:

 

Porque é que, se me reformar neste ano, com 48 anos de histórico de descontos, vou receber mais do que se me reformar mais tarde? Não deveria haver uma situação de permanência das regras actuais, que duram até 31 de Dezembro de 2016, para situações como a minha, de períodos contributivos longos, que permitissem que não houvesse prejuízo por continuar a descontar mais tempo?

 

Será que aos 63 anos vou ter que abandonar o trabalho diário, o convívio com os meus companheiros no trabalho, colaboradores, fornecedores e clientes? Estarei de facto um velho?

 

Outro pensamento, entre dilemas, vem então em defesa da situação presente, ao mostrar que há mais vida para além da vida, que a obrigação do compromisso diário com o trabalho profissional, e que outras “pedras” continuarão a reparar o castelo (já em regressão) e outras ocupações e vivências virão.

 

É verdade que muito mais podemos fazer em prol do nosso bem-estar e em proveito da sociedade onde nos inserimos, se para tal pudermos ter tempo disponível.

 

É verdade que tenho muitos projectos e coisas por fazer, que gostaria de concretizar.

 

Mas, não sendo uma situação nova para mim; pois sempre, que ao longo da vida, tenho mudado de projecto, tendo sido confrontado com a mesma interrogação sobre porque mudo e sobre o futuro que a mudança me leva a enfrentar. Todavia sinto que estou perante uma decisão que é diferente de todas as outras, é como se sentisse o peso de que a “pedra” por levantar me está a vergar e fazer olhar para trás.

 

Todavia nunca voltei para atrás e orgulho-me de todos os passos percorridos, das “pedras” recolhidas e guardadas, (ainda não as arremessei, nem certamente as vou arremessar), dos projectos trabalhados, e sinto no meu coração uma grande gratidão, aos homens e mulheres, pelo grande contributo, com muitos relacionamentos e muitas vivências, de muitos projectos e paixões trabalhados, fizeram de mim o homem que hoje sou.

 

Mas são também esses relacionamentos que mais contribuem para esta minha indecisão.