TURISMO

ROTA VICENTINA

“Não há ninguém que não venere esta zona, quem vem fica completamente rendido”

2016-09-25
O fim do verão marca o início de uma nova vaga de turistas: os caminhantes da Rota Vicentina. Marta Cabral, presidente da associação que gere toda a dinâmica e todo o percurso

A ideia da Rota Vicentina (RV) surge, em 2008 em assembleia geral das Casas Brancas (ver mercúrio número 07), a propósito da tentativa de se identificar quais seriam os principais desafios, na altura, para quebrar a barreira da sazonalidade, em particular junto do mercado internacional, encontrar o motivo que posicionasse a região de uma forma menos ligada ao sol e mar e mais aos serviços e ao usufruto da natureza, mais distribuída ao longo do ano. “Na altura já tinha arrancado a Via Algarviana (VA), um projeto com o qual nós já nos relacionávamos, e a ideia de construir uma rota pedestre ao longo da Costa Vicentina fazia todo o sentido”, lembra.

A grande fragilidade da VA era a falta de oferta turística organizada e isso as Casas Brancas já tinham em número suficiente para o arranque.

 

 

A ESTRUTURA

 

No arranque do projeto a RV não tinha grandes fontes de investimento. Marta conta que viviam num grande aperto em termos de equipa. “Tivemos até agora 2 pessoas e meia e contámos com a boa vontade de ‘n’ parceiros que nos têm ajudado nomeadamente sócios mas não só, felizmente”.

 

A RV conta com voluntários e com os chamados ‘padrinhos’ que são pessoas ou entidades e proprietários que assumem a gestão de uma determinada etapa. Quando há trabalhos pesados a RV tem contado com o apoio das câmaras.

 

A manutenção dos trilhos representa cerca de 4% do orçamento do projeto de investimento que a RV tem para os próximos dois/três anos. “E as pessoas estão convencidas que está na ordem dos 80%, mas estamos aqui para antecipar problemas e oportunidades, todo o trabalho de estruturação dos serviços, relação com a comunidade, com as entidades públicas, com o mercado, com outros projetos semelhantes em outros países, tudo isso é que torna o projeto pesado financeiramente, mas com um extraordinário retorno para todos os agentes da região.

 

 

O FINANCIAMENTO

 

O investimento em rotas pedestres é um tema bastante polémico porque nunca se sabe quem beneficia da sua existência e isto gera a discussão acerca de quem deve financiar os projetos.

 

No início a RV contou com fundos comunitários para os primeiros dois anos de implementação do projeto. Desde então, uma constante tem sido o apoio dos municípios, em complemento à maior fatia do investimento que vem das empresas locais. O investimento público é crucial pelo princípio de infraestrutura pública dos trilhos e pelas oportunidades de envolvimento social e comercial que a RV representa de forma transversal a todos os sectores de atividade. Por outro lado, as empresas que investem no projeto, exigem resultados, e este aspecto tem sido um motor para o sucesso comercial da RV que a cada ano se distribui por cada vez mais parceiros. “O nosso compromisso é servir toda a região mas privilegiar os parceiros em todo o trabalho que fazemos, sem nunca colocar em causa a missão de sustentabilidade e qualidade do projeto, o investimento privado garante total independência face aos objetivos de eficácia e eficiência que no setor público são muitas vezes comprometidos, até pela máquina burocrática”. Marta conta ainda que a RV “está a trabalhar em várias candidaturas, quer no Alentejo quer no Algarve, para garantir o investimento integrado em todas as áreas em que estamos a mexer”.

 

 

OS CUIDADOS TIDOS

 

Para Marta o grande objetivo na criação da RV era o de garantir, enquanto produto, o nível da elevada qualidade que a região tem. “Tínhamos, pelo menos, que fazer justiça à qualidade que os trilhos em si já tinham e, portanto, ao torná-los turísticos fazê-lo com a maior dignidade e muito cuidado”. Esta é uma região “no mínimo muito fotogénica” e conhecida pela sua costa e pelos areais das suas praias, daí o cuidado de se tentar afastar a RV dessa imagem e investir numa lógica mais identitária mais a interior e ao longo do ano mas tendo sempre presente a sustentabilidade que se pretende atingir – económica, ambiental mas também sociocultural.

 

“Na Rota Vicentina, as pessoas são uma questão incontornável”, afirma, “quando o nosso produto é uma rota pedestre, que é uma via pública, na prática nós não temos controlo sobre o que lá acontece, os caminhantes vêm e passam a maior parte do seu dia em contacto com as pessoas que estão na rua e nos trilhos e é exatamente isso que nós promovemos e vendemos, portanto, se não funcionasse, se, de alguma maneira, as pessoas não simpatizassem com o projeto e com os caminhantes, se não houvesse uma empatia, por muito bela que seja a costa as coisas não iriam funcionar e nós percebemos que houve, muito rapidamente, uma forte química entre caminhantes e habitantes locais”, conclui.

 

 

OS TRILHOS

 

Segundo Marta a RV não inventou nada. Houve algumas variáveis na escolha mas utilizaram-se trilhos já existentes que fossem ancestrais e que contassem a história da região – e não apenas da costa. “Tivemos histórias de pessoas que iam a pé de S. Teotónio até Odemira comprar sapatos no inverno e chegavam descalços e desmaiavam de frio e de fome, histórias de trilhos que hoje são desfrutados com enorme prazer e com conforto e sentido de aventura e que outrora foram vividos de forma sofrida mas também emotiva”.

 

Apesar de passarem a ter uma nova vida, de serem olhados com uma perspetiva diferente, os trilhos são os mesmos e parece haver uma espécie de simbiose entre o local que caminha por necessidade e o caminhante que caminha por lazer.

 

 

O MERCADO

 

O medo da RV ser “abalroada” pelo mercado, usando a expressão de Marta, esteve sempre presente, isto é, a sensação de que se tinha uma pérola por descobrir e que, se a campanha promocional da RV não fosse feita com o maior cuidado, poder-se-ia sofrer uma invasão repentina indesejável. “O mercado do centro e norte da Europa procura muito este tipo de situação e a tendência é que isto seja cada vez mais apetecível e esta gestão, por parte de quem promove, é muito delicada porque não se quer passar a tal linha da sustentabilidade, que é quando se começa a sentir que se foi ‘abalroado’ pelo mercado e não se está a conseguir dar uma resposta de qualidade e se compromete também a qualidade de vida de quem cá vive”, explica.

 

A intenção era realizar a ideia da RV a um ritmo relativamente pausado mas a resposta acabou por ter que ser bastante rápida.

 

 

Marta explica que “nos primeiros anos foi um bocadinho difícil mas apesar de tudo acho que mantivemos um ritmo de resposta que permitiu tudo aquilo que nós tínhamos traçado como objetivos e, porque este projeto vive de uma parceria gigantesca, o retorno tinha de ser rápido porque tinha sido esse o nosso compromisso”.

 

As pessoas que tipicamente escolhem a RV para caminhar têm geralmente uma enorme experiência em trekking nos melhores destinos de montanha do mundo e veem na nossa região uma versão mais ligeira, tranquila e segura, mas que em nada compromete a qualidade da experiência. “Valorizam muito a identidade local e essa será porventura a principal mais-valia de qualquer destino de turismo de natureza, onde queremos investir fortemente nos próximos anos, em articulação com os vários parceiros e comunidades”, diz Marta.

 

 

O RETORNO

 

Também o impacto social e económico começou a sentir-se. Finalmente outono e primavera começaram a ser épocas importantes para a região. As pessoas conseguem agora manter alguns postos de trabalho durante todo o ano, o que faz toda a diferença quando se pretende ter serviços de qualidade e isso, para Marta, era fundamental para garantir a continuidade do projeto. “A ideia disto vir a complementar o mercado de verão foi exatamente aquilo que aconteceu, são mercados completamente diferentes e que vivem de forma bastante autónoma e embora o mercado de verão também ‘ande a pé’, isso são efeitos colaterais”, diz.

 

Marta considera que a RV merece algum sentido de exclusividade porque está num parque natural onde é difícil investir e construir, sendo necessário por isso que, nas poucas coisas que existem, se invista na qualidade, nos recursos humanos e nos serviços. Apesar de haver alguma procura por hostels e alojamentos locais de caráter “low budget”, existe muita procura também pelos turismos rurais e serviços mais personalizados de apoio ao caminhante.

 

 

AS OPORTUNIDADES

 

Pretende a RV fazer sessões concretas de sensibilização, como por exemplo o programa nas escolas, não só no que diz respeito às questões da identidade e dos recursos endógenos, mas também, para os jovens, na área do empreendedorismo e das oportunidades de negócio e de trabalho.

 

“Acho que temos de acelerar um bocadinho esta conexão entre a vida das pessoas e esta nova realidade que não deixa de ser uma oportunidade de trabalho para os jovens que aqui vivem, uns são filhos de caçadores ou de pescadores e por isso têm uma forte ligação à terra, outros até podem ser vegetarianos ou filhos de alemães que dominam a língua... e para nós é muito importante deixar claro, a estes jovens, quais são as áreas onde é que poderiam começar a pensar em investir, se calhar de uma forma mais descomprometida, por exemplo na época do verão ou nas férias da Páscoa, mas começar a cativá-los para isso, à semelhança do que aconteceu com o surf, de forma muito espontânea, mas num processo mais longo”, diz Marta.

 

 

 

 

 

A INOVAÇÃO DO PROJETO

 

A RV é um projeto inovador por ser privado e virado para a economia local. Há países que têm, há várias décadas, um grande número de caminhantes, onde andar a pé é uma coisa orgânica, um estilo de vida e na maior parte dos casos estão organizados em clubes de caminhantes privados mas não turísticos. “Aqui é uma coisa muito artificial, nós injetamos um modo de usufruir algo que não existia, uma coisa criada que, embora tivesses as condições todas, não fazia parte da nossa forma de estar, quem caminhava não caminhava por lazer, mas por necessidade”, comenta Marta, continuando, “nesses países há muitos projetos liderados por associações de caminhantes, eu não conheço nenhum por associação de empresas, e depois há investimento público porque as pessoas reconhecem essa necessidade há várias gerações, como aqui há piscinas municipais naqueles países há rotas pedestres”.

 

 

 

 

 

 

A SEGURANÇA

 

Na RV a questão da segurança é muito importante. As pessoas descrevem a RV como maravilhosa, as pessoas, as paisagens, mas que, numa determinada etapa, por exemplo, só se cruzaram com seis caminhantes. Isto é algo que vai mudar com o crescimento da vinda de caminhantes na RV.

 

Há muitas pessoas que querem fazer a RV sozinhas e que perguntam se é seguro fazê-lo mas “as pessoas, aqui ou em qualquer parte do mundo, normalmente não andam sozinhas e se o fazem têm que ter algumas precauções como deixar o contacto com alguém, dizer que percurso vão fazer, a que horas está prevista a sua chegada, etc. “Penso que é relativamente seguro andar aqui a pé sozinha no entanto pode acontecer qualquer coisa como ficar sem água num dia de muito calor, pelo que há sempre algum grau de insegurança mas, felizmente, não temos tido grandes problemas, mesmo nas etapas onde não há um café, há uma casinha particular e, em caso de aflição, há sempre algum apoio, um copo de água de uma mão amiga e nós tivemos muito essa preocupação de não fazer ‘travessias no deserto’”, explica Marta.

 

Para quem quiser fazer a RV o ideal é fazê-lo acompanhado, com equipamento próprio e escolher o percurso à medida das suas capacidades físicas.

 

 

ROTA VICENTINA vs COSTA ALENTEJANA E VICENTINA PATRIMÓNIO MUNDIAL DA HUMANIDADE

 

Ser Património da Humanidade atrai as massas mas Marta tem a sensação de que a UNESCO já começa a cobrir tantas coisas em tantas áreas, como o Chocalho ou o Cante Alentejano, que esse efeito já não é tão evidente.

 

“Claro que se corre esse risco mas, teoricamente, acho que é controlável mas a questão é que não se pode ter como objetivo promover o mais possível, tem que haver o objetivo de se promover o mais possível dentro de uma determinada estratégia que tem de estar muito bem definida e, portanto, onde é que se vai promover esse ‘selo’ e de que forma porque não se pode ir para as televisões generalistas do mundo inteiro dizer que se é património da UNESCO porque isso é um selo de qualidade e de reconhecimento muito importante mas tem que ser utilizado convenientemente”, diz Marta. “A pergunta é se a região quer isso porque neste momento já há uma série de situações, francamente polémicas, relativamente à questão da natureza e da sua conservação e compatibilização disso com outras atividades etc., se se intensifica mais essa componente temos que ter resposta para questões como a gestão do parque natural e isso tem de ser resolvido, no meu entender, com alguma urgência”, explica.

 

Para Marta a questão da sustentabilidade não é uma ‘bandeira’ é um compromisso que dá muito trabalho e implica muito investimento e é um compromisso que uma vez quebrado custa dez vezes mais voltar atrás e, por isso, só se pode avançar para uma situação daquela natureza se se tiver a garantia de que se sabe também responder à altura dessa responsabilidade. “Se é isso que se quer, apostar na natureza e na entidade local etc., então há muito investimento a fazer do ponto de vista estratégico, do ponto de vista do planeamento e do ordenamento do território e de tudo aquilo que é uma visão de longo prazo, do que é que se pretende para daqui a vinte anos, porque não se pode ter tudo... e pensa-se pouco a longo prazo e a última coisa que nos interessa é estar a alicerçar uma ‘bandeira’ que não é adotada de forma minimamente unânime porque há tanta coisa para fazer e o investimento é tão difícil de obter que o melhor é dar passos seguros e consensuais”, acrescenta. “Naturalmente que uns passos levam aos outros e o reconhecimento da UNESCO poderia precisamente representar um estímulo importante para o investimento público na conservação da natureza e da identidade local”, remata.

 

 

ROTA VICENTINA vs AGRICULTURA

 

O envolvimento de Marta nesta questão, diz-nos, tem-se concentrado mais na construção do que propriamente no combate ativista. “A questão da agricultura despertou-me porque eu senti, honestamente, que havia um desgoverno quando comecei a olhar à volta e tentar perceber qual era o enquadramento legal e porque é que acontece assim”, explica, “eu senti que o ritmo de crescimento da agricultura intensiva estava a ser tão grande que, se nada fosse feito, a partir de um determinado momento nós correríamos o risco de deixar de ter Parque Natural (PN)”.

 

Para Marta houve um erro grave do ponto de vista da gestão do território. Existia um Perímetro de Rega do Mira (PRM) ao qual se sobrepôs um PN, numa época em que as práticas agrícolas, apesar dos pesticidas, não eram particularmente conflituantes com a conservação da natureza. “Havia uma série de espécies que conviviam muito bem com aquilo que eram as práticas agrícolas mas esta situação alterou-se bastante nos últimos anos, com o crescimento da agricultura intensiva e, quando se começa a ter terrenos cobertos por plástico e a mudar muito o tipo de culturas, todo o ecossistema se altera, quando se começa a ter necessidade de drenar zonas mais húmidas e a agricultura passa a ser uma industria e deixa de ser a agricultura no conceito como era concebida quando foi criado o PN, a realidade altera-se substancialmente e de nenhuma forma houve o cuidado de compatibilizar isto apesar de haver regulamento do PN e do PRM, onde muita coisa está prevista mas, de forma insuficiente, está a ser garantido o cumprimento daquele planeamento”.

 

Um PRM em cima de um PN tem impacto ambiental, para além do impacto visual e social, “mas que esse impacto pode ser minorado”, diz Marta. “Eu não estou a investir do meu bolso, eu estou a fazer uma gestão de um investimento concertado entre públicos e privados e fundos comunitários, eu tenho um compromisso com o futuro que eu não posso simplesmente ignorar quando olho à minha volta e vejo que, se ninguém fizer nada, daqui a cinco anos o meu trabalho foi todo para o lixo”, justifica, “com um pequeno esforço, quer da parte de quem tem as responsabilidades do lado dos ministérios da agricultura, do ambiente, etc., quer da parte dos agricultores, se pode fazer uma enorme diferença ao nível dos impactos e isto não é nenhuma loucura porque ninguém está a pedir aos agricultores que se retirem, isso seria insano”.

 

E tudo indica que está a ser feito um esforço de concertação entre as várias entidades, “mas o problema é que neste momento já estamos em contra relógio, isto já deveria ter sido feito há cinco ou dez anos e o Ministério da Agricultura tinha a obrigação de saber que isto ia acontecer porque havendo investimentos de milhões de euros, grande parte deles com fundos comunitários, nada disto pode ser uma surpresa para toda a gente e isso revela falta de estratégia e não podemos continuar a ignorar que o investimento na agricultura e nas florestas tem que ter em conta que a sustentabilidade da maior parte das pessoas dos meios rurais assenta no futuro do turismo, do turismo de natureza, do turismo ativo...”.

 

Para Marta os agricultores também sentem a necessidade de apoio na concertação porque também vivem neste PN e querem ter aqui uma região com futuro, também do ponto de vista da paisagem e do ambiente, e que isto é uma necessidade de todos, não é uma luta do ambiente contra a agricultura. “Isso seria um erro, e eu não posso exigir mais a quem está no terreno porque esse trabalho está a ser feito, a pressão tem de ser feita sobre o Ministério da Agricultura”.

 

 

 

O PARQUE NATURAL E A IDENTIDADE LOCAL

 

“Todo o PN está a ser mal tratado, mesmo fora do PRM e estamos à mercê da sorte”, diz Marta, “a questão é ‘até que ponto é que é importante preservar isto, qual é o impacto que isto tem a nível económico?’ esta é uma questão universal e não há país nenhum deste mundo que não esteja a ter esta discussão, nós estamos perante um momento em que o ambiente é uma questão de sobrevivência, e o turismo está a apontar, de uma forma radical, para as áreas mais naturais, é uma tendência mundial, como é que se concilia a conservação da natureza e o turismo, que potencialmente é de massas, é uma questão universal e quem diz da natureza diz a conservação da identidade e da cultura local porque todas essas coisas estão muito ligadas”.

 

 

O FUTURO

 

A RV está, neste momento, em fase de conclusão do planeamento do que vai acontecer nos próximos dois a três anos e irá investir em novos trilhos na área das pequenas rotas que maioritariamente serão circulares, menores em kms, mais temáticas e mais ajustadas a pessoas que não vieram de propósito para caminhar, quer sejam iniciantes ou pessoas com menor preparação física.

 

“Agora interessa-nos alargar o mercado da RV para um mercado mais genérico, de turismo ativo, cultural, de natureza mas não necessariamente para caminhar”, diz Marta, “sentimos que a oferta de caminhada é muitíssimo importante para credibilizar o destino e para lhe dar consistência e é um fator muito importante de seleção deste mercado mas ele não vem exclusivamente para caminhar e é aqui que entram depois as outras atividades como o surf, os cavalos, os barcos, a canoagem etc., e também os restaurantes e o comércio”.

 

Irá haver investimento no trilho dos pescadores a sul de Odeceixe, e a RV será estendida a Lagos, a partir do Cabo S. Vicente.

 

Vai-se apostar fortemente na área do BTT, “com prioridade no interior, a começar apenas no concelho de Odemira que nos lançou o desafio mas, num futuro próximo, será extensível ao resto do território da RV”.

 

Outra área de investimento será o Trail Runing no Caminho Histórico, o Turismo Acessível, o Turismo Cultural e o Turismo Voluntário”.

 

Outro projeto, já montado e candidatado, é a monitorização dos caminhantes. Trata-se de fazer a recolha de alguns indicadores numa vertente mais quantitativa fazendo a contagem dos caminhantes: quantos caminhantes tem a RV? Como é que se distribuem durante o ano? Qual o impacto que isso tem? e, Qual a taxa de crescimento?

 

E, numa vertente mais qualificativa, realizar-se-á um estudo “mais etnográfico porque, particularmente no caso do turismo, nem todos os clientes interessam porque o turismo, no fundo, é uma apropriação do sítio onde outras pessoas vivem e isso tem de ser feito de uma forma que nunca as desfavoreça apesar de poder haver alguns incómodos e, por isso, há clientes que interessam mais que outros”, diz Marta.

 

Outra aposta é o desenvolvimento de um documentário. “Vai ser um enorme investimento onde queremos caracterizar a fauna, a flora, a geologia mas também a componente humana e antropológica, queremos caracterizar o equilíbrio que ainda existe, as práticas locais da pesca, da agricultura, etc., e os equilíbrios dos ecossistemas e de que forma é que isso acontece como é que uns vivem dos outros, no fundo caracterizar este parque natural como um parque natural vivido, que o é de facto”, conta Marta, “é um trabalho muito ambicioso porque pressupõe alguma investigação”, e prossegue, “é importante que as pessoas que vivem aqui há tantos anos compreendam, por exemplo, qual é que foi a importância do PRM na vivência da lontra que tem aqui um comportamento quase único no mundo porque existe um PRM litoral que é coisa rara também, e interessa-nos que as pessoas compreendam de que forma é que é possível, saudável e desejável que haja pessoas a viver em parques naturais e de que forma é que isso contribui para que as coisas prossigam de forma sustentável”, conclui.

 

Por Pedro Pinto Leite