MIRADOIRO

Vila Formosa

Notável moradia


Por:António Quaresma

2016-09-25
Conjecturam mistérios e dramas que teriam levado ao seu abandono . ‘O que correu mal?’ perguntou-me um deles, olhando para a casa, incrédulo e disponível para aceitar um qualquer relato romanesco , talvez arrepiante

Toda a área defronte de Vila Nova de Milfontes, na margem esquerda do rio Mira, pertence a uma antiga propriedade rural, de nome Vila Formosa. O topónimo é interessante e dele há menções pelo menos desde o século XVI, tendo suscitado enganos de cartógrafos que, por falta de conhecimento do terreno, julgavam existir ali uma povoação. É o caso da representação cartográfica da foz do Mira (1634), de Pedro Teixeira Albernaz, onde consta a fantasiada imagem de um povoado.

 

Não é, porém, dessa história que quero escrever. É da sua notável moradia, debruçada sobre o Mira, hoje abandonada e degradada. Com dois pisos, de “paladiana” planta centralizada (por comparação com a Villa Rotonda, do arquitecto renascentista Andrea Palladio), este edifício é um exemplar de arquitectura modernista/Art Déco, em plena charneca odemirense. Foi mandada edificar, perto do fim da década de 1930, pelo proprietário José João de Campos Costa, sob traço de engenheiro algarvio, de Faro.

 

Edificada com os (então) novos materiais de construção – cimento e ferro – representou, também neste aspecto, uma novidade, que contrastava com a taipa e a alvenaria tradicionais, patentes no velho monte de Vila Formosa, cujas ruínas jazem ao lado. Vieram de barco, expressamente para esta obra, com uma carga de tijolo, e foram descarregados na praia. Diz-se que, antes de acabarem de os transportar da praia, a maré encheu, e os tijolos levaram um banho de água salgada. Boa parte dos rebocos é, porém, em argamassa de cal e areia.

 

A estética racionalista está bem patente no geometrismo das suas linhas. A forma cúbica basilar combina-se com os corpos semicilíndricos da fachada principal e da posterior. A primeira, virada a sul, ostenta o volume parcialmente cilíndrico, com janelas, ao nível do primeiro andar, sobre a porta, em parte sustentado por dois pilares, que tem interiormente função de mirante; na “traseira”, o segundo volume com esta forma ergue-se da base até ao topo, contendo mirantes nos dois pisos e sustentando parte do terraço superior, com vista para o estuário.

 

No interior, a decoração inclui tectos com clarabóias em “estrela de vidro” e falsos marmoreados nas paredes. No rés-do-chão, encontram-se os serviços, ficando os quartos no piso de cima. Uma escada dá acesso a este piso e ao terraço.

 

Durante os anos de 1960, o morador, Manuel João de Campos Costa, filho de José João, mudou-se com a família para Milfontes, onde as filhas do casal estudavam, pois a travessia do rio em bote (não havia ponte) era incómoda, em especial no Inverno. Alguns anos depois deslocou-se para Setúbal. A casa ficou fechada, sendo, durante algum tempo, episodicamente utilizada. O definitivo abandono que se seguiu originou a sua deterioração, acentuada por roubos e vandalismo, facilitados pelo isolamento.

 

Na década de 1980 foi projectado um empreendimento turístico para a herdade de Vila Formosa (e a de Montalvo), com capacidade para 1.600 camas, que tem decorrido até ao presente, com avanços e recuos e não sem polémica, esta relacionada com os previsíveis impactos ambientais. Neste contexto, a moradia modernista de Vila Formosa tem tido um papel praticamente nulo, pois o que, naturalmente, tem interessado os empresários é o avultado empreendimento turístico que pretendem realizar.

 

Hoje, o edifício continua a erguer-se isolado na margem esquerda do Mira, acusando embora todas as vicissitudes por que passou, e é alvo de curiosidade de forasteiros, até pela sua situação bem visível, em lugar privilegiado sobre o estuário. Alguns passaram a chamar-lhe “casa assombrada” e, sob influência de muito cinema e alguma literatura, conjecturam mistérios e dramas que teriam levado ao seu abandono. “O que correu mal?” perguntou-me um deles, olhando para a casa, incrédulo e disponível para aceitar um qualquer relato romanesco, talvez arrepiante, emergente da densa bruma do tempo.

 

Sei que este prosaico esclarecimento vai decepcionar alguns leitores, que não mais olharão da mesma forma para o edifício, esvaziado, neste texto, de certa aura espectral, mas espero que a desilusão seja compensada pelo conhecimento factual que obtiveram.

 

Bibliografia: José Manuel Fernandes. Arquitectura Modernista em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1993, p. 148.