CAIXA DE PANDORA

O poder do seguidismo

A existência destes boys e a força que as máquinas partidárias adquiriram na sociedade Portuguesa, desvirtuou o modelo político vigente, criando um novo poder que decorre do seguidismo


Por:Paulo Barros Trindade

2016-09-25
A existência destes boys e a força que as máquinas partidárias adquiriram na sociedade Portuguesa, desvirtuou o modelo político vigente, criando um novo poder que decorre do seguidismo

O modelo político dos Países Ocidentais está assente num esquema em que as figuras principais são os partidos que produzem gente para ocupar os lugares de governo no estado central e local e onde a população em geral é um mero espectador de todo o processo.

 

Nas últimas décadas assistiu-se à produção de uma série de políticos de carreira que começaram a militância nas juventudes partidárias, investindo fortemente nas ligações e cumplicidades dentro do partido esquecendo, na maior parte das vezes, a sua formação académica (terminada, nalgumas situações, muitos anos após a entrada nas universidades), potenciando o fenómeno que ficou conhecido como as turbo-licenciaturas (baseadas em equivalências).

 

Podemos falar em dois modelos de governação: um em que os governantes são políticos generalistas, que se rodeiam de uma miríade de técnicos especializados e que os apoiam nas decisões (os assessores), constituindo-se num modelo de base mais ideológica; outro em que os governantes são técnicos especializados nas várias áreas de governação, reduzindo assim a necessidade de assessorias, constituindo-se num modelo de base mais técnica que são os governos tecnocratas.

 

Existem argumentos válidos para a valorização de um ou outro modelo. Se por um lado, um governo ou executivo tecnocrata parece ser a solução ideal, pois um governante que seja responsável por uma pasta na qual é técnico especializado, mais facilmente poderá gerir essa pasta com menor erro e melhor estratégia; por outro, a entrega da gestão a políticos generalistas introduz uma visão mais politizada que poderá ir ao encontro das expectativas dos votantes, por pretenderem, por exemplo, ter um governo mais à esquerda ou mais à direita.

 

Em Portugal, nas últimas duas décadas, os governos têm sido tendencialmente mais políticos do que tecnocratas, criando a necessidade de mais assessores especializados.

 

Ao nível local passa-se o mesmo. Se há concelhos onde as equipas que se candidatam à gestão autárquica são preparadas de forma a que os pelouros sejam distribuídos por técnicos especialistas de cada área, outros há onde predominam as equipas de políticos generalistas e que necessitam de assessorias para apoiar as decisões mais técnicas.

 

De referir que a gestão autárquica é por natureza menos influenciada pela corrente política (mais de esquerda ou mais de direita), pelo que uma gestão tecnocrata, na minha opinião, seria um modelo mais compatível.

 

Com a tendência das últimas décadas para o domínio das máquinas partidárias, verifica-se uma profusão de gente ligada aos partidos, o que criou uma miríade de políticos de retaguarda, que orbitam os políticos da frente e que alguém nos anos 90 apelidou de boys.

 

A existência destes boys e a força que as máquinas partidárias adquiriram na sociedade Portuguesa, desvirtuou o modelo político vigente, criando um novo poder que decorre do seguidismo. Uma força de boys e girls que vivem para aplaudir os Eleitos pelo povo, na esperança que um dia algum se lembre deles para outros voos. Para traduzir esta nova força e em bom Português, chamemos-lhes a “garotada”, pois lembram-nos por vezes aqueles versos do fado “parecem um bando de pardais à solta...”, tal a azáfama com que tentam agradar, no auxílio frenético aos Eleitos. Também frenéticos parecem no exercício do poder, como se um qualquer fenómeno osmótico lhes tivesse transferido o poder “divino” dos Eleitos.

 

Se já era evidente uma degradação na qualidade dos políticos, por razões que já explorei em crónicas anteriores, a situação complica-se mais ainda quando os referidos assessores especializados passam a ser substituídos pela tal garotada.

 

No caso do governo central a situação dir-se-ia “não ser tão grave”. Como o orçamento disponível é mais generoso e como é preciso aproveitar para investir em boas vontades que serão sempre úteis aos governantes num cenário pós governo, além dos muitos lugares políticos ocupados pela garotada, acumulam-se as tais assessorias técnicas especializadas, que são, sobretudo, entregues a grandes escritórios de advocacia que, por sua vez, contratam especialistas das diferentes áreas, se a matéria assim o exigir.

 

No caso das autarquias a situação é mais complicada. Os orçamentos são mais curtos, a exposição ao público é maior, pelo que a maioria dos assessores contratados pertencem à garotada, faltando depois verba para as assessorias técnicas especializadas. A insegurança que grassa, de uma forma geral, nos políticos locais, tal como a nível nacional, salvo as devidas excepções, determina que se rodeiem de garotada com menor capacidade ou projecção, para evitar potenciar concorrência, o que só contribui para aumentar a mediocridade.

 

A contratação de assessorias técnicas especializadas é muitas vezes criticada pela população por não entender a sua necessidade, o que faz com que muitos autarcas evitem esse tipo de contratação, quando o alvo de crítica deveriam ser as assessorias políticas, que visam quase exclusivamente a criação de emprego para agentes políticos de retaguarda e cuja principal preocupação é a manutenção do executivo no poder, tentando preservar os seus postos de trabalho em vez de colocar o foco nos assuntos essenciais decorrentes da gestão autárquica.

 

Para os leitores que se identifiquem com o que aqui está escrito, deixo uma ideia final: este tipo de coisas só acontece porque todos deixamos que aconteça. Passámos as últimas décadas a ver o sistema político a degradar-se, a qualidade dos políticos a cair e continuamos impávidos e serenos a aceitar esta realidade. A mudança começa em cada um de nós e cada um deve pensar seriamente o que realmente pretende para a sociedade onde vivemos, porque um destes dias o que teremos de vez é um sistema que se alimenta de todos nós e não um sistema que nos serve. E como todos sabemos, ou deveríamos saber, um sistema que se alimenta de todos nós, não é um sistema democrático.