MIRADOIRO

As “voltas” do rio Mira


Por:António Quaresma

Arquivo do Diário do Alentejo
2016-10-31
Há, entre os agentes turísticos que oferecem passeios no rio, quem insista em utilizar a designação de “curvas” para as “voltas” do Mira, o que indicia escasso entendimento da cultura ribeirinha

Recordo ainda o tempo em que os botes de Vila Nova de Milfontes faziam, além da faina da pesca, uma multiplicidade de transportes no rio Mira. Eles carregavam cereais para os moinhos e farinha para as povoações ou montes isolados, transportavam lenha, levavam encomendas de produtos de consumo corrente, faziam enfim os mais diversos fretes. O percurso, mais ou menos longo, podia obrigar o barqueiro a remar, de uma vez, seis horas − o tempo de uma maré −, entre Milfontes e Odemira. Mais seis no regresso.

 

As marés determinavam o horário de partidas e chegadas: ritmos da natureza e força de braços enrijecidos e mãos calejadas combinavam-se intimamente, em perfeita economia do esforço humano. A toada regular da pá do remo a entrar na água, cortando o silêncio sem motores das madrugadas húmidas e levemente rumorejantes de águas separadas pela proa afilada, rareou cada vez mais até se apagar dos sons do rio e da memória dos homens.

 

Como rio velho que é o Mira meandra entre cerros e sapais, formando as “voltas”, que, entre Odemira e Milfontes são mais de duas dezenas. Cada uma dessas voltas tem um nome, usado por antigos utilizadores do rio, como os marinheiros dos navios de cabotagem, os pescadores e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, lidavam com o rio.

 

É possível que uns nomes tenham passado da terra para o rio e outros do rio para a terra. Eles remetem-nos para realidades diferentes. Alguns, como D. Soeiro, Cuba, Roncão ou Torgal serão emergências de antigo(s) substrato(s) linguístico(s). Já a Volta de Santa Maria, onde o rio apresenta a sua maior profundidade, parece ligar-se a uma crença popular, em que antigas narrativas se caldeiam com aportes mais recentes. A Volta de Porto Carvão, hoje pouca gente a conhece; ela parece indicar um dos desaparecidos pontos de carga de carvão, o combustível de origem vegetal que esta região exportou durante séculos.

 

Há, entre os agentes turísticos que oferecem passeios no rio, quem insista em utilizar a designação de “curvas” para as “voltas” do Mira, o que indicia escasso entendimento da cultura ribeirinha. “Feitios de criaturas!”, teria exclamado o Ti’ Elói, figura patusca de antanho, em Vila Nova de Milfontes, propenso a desculpar dislates.

 

Não se trata de um purismo. A utilização turística do rio Mira deve, naturalmente, contemplar este património linguístico e toponímico, este património imaterial que memoriza uma antiga relação do homem com o rio, enquanto valor cultural que é. E os agentes turísticos têm, eles próprios, todo o interesse em informar-se, em adquirir alguma preparação, e não virem impor as suas ignaras expressões. Desde logo pela qualidade do “produto” que vendem.