OPINIÃO PÚBLICA

Ainda (e sempre) a educação

jovens não estão disponíveis para a nossa própria incapacidade de encarar a mudança


Por:Fernando Almeida

2016-10-31
Continuamos a fazer o mesmo de sempre sem conseguir perceber que o mundo mudou

“Está na ordem do dia falar de educação”. Esta afirmação podia ter sido feita em qualquer um dos últimos quarenta anos e teria sido sempre verdadeira. Nós falar, até falamos, mas daí a perceber o que tem que ser mudado e sobretudo ter a coragem de mudar... Por isso continuamos sempre a falar, falar, falar… e tudo se vai mantendo mais ou menos na mesma enquanto o mundo ao nosso redor vai fazendo o seu caminho.

 

Pertenço a uma geração que, no que respeita a educação, tem ideias interessantes: achamos que “no nosso tempo é que era bom”, e que agora os “miúdos não aprendem nada”. Gabamo-nos de saber milhões de coisas, e ter estudado em horários reduzidos: as aulas naquele tempo eram geralmente só de manhã, ou só de tarde. Era um tempo realmente bom, e nós, os jovens desse tempo, fantásticos!

 

Pois é, aprendi imensas coisas, como as estações e apeadeiros da linha de caminho-de-ferro de Goa (e Goa já há muito não era sequer portuguesa), mas nunca me ensinaram a consultar um horário da C. P.. Aprendi toda a sequência dos reis de Portugal, mas não me deram a mais pequena ideia (e se bem calhar, nem os meus professores a tinham) do modo como os portugueses viveram nesses tempos distantes. Muito do que aprendemos, e de que nos orgulhamos de saber, são coisas assim, absolutamente inúteis. Um mapa da Índia ou uma foto de uma estação de comboios em Goa, eram janelas para um mundo que não se conseguia ver de outra maneira. Essas janelas para o mundo eram o nosso desafogo. Por muito estreitas que fossem, por muito que as vidraças de má qualidade deformassem a paisagem, eram quase as únicas janelas que havia para o mundo. E a escola, boa ou má, ensinando o que era necessário e útil, ou o que era desinteressante, inútil ou mesmo falso, era ainda assim algo de precioso. A escola era informação, e o seu valor residia essencialmente aí.

 

Hoje o mundo é completamente diferente. Está tudo ao alcance de “um clic” no telemóvel que anda no bolso, no computador, na televisão, assim se saiba procurar, selecionar e criticar… Temos que perceber que a escola, que tinha quase o monopólio da informação, deixou de o ter. Hoje a escola, queira ou não queira, constitui uma pequena fração da informação que chega aos alunos, e o seu valor enquanto fonte de informação esfumou-se.

 

Há quem ainda não tenha percebido que o texto do livro ou a descrição feita pelo professor têm uma capacidade informativa muito reduzida quando comparadas com o filme do YouTube ou com a página da “net”. E continuamos a fazer o mesmo de sempre sem conseguir perceber que o mundo mudou e que os jovens não estão disponíveis para a nossa própria incapacidade de encarar a mudança: os meus filhos aos treze anos aprenderam o que é uma “analepse”! Para quê? Alguém acha que para se saber escrever ou entender o que se lê é preciso saber coisas destas? Alguém acha que há algum aluno de treze anos que esteja interessado em saber essas coisas? Não verão todos que nessa idade os jovens são ávidos de outros saberes, mas não desses?

 

Quando fiz a minha licenciatura havia uma cadeira (Geografia Física II) que era das que tinha maior nível de insucesso. Estudava-se pelo “Strahler”, um calhamaço monumental em inglês, que partia a cabeça dos universitários. No ano em que fiz essa cadeira o aluno que teve a melhor classificação em exame só tinha estudado pelo manual escolar do 8.º ano! Quer dizer que supostamente os alunos de Geografia do 8.º ano deveriam saber sobre aquela matéria o mesmo que os estudantes universitários em formação especializada! E os exemplos deste tipo de disparate são infindáveis. Os estudantes, só a poder de grande esforço, e sempre de má vontade aprenderão inutilidades enfadonhas, quando fora da escola lhes é servida uma ementa apetecível e variada de conhecimentos capaz de satisfazer os interesses mais diversos.

 

Pergunto-me se ninguém percebe a enormidade do atraso que o nosso sistema de ensino constitui. É uma coisa ainda próxima das madraças islâmicas, um decorar de conceitos muitas vezes obsoletos, num tempo em que se pede mais o desenvolvimento do raciocínio e não tanto da memória.

 

Vejo o exemplo de outros países, como a Finlândia, em que os alunos têm pouco mais de metade da carga horária dos nossos, e estão nos “tops” da aprendizagem e competência nas áreas mais variadas. Pergunto-me: por que motivo seremos sempre incapazes de queimar etapas, de ter a coragem de mudar, de ter a lucidez de perceber que o mundo é outro, e que o nosso (dos mais velhos) nem sequer era particularmente bom.

 

Custa-me ver assim o futuro a perder-se, e nós, por inércia, cobardia, proteção de interesses mesquinhos de pequenos grupos, ou sei lá porquê, a ver os outros a avançar, enquanto estamos parados a olhar para o passado.

 

Voltaremos ao assunto.