PALAVRA DE PALHAÇO

Cãomenagem

duas décadas na Praça da Barbacã


Por:Enano Torres

2016-10-31
Era um cão rafeiro, de porte grande, preto-acastanhado, focinho esbranquiçado e os olhos bem caídos

Existem animais que, sem serem nossos, tornam-se parte das nossas vidas. Ainda por cima se são animais da rua ganha-se maior carinho e estimação pelo seu instinto de sobrevivência. Normalmente estes animais escolhem um lugar específico de habitat, um espaço onde são identificados pelos transeuntes fazendo desse lugar o seu cantinho.

 

O amigo desta Homenagem, transformada em Cãomenagem, escolheu por quase duas décadas a Praça da Barbacã, junto ao forte, em Vila Nova de Milfontes, como lugar de residência.

 

Era um cão rafeiro, de porte grande, preto-acastanhado, focinho esbranquiçado e os olhos bem caídos; fez companhia, não só a mim mas a milhares de pessoas que por lá passavam, digamos que era o guardião do “castelo” pois, em qualquer das estações do ano, ele estava lá e era testemunha das famílias que visitavam o miradouro, confidente dos primeiros namorados que lá iam beijar-se, padecedor dos cigarros e bebedeiras dos adolescentes e família dos artesãos e artistas de rua que, no verão, dão maior vida àquele lugar com sua serena aprovação, pois se de alguma coisa gostava era de sentir-se acompanhado, embora guardando as distâncias que um velhote com a sua idade deseja.

 

Nos últimos 3 anos começou-se a notar bem sua demência, deambulando pela praça sem destino certo e com passo lento. Conhecia cada cantinho do lugar como a sua própria pele. O seu aspeto era sujo, estava surdo, quase cego, seus ladridos intermitentes transmitiam uma saudável loucura, pois nunca se sabia a quem eram destinados e por que eram ladridos cheio de experiência e nada chatos de padecer.

 

Eu chamava-lhe SHERIFF pois ele conseguia transmitir-me como ia ser o meu dia só com uma mirada. No seu semblante havia todo um discurso que poucos eram capaz de entender, felizmente eu era um deles; desconheço como ele me identificava, pois perdeu a capacidade máxima dos cinco sentidos já havia algum tempo, além de perder agilidade, reflexo e sofria com as dores naturais da velhice, mas sempre que me chegava perto ele sabia perfeitamente que eu estava lá.

 

Lembro que, quando me aproximava e o acariciava no lombo, de seguida, deitava-se no chão, de patas para o ar, e pedia-me que continuasse as festinhas, desta feita na sua barrigota gordinha, sacando a língua como sinal de agradecimento aos seus desejos feitos realidade, pois mesmo sendo cão da rua quem não gosta de receber miminhos?

 

Este ano o nosso caro Sheriff já não estava lá. Eu não quis perguntar a ninguém o que lhe acontecera, pois há animais que, como algumas pessoas, ficam na nossa memória para sempre.

 

A foto que partilho foi tirada por um servidor, há um par de anos, num dia em que precisei de falar com um amigo e ali estava ele para me escutar sem julgar. Faço questão de partilhar publicamente a sua imagem como mostra do meu agradecimento pela sua existência.

 

Para mim apanhou o avião do Brito Paes para novos destinos com sua eterna calma, se calhar encontrando-se com um outro “animal-pessoa” chamado “Gran Elefante”.

 

Obrigado meu lindo pelos ensinamentos, por suportares a tua demência com muita classe, categoria e dignidade; fica esta lembrança para os leitores que te reconheceram, esta retribuição de honra e agradecimento pelo excelente animal que foste e desejos de Boa Viagem, Sheriff. Até um próximo reencontro, caro velhote da rua. Fostes não só o melhor amigo do homem mas também do Palhaço.