A MÁQUINA DO TEMPO

Ladrões do tempo


Por:Artur Efigénio

2016-10-31
Quantos de vós não se sentiram já… digamos…’subtraídos

Os “Ladrões do Tempo” são uma banda Rock fundada em 2011, que junta Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, Tó Trips dos Dead Combo, Paulo Franco (Dapunksportif) na voz, Dony Bettencourt dos Dead Cats Dead Rats, banda de tributo aos Doors, no baixo, e Samuel Palitos (Censurados e Naifa) na bateria.

 

Lembrei-me deles ao ouvir a sua versão da música “Mora na Filosofia”. Tema brasileiro que se tornou um clássico, mas que pela mão desta banda aparece renovado, e, em gíria rock, uma grande “malha”.

 

Vem este título a propósito de ladrões. Não do tempo, mas daqueles do nosso tempo.

 

Por certo já se sentiu roubado, ou já foi mesmo roubado no sentido literal do termo, por algum meliante ou patife que na rua o assaltou, levando-lhe a carteira ou alguns pertences. Ou então, já lhe entraram em casa durante a noite e levaram dinheiro ou objetos de valor.

 

Este sempre foi o arquétipo do vulgar “Ladrão”.

 

Existem ainda outros ladrões mais sofisticados que a indústria de Hollywood se encarregou de romancear. Falo daquele tipo de ladrão bem-parecido que assalta por prazer grandes museus ou exposições, para roubar valiosas obras de arte, joias ou casinos, através de complexos estratagemas muito bem planeados, acabando sempre no final do filme bem acompanhado e num qualquer destino tropical a gozar a vida.

 

Mas não é destes ladrões que vos gostaria de falar. Os ladrões do nosso tempo são outros e têm outro tipo de “modus-operandi”, bem mais simples, perfeitamente lícitos, à luz do dia, dentro da vossa casa ou através dos vossos pagamentos por débito direto.

 

 

Falo-lhes da generalidade das grandes empresas de telecomunicações, de seguros, de energia elétrica, de gás, de combustíveis, etc. Todas cotadas na bolsa, com os impostos em dia, que dão trabalho a milhares de portugueses, que prestam serviços essenciais à população e que até são benevolentes mecenas, alguns até ao ponto de construírem museus modernaços de milhões de euros à beira rio plantados. Mas também lhes poderia falar de outros do mesmo género – os Bancos, essas beneméritas instituições que nos últimos anos só nos têm dado boas notícias.

 

Todos estes operadores do mercado, como os economistas gostam de chamar-lhes, alegadamente numa lógica de eficácia e eficiência, desenvolveram complexos procedimentos, normas, enfim, chamemos-lhes também estratagemas (como os outros!), para, grão a grão, nos irem paulatinamente deixando os bolsos mais leves. Atenção que com isto, não me incluo naqueles que acusam os bancos e as grandes empresas de todos os males do mundo. Sou até pelo liberalismo e pela lógica do mercado livre, mas sim com regras.

 

Mas quantos de vós não se sentiram já… digamos…“subtraídos!” quando receberam estratos com débitos de comissões para isto e aquilo, alteração de preçários, faturas com pequenos aumentos de cêntimos ou poucos euros, que faz com que nem valha a pena reclamar. Contas de eletricidade com estimativas e parcelas respeitantes a coisas que nada têm a ver com energia, cartas de renovação de contratos com letrinhas muito miudinhas que ninguém lê e que depois se vêm a revelar como mais uma subtração ao bolso do cliente.

 

Mas não é só a questão dos pequenos valores debitados.

 

Quantos não tentaram já contactar estes serviços e estiveram “pendurados” à espera largos minutos (a pagar) a ouvir música, ou a digitar algarismos para as opções automáticas de atendimento, e acabaram por ter de desistir, ou falaram com alguém que está num impessoal e distante call-center (a trabalhar e sem culpa, é certo), mas que nada sabe, nada resolve, e no dia seguinte, se tiver de ligar para lá outra vez, já lá não está.

 

Todos estes operadores se encontram blindados, inacessíveis e escondidos do comum cidadão através destes sistemas de atendimento ou num outro patamar, de complexas estruturas acionistas e ligações a fundos ou participações, sejam de chineses, angolanos, espanhóis ou outros. Mas sempre convivendo bem de perto com as elites políticas que os branqueiam, a troco de uns bilhetinhos para a bola ou outros favores mais graves, fazendo com que se chegue ao cúmulo de nem os seus próprios funcionários saberem realmente para quem trabalham.

 

Assim, lá vão prosseguindo as suas atividades, sempre a bem do cliente, com políticas de qualidade com várias certificações, com prémios internacionais, com normas éticas, deontológicas e ecológicas muito bem escritas nos seus sites e muitas auditorias feitas pelos seus atentos reguladores. Mas na prática fazendo-nos sentir a todos que estamos a ser enganados e “subtraídos”. Tanto de euros como de tempo…

 

Por estes novos ladrões do nosso tempo!