CAIXA DE PANDORA

As gerações e o Status Quo

A “geração rasca” é uma geração marcada pelas dificuldades que os pais viveram


Por:Paulo Barros Trindade

2016-10-31
uma reflexão sobre a degradação de valores que se verifica com o passar de gerações

No meio da minha lassitude de fim de semana abro o facebook, de onde sobressai em primeiro plano, “Em que estás a pensar?”, a frase lapidar com que o Mark Zuckerberg nos brinda, quando entramos no seu negócio multimilionário. Era o que faltava relatar ao Mark, que não conheço de lado nenhum, o que estou a pensar. Mas a realidade é que no meio do zapping de fim de semana vi um filme que me deixou a pensar. Aparentemente era uma coisa levezinha, como o Ben Stiller já nos habitou incontáveis vezes, mas na realidade o “While we’re young” (Enquanto somos Jovens) é mais qualquer coisa. Para quem não conhece, é um filme sobre um casal quarentão que conhece um casal 20 anos mais novo que supostamente os desperta para uma nova abordagem de vida. 

 

O tema do filme conduziu-me a uma reflexão sobre a degradação de valores que se verifica com o passar de gerações, ou pelo menos, falando destas 3 gerações que coexistem actualmente e levou-me igualmente a pensar sobre um conceito que estava muito em voga na minha juventude – o generation gap.

 

Indo ler um pouco à história. No final dos anos 80 iniciaram-se os protestos contra o pagamento de propinas no ensino superior público e contra a Prova Geral de Acesso, vulgo PGA, que atingiram níveis que já há muitos anos não se viam, com greves generalizadas nas escolas secundárias e manifestações de rua, conduzindo a um período atribulado da política de Educação em Portugal, sector que em 6 anos (1990-95) conheceu 4 Ministros. Os protestos prolongaram-se ao longo dos anos seguintes, culminando na célebre manifestação em frente à Assembleia da República, em 1994, desta vez por causa das provas globais no secundário que levou na altura Vicente Jorge Silva, num editorial do Jornal Público, a apelidar esta geração, que é a minha, de “Geração Rasca”. 

 

Mas quem compõe realmente hoje em dia esta “geração rasca”? Esta é a geração que está nos quarentas ou que já atingiu os 50 anos, sucedânea da geração que foi responsável pelo grande Êxodo Rural, pelo grande fluxo de emigração, que fez a Guerra Colonial e o 25 de Abril. A “geração rasca” é uma geração marcada pelas dificuldades que os pais viveram, composta por um novo tipo de homens e mulheres, mimados, poupados a parte dos sacrifícios da geração anterior, mas cientes deles, com maior grau de instrução e educação e que foi influenciada diretamente pela grande revolução tecnológica dos anos 90, com o aparecimento dos computadores pessoais, dos telemóveis e da internet. É a geração que actualmente já domina os destinos do nosso País, quer a nível político, quer a nível empresarial. 

 

Esta geração já foi marcada por algum facilitismo, sobretudo decorrente do empenhamento dos seus pais, que migraram do campo para a cidade para poderem oferecer uma melhor vida a si e aos seus filhos, tentando poupá-los das agruras que os anos do pós 25 de Abril trouxeram a Portugal e que só nos anos 90 se dissiparam. 

 

No entanto é a geração que ainda passou por políticas que hoje já só fazem parte da história, como é o caso dos numerus clausus. Poderá custar a um jovem dos nossos dias perceber isto, mas até ao início dos anos 90 acediam ao ensino superior apenas os jovens com mais mérito, com melhor percurso escolar, uma vez que o número de vagas no ensino superior era limitado. Foi esta geração que começou a sentir a dificuldade de conseguir emprego, mesmo após a licenciatura, que ainda viveu num regime educativo em transição, com qualidade, que começou a trabalhar a maior parte das vezes em regime de grande precariedade, que lutou e luta pelo seu futuro, utilizando as armas que a geração anterior lhe deu e que se consubstanciam fundamentalmente numa educação e conhecimento mais sólidos.

 

Os recentes anos de crise trouxeram outra definição – a da “geração à rasca”. A geração cujos pais nasceram nos anos 60 e 70. A geração das facilidades, que teve tudo o que quis, super-mimada, profundamente egocêntrica, centrada em tudo o que de bom a vida proporciona, sem grande aptidão para sacrifícios. É a geração que cresceu com a profunda revolução do sistema educativo implementada na segunda metade dos anos 90 e incrementada nos anos seguintes. A geração dos que não “chumbam”, que não podem ser expulsos, dos que ficam na escola até aos vinte e tal anos, dos que esperam que um qualquer ministro misericordioso “melhore” a lei no sentido de arranjarem o seu “canudo” ainda com menos esforço, mesmo que isso signifique hipotecar definitivamente a qualidade dos seus instrumentos e ferramentas de educação e conhecimento.

 

É esta geração que sai das escolas e universidades a exigir um emprego fixo, perene, que lhe caia do céu e que não está disposta a lutar por ele. Porque não podem começar a vida profissional com vinculo precário, porque merecem mais. É a geração que já não conheceu outra realidade que não a do País do Rendimento Mínimo Garantido, do País onde se pode passar a vida a saltitar de formação em formação, vivendo do apoio social ano após ano, contribuindo com muito pouco para a sociedade e para os demais. É a geração que assume o papel de coitadinhos, a não querer lutar pelo seu futuro, passando pelos inevitáveis sacrifícios, a querer chegar ao topo, mas querendo evitar todas as etapas necessárias para lá chegar. A geração da turbo-escola, que não sabe escrever. Aliás aqui o Mark mais uma vez ajuda-nos bastante a perceber isso. É só atentar nos comentários que são colocados nas notícias do Facebook por exemplo, para se perceber que se perdeu alguma coisa de importante. Não será de exigir aos habitantes de um País que, pelo menos, saibam falar e escrever correctamente na sua língua materna?

 

O facilitismo que a geração dos actuais quarentões/cinquentões experimentou é apenas peanuts, quando comparado com o facilitismo que esta geração dos actuais vintes experimenta. 

 

Este facilíssimo criou uma geração que não se questiona, que tem uma enorme dificuldade em exprimir-se, porque na sua maioria, nem Português sabe escrever, que sabe que se não trabalhar terá todo o tipo de apoios sociais que o Estado falido lhes proporcionará, mantendo-os no estado “vegetativo” desejado, ou seja, sem se questionarem, sem criarem problemas, na dependência de um conjunto de iluminados – os políticos – sejam estes os do estado central ou do estado local, que tudo fazem para os manterem em estado “feliz”, garantido assim a manutenção do status quo. 

 

PS: inspirado num texto que publiquei na revista FO Magazine há uns anos atrás