EDITORIAL

Divide et impera

Não é estranho que um qualquer poder instituído tenha a tentação de aplicar esta máxima


Por:Pedro Pinto Leite

2016-10-31
Estranho é ainda haver quem caia na esparrela

Há alguns milénios que a estratégia dividir para reinar é aplicada, quer pelas mais conhecidas personagens da história, como César ou Napoleão, quer pelas mais desconhecidas personagens da vida, até aos dias de hoje.

 

A técnica consiste em dividir os grupos que eventualmente possam, por si ou em conjunto, enfraquecer o poder instituído. Evitar alianças ou coligações negativas é o seu objetivo primeiro.

 

Immanuel Kant (1724-1804), na sua obra “A Paz Perpétua” (1795), interpreta a máxima Divide et impera: “‘cria divisões e vencerás’, isto é, se no teu povo existem certas personalidades privilegiadas que simplesmente te escolheram como seu chefe supremo (primus inter pares) desune-as e isola-as do povo; fica então ao lado deste último sob a falsa pretensão de maior liberdade e assim tudo dependerá da tua vontade absoluta ou, se se trata de Estados exteriores, a criação da discórdia entre eles é um meio bastante seguro de os submeteres a ti um após outro, sob a aparência de apoiar o mais débil”.

 

Não é estranho que um qualquer poder instituído tenha a tentação de aplicar esta máxima. Estranho é, dada esta ser sobejamente conhecida e aplicada há alguns milénios e fazer parte do léxico comum de um qualquer cidadão, ainda haver quem caia na esparrela.

 

Haver problemas internos numa qualquer instituição é normal. Esses problema, sendo internos, devem ser resolvidos também internamente.

 

Quando um casal tem problemas com o seu matrimónio, se o pretende resolver, procura um conselheiro matrimonial, não um advogado especialista em divórcios porque se escolher esta última solução quem ganha é o advogado.

 

Uma aliança com quem pretende dividir não traz qualquer vantagem, ainda que no curto prazo possa parecer que sim.

 

As instituições fortes e unidas normalmente têm algumas características comuns: uma liderança forte, uma hierarquia estabelecida e a fidelidade dos seus membros. E podem ter tudo isto mesmo com divergências internas. As oportunidades de poder dentro de uma instituição criam-se internamente, não externamente.

 

Na mesma obra acima citada, Kant interpreta outras duas máximas sofistas:

 

Fac et excusa - ‘Atua e justifica-te.’ (faz primeiro, justifica-te depois) - : “Aproveita a ocasião favorável para arbitrariamente entrares na posse; a justificação será muito mais fácil e mais elegante depois do facto, e pode dissimular-se a violência, do que se antes se quisesse refletir sobre motivos convincentes e esperar ainda as objeções. Esta audácia confere mesmo uma certa aparência de convicção interior à legitimidade do ato e o deus bonus eventus [‘acontecimento favorável’] é, depois, o melhor advogado”;

 

E Si fecisti nega - ‘Se fizeste algo, nega’ “O que tu próprio perpetraste, por exemplo, para levar o teu povo ao desespero e assim à revolta, nega que seja culpa tua; afirma, pelo contrário, que a culpa reside na obstinação do súbdito ou, se te apoderas de um povo vizinho, a culpa é da natureza do homem, o qual, se não se antecipa ao outro com violência, pode estar certo de que será este a antecipar-se-lhe e a submetê-lo ao seu poder”.

 

E Kant diz ainda:“Com estas máximas políticas ninguém decerto se engana, pois já são todas universalmente conhecidas; também não é o caso de delas se envergonhar, como se a injustiça brilhasse com demasiada evidencia diante dos olhos. Com efeito, porque as grandes potências nunca se envergonham do juízo da multidão comum, mas apenas se envergonham umas diante das outras, no tocante àqueles princípios não é a revelação pública, mas apenas o fracasso dos mesmos que as pode levar à vergonha (pois, quanto à moralidade das máximas, todas elas estão de acordo), pelo que lhes resta sempre a honra política, com a qual podem contar com toda a segurança, a saber, a honra do engrandecimento do seu poder, seja qual for o caminho para se poder alcançar”.

 

A obra de Kant foi escrita há mais de duzentos anos e estuda-se na escola, não é novidade nenhuma.

 

Não se sabe o que leva alguém a deixar-se levar por estas estratégias e pelo fracionamento das suas instituições? Ingenuidade? Idealismo? Fatalismo? Derrotismo? Vaidade? Necessidade de protagonismo? Jogo político? Ambição? Poder? Um passado comprometido? Corrompimento para o futuro?

 

O que se sabe é que é o poder instituído que fica a ganhar e a sua ação resume-se em duas palavras: oportunismo e desembaraço, isto é, o poder instituído usa a oportunidade de manter ou ganhar maior controlo e, conseguido o objetivo, desconsidera, descarta ou até hostiliza os supostos aliados, à primeira oportunidade.