EDITORIAL

Paradoxalmente ambíguo

Como assim?


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração de Ema Falcão
2016-11-30
Por um lado as pessoas preocupam-se com os monopólios e o excesso de poder por outro chegam a considerar a existência dos media inconveniente

É frequente ouvir as pessoas preocuparem-se e indignarem-se quando uma empresa tem o controlo de um determinado setor, como o caso do monopólio da EPD na produção de energia ou de uma empresa que controle o mercado através de uma forte liderança nacional ou internacional, como o caso da ‘Monsanto’ (empresa internacional na área da agricultura e biotecnologia, líder mundial de sementes geneticamente modificadas).

 

A justa e compreensível preocupação está nos eventuais procedimentos pouco éticos dessas empresas e no abuso do poder que possam exercer, como o custo ou a qualidade dos seus produtos ou serviços, pela fraca concorrência ou a falta desta.

 

Parece também que ninguém gosta, e as pessoas insurgem-se contra isso, de ver o poder ocupado por uma força política por demasiado tempo, como foi o caso do PSD de Cavaco Silva no governo, o Primeiro-ministro mais tempo no poder depois do 25 de abril, ou o caso de Alberto João Jardim com sua presença de 37 anos à frente do Governo Regional da Madeira. Jardim esteve mais anos no poder que Salazar.

 

Conforme já aqui foi escrito, numa outra edição, a facilidade de reação de alguém sobre um determinado poder é diretamente proporcional à distância a que se encontra esse poder, isto é, quanto mais longe está o poder, como uma multinacional, um outro país ou um governo central, maior e mais fácil é a indignação e reação. Nem que seja no café ou numa qualquer rede social, as pessoas manifestam o seu desagrado. E quanto mais perto está o poder, como uma autarquia ou um patrão, menos as pessoas reagem ao poder exercido, mesmo que abusivo.

 

Durante muito tempo não houve qualquer órgão de comunicação social em Odemira e, aparentemente, poucos se incomodavam com a situação. Agora há dois jornais.

 

Os meios de comunicação, a par de outras coisas, servem de mediação entre a comunidade e o poder.

 

O aparecimento do MERCÚRIO, como jornal generalista, para além da informação de outros temas, como a cultura, a sociedade, as empresas, etc., veio trazer para o seio da comunidade odemirense também a discussão da política local. Isso causa algum desconforto e eventual embaraço a alguns intervenientes dessa mesma política, pouco habituados ao escrutínio dos media, ainda que tanto falem da necessidade de uma maior participação cívica.

 

Se por um lado parece pacífico que monopólios, poder em demasia, a existência de apenas uma força política ou alguém demasiado tempo no poder sejam indesejáveis, havendo, por isso, regras e entidades de controlo como partidos políticos, instituições públicas, os media, etc.; por outro alguma falta de controlo ou de escrutínio dos media e a não-existência de discussão política parece agradar a quem controla o poder. Para esses, o marketing e a propaganda ao serviço do poder instituído é o quanto basta para iludir a comunidade.

 

Afinal é ou não é bom haver pluralidade, liberdade de expressão e menos poder instituído?

 

Imagine-se Portugal com apenas um jornal ou nenhum, apenas com uma estação de televisão ou nenhuma ou apenas com um partido político? Seria o mesmo admissível num município? Poderia ser conveniente para alguns, mas certamente impensável para a maioria dos cidadãos que efetivamente querem exercer a sua cidadania.

 

Hoje assiste-se a um jorrar de ataques à comunicação social. O motivo não importa. A culpa é sempre dos media: porque se perde, porque o outro ganha, porque é só política de direita ou de esquerda, porque é sensacionalista, porque informou ou não informou...

 

Mas é também por causa da existência dos media que há liberdade para tantos e prisão merecida para alguns.

 

Os meios de comunicação servem para transmitir informação fundamental para o conhecimento do mundo onde vivemos, seja ele global, nacional ou local, para que seja possível a construção de uma sociedade melhor, mais justa e livre.

 

A sua existência é fundamental e o seu valor inegável.

 

Gilbert Keith Chesterton, romancista inglês (1874-1936), dizia: “Não foi o mundo que piorou. As coberturas jornalísticas é que melhoraram muito.”