CAIXA DE PANDORA

O Nacional-Porreirismo


Por:Paulo Barros Trindade

2016-11-30
Uma proposta do OE para 2017, contida na proposta de Lei e que visa isentar os autarcas de qualquer responsabilidade financeira em decisões que tenham pareceres favoráveis de técnicos de serviços das autarquias

Caros leitores, deixo-vos um sério aviso antes de lerem esta crónica. Poderão acabar estas linhas a pensar que serei um odioso facho da direita mais baforenta ou então um perigoso radical de esquerda, daqueles que ainda usam a boina à Che Guevara. Tudo isto porque estou chateado, estou revoltado, pois sinto que a inércia reinante tolda cada vez mais a visão e o espírito crítico dos concidadãos, pelo que é provável que acabe por transbordar estes sentimentos para este texto. Permitam-me ainda assim escrever umas linhas que sigam a filosofia que o grego Sócrates, aquele que era mesmo filósofo, nos deixou, espicaçando e provocando as vossas mentes. Tenham apenas atenção a uma coisa, caros leitores - nem tudo o que parece é.

 

Confesso uma coisa – adoro política (a não partidária, entenda-se). Seja a política cá do burgo, aquela que parece mais politiquinha, por termos o burgo cada vez mais parecido com o Portugal dos Pequeninos, que existe lá para os lados de Coimbra, seja a política que se faz a nível nacional e internacional.

 

Tenho seguido com muito interesse a denominada “geringonça”, com todas as voltas de verdadeiro contorcionismo que esta tem dado e que está aí para durar, até ver. Mas nos últimos 2 meses estive atento sobretudo ao que se passou do outro lado desse pego grande e salgado a que chamam Atlântico. Num País que comanda de certa forma o destino do mundo, é eleito Presidente um tipo a quem já se chamou tudo, mas que se calhar ainda ninguém percebeu bem o que representa. Um Presidente eleito após a maioria dos barões do seu partido lhe ter tirado o apoio e que continuou a sua campanha de one man show até à vitória final. Isto, apesar da berraria que se ouviu deste lado do Atlântico, com toda a gente a torcer para que este desfecho não tivesse ocorrido, como se todos pudéssemos também votar no líder daquele País.

 

E foi eleito um Presidente que acaba por ser alguém fora do sistema, com um discurso politicamente incorrecto, mas que conquistou o coração do eleitorado, farto de mais do mesmo. Esta começa por ser uma primeira lição a tirar – as pessoas estão fartas do mesmo modelo, repetido até à exaustão naquele e em muitos outros Países, onde se inclui o nosso. No nosso caso, o modelo em que os partidos são os donos da democracia, os donos do sistema e quem quer fazer alguma coisa tem de se sujeitar ao beija-mão, assunto já muito debatido nestas crónicas.

 

Mas as preocupações não vêm só do outro lado do Oceano. Deste lado do Atlântico voltam a erguer-se poderes que se pensavam ter desaparecido da Europa para sempre. Enquanto em alguns países do Sul voltam os radicalismos de esquerda, nos países mais a Norte cresce a onda revivalista de uma direita que já há muito estava esquecida. E porquê? Porque as pessoas estão fartas e embalam facilmente no discurso populista. O discurso populista mais à direita que defende o fim da globalização, o fechar de fronteiras, o acabar com a imigração, o reforço do investimento na segurança; o mais à esquerda, que defende a ruptura com o sistema capitalista e o nivelamento da sociedade – se não podemos ser todos ricos, então que sejamos todos pobres.

 

Todos estes fenómenos, deste lado e do outro lado do Atlântico, são apenas o produto do sistema político podre que temos. Um pouco por todo o lado a abstenção nas eleições é na realidade a facção da sociedade que tem maioria absoluta. As eleições têm a intervenção de menos de 40% dos eleitores e os governos eleitos conseguem uma maioria de governação com pouco mais de 20% dos votos do universo total de potenciais eleitores, mostrando o descrédito total em que caiu o sistema político e, mais grave, a verdadeira apatia em que as populações caíram, no que diz respeito a elegerem os seus representantes para governarem os destinos dos seus Países ou regiões. Deixámo-nos entorpecer num sistema político podre e de benefício de apenas alguns e que rejubila com esta crescente apatia.

 

Situemo-nos agora em Portugal e vejamos um exemplo flagrante de como os políticos conseguem não ter o mínimo respeito por quem representam, protegendo apenas o seu Status quo. Analisemos esta pérola da proposta do Orçamento de Estado para 2017, que está contida na proposta de Lei e que visa isentar os autarcas de qualquer responsabilidade financeira em decisões que tenham pareceres favoráveis de técnicos de serviços das autarquias, mantendo apenas essa responsabilidade, se contrariarem o parecer emitido pelo técnico. Alega o governo, que esta medida visa igualar os autarcas aos governantes, que não têm essa responsabilidade financeira nas decisões que tomam. Ou seja, desde que haja um técnico que assine favoravelmente, compre-se ou construa-se um qualquer “elefante branco”, pois ninguém irá incomodar o autarca por dinheiros mal empregues.

 

Mais uma vez temos espelhado a política do nivelar por baixo, que tem sido tão aplicada nos últimos tempos. Em vez de se responsabilizar todos os governantes pelo uso do nosso dinheiro, desresponsabiliza-se os autarcas, pois perante os restantes governantes estavam claramente penalizados, os coitados. Esta proposta é tão rocambolesca que me lembra algo que sempre ouvi contar - a do trabalhador que perguntava porque se gastavam tantos milhões numa ponte se não havia ali um rio, ao que o político respondia “construa-se a ponte que o rio logo aparece”. Quanto mais dinheiro continuará a ser mal aplicado, agora que os autarcas nem sequer poderão ser responsabilizados pela sua má aplicação?

 

Mas no meio disto tudo onde fica o cidadão comum? Permanece impávido e sereno, como se nada fosse com ele. Como se fosse coisa dos “eles”, aquela entidade abstracta que nos faz as maiores patifarias, mas a quem não sabemos fazer mais do que apontar o dedo – “eles” tomam conta disto tudo, “eles” mandam nisto tudo, “eles” levam-nos tudo. Os políticos transformaram-se nos “eles”, aquela classe abstracta, que por ser abstracta e incógnita está sempre protegida.

 

Mas perante todas estas evidências de podridão, de um sistema falido, do cada vez mais provável regresso ao passado, aos totalitarismos, ao esmagar de direitos, ao cercear de liberdades, o que é que nós, cidadãos, fazemos? Vociferamos num ou noutro café contra o Estado que nos leva tudo, contra os malandros que não trabalham, mas que ganham fortunas, contra o sistema, até que um qualquer cidadão mais atento à televisão grite – Silêncio! – pois o que interessa verdadeiramente é ver que bacorada disse o Guerra esta noite na televisão ou quem tentou bater ou cuspir no Bruno, nesta jornada.

 

É o nacional porreirismo no seu melhor. Somos todos porreiros e estamo-nos todos a borrifar para isto. É coisa lá d’Eles!

 

Do outro lado do Atlântico fizeram o mesmo e agora... têm um Trump...