ARTE

É difícil caminhar sem pisar o chão

Candeias do Al TEO BÚ alumiaram duas vezes

2016-11-30
Dezenas de artistas profissionais e estreantes caminharam por São Teotónio e Almograve num espectáculo que convidou à reflexão sobre a convivência dos povos que aqui vivem e trabalham

Solitários por entre a gente, eles viram o seu país. Eles, os outros, os imigrantes, os forasteiros, os estrangeiros, os estranhos. “Documentos”, pedem alguns com cara de espanto, à entrada de uma antiga olaria em São Teotónio. Pedem e logo sorriem com o embaraço deles, os portugueses, os alentejanos, os de cá, que mexem nos bolsos. Assim mesmo, eles e nós, como se fôssemos de planetas diferentes.

 

E eles apanham framboesa, trabalham nos campos deste nosso-deles sudoeste alentejano, falam línguas estranhas, têm hábitos de vida estranhos, enchem carros e carros de compras no Lidl, lavram medos e colhem preconceitos. Mas eles também podem ser artistas, mesmo que nenhum tenha pisado um palco na vida. “Pode isso lá ser”, exclamam alguns. “Basta que sim”, acenam outros.

 

E olhem que ele há destinos para um homem dos confins da Ásia e uma mulher dos subúrbios búlgaros conviverem em pleno espectáculo AL TEO BÚ. Mandam as leis não escritas do jornalismo que se explique: ALmograve, (São) TEOtónio e BU. Em 2014, Madalena Victorino, citada pelo Diário de Notícias, explicava que “bu” vinha da ideia de “début”, na acepção de “estar de pé”. A palavra vem do francês e é usado também em inglês para assinalar a estreia de uma peça de teatro.

 

E aqui, em plena caminhada-espectáculo de rua, nota-se este “estar de pé”, este povo em movimento pelas ruas do mundo, pelas estradas da vida. Estamos perante um teatro físico, exigente, caminhante, feito de correrias e paragens. 

 

Dia: 12 de Novembro, local: São Teotónio. Pelas ruas andam um grupo de maltrapilhos de archotes na mão. Em cada paragem há um quadro de gente teatral e espectadores em círculo. O coro dos caminhantes ecoa. Emerge uma festa de braços no ar, há gritos de um pastor que tenta organizar o povo Bu. Segue-se uma horda em fila com lenços-luvas brancos na mão numa mensagem enigmática.

 

Alguns quadros são mais óbvios do que outros: a perseguição burocrática e policial, as barreiras linguísticas, as condições duras de habitação para quem chega, as diferenças culturais. Depois há danças tradicionais, a pares num tapete ou em forma bolywoodesca.

 

Há comédia pura num jogo. E a arte do teatro físico em rotinas bem trabalhadas num conhecido edifício e torre abandonados e hoje palco do AL TEO BU, com as paredes de tijolo vermelho mal iluminadas, a Lua a sombrear as nuvens no céu é o chão perfumado pelo eucalipto das folhas pisadas pelo público. Só visto.

 

A trupe inclui crianças búlgaras e indianas que parecem fazer teatro há mais anos do que a sua idade, tal o empenho. Em muitas cenas parece que estamos no meio da rodagem de um filme de Kusturica. Na olaria reacenderam o forno para compor a cena, mas há quem pergunte porque razão terá fechado e o que esperam as autoridades competentes e incompetentes para a recuperar.

 

No meio de actores profissionais, há debutantes. Debutantes, sim, da família de debutar, da família de “début”. Estão de pé e são estreantes, alguns novos, alunos do primeiro ciclo. Todos parecem estar com um à-vontade fora do vulgar. Um dos actores destaca-se pela concentração, pelo empenho nas rotinas físicas, sobe e desliza por postes de luz na rua, anda em vigas de cimento. “Se não é profissional, é um achado”, dizem alguns com cara de espanto. É profissional, sim, é Patrick Murys, intérprete e co-criador.

 

Se aqui e ali houve dificuldade em distinguir profissionais de debutantes e amadores é porque antes dos espectáculos houve trabalho. O esqueleto do espectáculo veio da experiência que a Largo Residências trouxe de Lisboa, ou não fosse esta uma nova versão de LIS+BÚ (2014, Intendente; 2015, Colina de Santana/Festival TODOS) adaptada às realidades físicas, naturais e humanas encontradas no concelho de Odemira e a segunda parte de uma trilogia dedicada à solidão no espaço privado, no espaço público, no desvio e na loucura, que culminou com “Companhia Limitada - Estação Terminal” apresentado este ano no Teatro Nacional Dona Maria II. O desafio foi lançado pelo município de Odemira para comemorar o Dia Da Interculturalidade.

 

A nova pele surgiu depois da apresentação do espectáculo à população no início de Outubro e de muitos ensaios ao fim do dia durante esse mesmo mês, no salão da junta de freguesia de São Teotónio e Centro Sociocultural da Longueira. O convite era apelativo: “Uma oportunidade única para participar num grande acontecimento artístico que se fará de danças e de músicas e da possibilidade maravilhosa de conhecer muitas pessoas que vivem neste concelho e que, por razões do tempo em que vivemos, não se encontraram ainda”. São elas os moradores, portugueses, claro está, mas também os oriundos Nepal, Índia, Bulgária, Espanha, Itália, Suíça, França e Noruega que aqui vivem e trabalham.

 

A oportunidade foi concretizada, mas no final do primeiro dia, ninguém ficou no pavilhão de exposições onde se realizava um festival de milho e feijão e onde, sem qual explicação, o espectáculo terminou nesse dia. Ninguém vislumbrou a razão pela qual o espectáculo terminou dentro de outro evento e os artistas, residentes e espectadores, salvo raras excepções, foram-se embora.

 

No segundo dia, os mesmos quadros, mas no cenário paradisíaco do Almograve. A luz do dia e do pôr-do-sol deu outra roupagem às cenas. Muitos dos espectadores, senão mesmo a maioria, eram os mesmos da noite anterior. Os pontos de paragem eram suficientemente distantes entre si para que pessoas com mobilidade reduzida tivessem incentivo em acompanhar a caminhada. O MERCÚRIO tentou saber junto da organização do espectáculo se o transporte durante o percurso de dois quilómetros até ao portinho de pesca foi equacionado e também fazer o balanço do trabalho realizado, mas a resposta ficou por apurar.

 

Parte do espectáculo foi feita nas dunas protegidas e houve pisoteio por parte de crianças e pais menos atentos. Lembre-se que o ICNF é muito sensível a esta questão de pisar dunas com espécies protegidas e emitiu um parecer desfavorável à realização de um sunset na praia do Malhão no último Verão. O MERCÚRIO tentou saber junto do ICNF se o espectáculo foi autorizado na praia, mas não obteve resposta.

 

De resto, assim que a noite caiu, e trouxe com ela o frio marítimo, muitas famílias, especialmente as que tinham crianças pequenas, se foram embora, antes que as duas horas e meia de espectáculo terminassem. Mas os artistas e os espectadores mais resistentes continuam a trilhar caminhos.

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)