NA PRIMEIRA PESSOA

Teremos de reativar as “pedaleiras”?

Interrogo-me


Por:Manuel Cruz

2016-11-30
Será que o nosso país se pode dar ao luxo de desperdiçar a exploração de gás natural ou petróleo na nossa Zona Económica Exclusiva oceânica, se porventura o houver?

Trabalhava a 5 km de casa e o transporte utilizado era uma velha pedaleira, com travões de alavanca, estilo clássico. Para aprimorar aquela peça preciosa, logo a equipei com mudanças, espelho e, para parecer mais bela, também lhe montei, nas extremidades das duas manetes, um conjunto de fitas coloridas, que a embelezavam, ao formarem um leque, quando em movimento enfrentavam o vento. Foi a minha primeira bicicleta, comprada com o mealheiro que consegui dos meus salários, logo que atingi os 14 anos e podia ter a necessária licença de condução.

 

Quando atingi os dezasseis anos, na câmara Municipal de Odemira, obtive a licença de condução de ciclomotor e estava em condições de experimentar o auxílio de um veículo, com motor, que ajudasse a transpor a distância para o trabalho com maior comodidade, menor esforço e mais rapidez.

 

O meu pai foi o meu auxilio para poder adquirir aquela “bela máquina”, que tinha chegado e estava à venda na oficina do “Ti  Zé das bicicletas” no Castelão, fruto da sua parceria com o vendedor, Raposo, do Campo Redondo. Montagem Magno com os primeiros motores fabricados em Portugal da fábrica Casal. Os velhinhos motores, a gasolina misturada com óleo, a primeira mudança de velocidade para cima e todas as outras para baixo, ao contrário das outras marcas do mercado. O preço era 5.500$00. Para a comprar, usei algumas poupanças e o meu pai assinou 24 letras que financiaram o restante e que mensalmente fui pagando. O ordenado era pequeno e recordo-me que o litro de gasolina era de cerca de cinco ou seis escudos, o que obrigava a não exagerar no seu uso, além da ida e vinda do trabalho, e era também necessário que a estimasse para que pudesse durar muito tempo. De facto fez um belo trabalho transportando a família para todo o lado, nos seus últimos anos teve um esforço acrescido pois a família foi crescendo e já eram quatro os ocupantes. Eu e a Isabel, entre nós a nossa pequena filhota Telma e na frente sobre o depósito o nosso filhote João, claro que no suporte, ainda o saco com o farnel. Nela nos deslocávamos de S. Luís para a praia, para a casa dos nossos pais ou para Milfontes onde estávamos a construir a habitação.

 

De facto foi uma bela máquina que durou cerca de 16 anos até que foi substituída pelo automóvel. Era tempo de dar conforto e segurança à família e lá conseguimos comprar por 30.000$00, um velho automóvel, amarelo, de marca Subaru, que já tinha conhecido as estradas quentes de África, em Angola. Tinha vindo para “a Metrópole” acompanhando o seu proprietário que tinha regressado, fugindo à guerra existente entre as etnias angolanas, no período da descolonização. Depois tinha passado para outras mãos até chegar a nossa posse. Direi que já trazia os seus cavalos cansados de tanto fazer rolar aquele motor de 1600 cm³ de cilindrada e, certamente pelo seu esforço, “tinham sempre sede”, “tanta sede” que por vezes tinha dificuldade em disponibilizar dinheiro para comprar a gasolina que o saciasse.

 

Acostumámo-nos e fomos substituindo, ao longo dos anos, uns automóveis por outros. A gasolina, a gasóleo e até um hibrido, a gasolina e electricidade. O automóvel acabou por fazer parte das nossas necessidades do dia-a-dia. O trabalho que criámos obriga ao seu uso e o hábito do seu uso também nos mantêm reféns dessa necessidade.

 

A nossa Sociedade criou-nos a dependência do automóvel e com o seu uso o consumo de energia proveniente do petróleo cresceu. A extracção do petróleo e o seu controlo têm criado conflitos e guerras entre os países detentores dos seus jazigos e outros países que deles querem beneficiar.

 

Essas guerras levaram a que em todo o planeta fossem feitas novas pesquisas e muitas reservas de crude foram descobertas e estão em plena produção.

 

Grandes petroleiros percorrem os mares de todos os oceanos para levar o “Ouro negro” até às refinarias que o transformam em energia que chega às nossas mãos, para saciar a sede dos nossos automóveis.

 

Navios que quase se atropelam ao cruzarem-se nos Oceanos e que de vez em quando lá têm os seus problemas, encalham e deitam ao mar toneladas e toneladas de crude que provocam problemas de poluição. Recordo o “Marão” que deixou a nossa costa com tamanha poluição e tanto trabalho deu para a remover. Recordo o “Prestige” que inundou a costa da Galiza. Recordo as frequentes “lavagens” que inundavam as nossas praias com alcatrão que depois trazíamos para casa colado aos pés.

 

E pensar que a qualquer momento alguns das centenas de navios que navegam junto à nossa costa pode ter um sinistro, veio-me o pensamento e a interrogação: Existe uma grande preocupação e um grande movimento contra a pesquisa de crude ou gás natural no mar a cerca de 40Km da nossa costa, que está em vias de se iniciar. Mas interrogo-me porque não vejo essa mesma preocupação e movimento contra as centenas de navios carregados de combustíveis que navegam nas nossas águas? Será que são menos perigosas? Já pensaram nos milhares de toneladas de crude e produtos do petróleo que entram e saem das nossas refinarias, especialmente em Sines, logo aqui ao lado?

 

Interrogo-me também, apesar de ter instalado energia solar na minha casa para poupar na compra do gás butano e até ter uma viatura em parte elétrica, se estou disponível para abdicar do consumo de produtos ou combustíveis com origem no petróleo?

 

Interrogo-me ainda porque vejo nesses movimentos pessoas a consumir naturalmente os produtos com origem nos hidrocarbonetos, sem com isso se achem em contradição?

 

Interrogo-me, será que o nosso país se pode dar ao luxo de desperdiçar a exploração de gás natural ou petróleo na nossa Zona Económica Exclusiva oceânica, se porventura o houver? Se não, deixa de os consumir? E porque os outros podem e nós não o podemos explorar?

 

Todas as preocupações com o problema da poluição que pode trazer danos ao ambiente e à qualidade de vida, que todos queremos, são de louvar.

 

Todos temos que melhorar os nossos hábitos para tornar um meio ambiente melhor.

 

Todos no mundo tem que ter essa preocupação, mas sobretudo terão que ser os povos mais poluidores, encabeçados pela China e Estados Unidos da América, que terão que fazer os sacrifícios maiores. O contributo dos Portugueses, apesar de importante, pouco contribuirá para resolver o problema global.

 

Mas, sobretudo, penso que a principal preocupação tem que ser com a segurança de tudo o que envolve o sector, quer da exploração, transporte, transformação e uso.

 

Têm que ser encontradas soluções cientificas que reciclem toda a poluição existente. Claro, também mudando os nossos hábitos, criando e melhorando as alternativas energéticas existentes ou a descobrir, e isso é efectivamente connosco, a nossa geração.

 

Estamos num tempo tecnológico incomparável. A ciência não pára de nos surpreender. Quiçá, brevemente, encontrar-se-ão  soluções do uso de todo o Carbono e outros componentes poluentes, existentes, que tanto nos preocupam.

 

Relembro: “Na natureza nada se perde tudo se transforma” já escrevia “Lavoisier”.