AGRICULTURA

BAMBUPARQUE

25 anos a produzir canas

2016-11-30
O maior viveiro de bambu da Europa

Yves Crouzet, proprietário dos viveiros Bambuparque, na freguesia de S. Teotónio, Odemira, recebeu o MERCÚRIO para uma visita à herdade onde se encontram mais de duzentas espécies de bambu, durante a qual foi descrevendo a atividade iniciada há 25 anos.

 

Na nota de abertura do catálogo do Bambuparque, retirado da obra “A Maneira de Cultivar as Árvores de Fruto” (Edição 1652), de Robert Armand d’Antilly, pode ler-se o seguinte: “Não podemos ter plantas bonitas se não as amarmos. É a afeição do proprietário que as anima e as torna vigorosas”, e Yves Crouzet reflete essa afeição no rosto e nos gestos, nas suas palavras e na própria voz. “Sou um apaixonado por toda a natureza, pelas plantas, pela agricultura biológica mas sou particularmente um apaixonado pelo bambu e tudo começou quando comprei aquele jardim”.

 

 

O COMEÇO

 

O Bambuparque é provavelmente o maior viveiro de bambu do mundo. “Da Europa é certamente”, garante Yves Crouzet, que trabalha com bambus há mais de quarenta anos. “Sou uma pessoa muito interessada nestas plantas”, diz.

 

Yves formou-se em agronomia na Escola Nacional Superior de Horticultura de Versalhes (ENSH), e o seu envolvimento com os bambus começou quando assume a direção do Bambouseraie, um jardim da família, muito conhecido em França, aberto ao público há cerca de sessenta anos e que tem, neste momento, cerca de trezentos e cinquenta mil visitantes por ano “mas que realmente se desenvolveu a partir do início dos anos 80 do século XX”, explica, “agora não podemos, nem queremos, receber mais pessoas, é gente demais”. Yves diz que a forma de manter o número de visitas passa por manter o número de lugares no parque de estacionamento porque “não é agradável quando um jardim está cheio de gente, e é preciso manter este jardim calmo, zen”.

 

Nessa altura, como agora, Yves viajava muito pela Ásia e América do Sul, por países onde há bambus, para encontrar novas variedades para levar para França, onde tinha desenvolvido um viveiro especializado nessa planta. “Mas porque muitos desses novos bambus eram tropicais e não aguentavam o clima de França, procurei um lugar que tivesse um clima onde fosse possível criá-los, e foi assim que escolhi esta zona de Portugal para o Bambuparque, que tem um clima muito bom para os bambus tropicais”, conta. A sua ideia era a de cultivar unicamente bambus tropicais mas rápido descobriu que os bambus de clima temperado também se adaptam muito bem na sua propriedade e assim o Bambuparque passou a produzir os dois tipos.

 

Yves veio para Portugal em 1990 mas foi em 1991 que deu início ao seu negócio: plantar e produzir bambus.

 

Quando Yves chegou a Portugal nunca pensou que o Bambuparque atingisse a dimensão que tem. “Foi um processo, cada ano que passava ocupava mais um bocado desta propriedade que tem cerca de 100 hectares e a produção de bambu já vai em quase 60 hectares, uns em vaso e outros na terra”.

 

 

 

 

 

AS PESSOAS

 

 

Neste momento o Bambuparque conta com a colaboração de 28 pessoas que trabalham a tempo inteiro. Quase todos portugueses. Existem quatro nepaleses e dois tailandeses. “Neste tipo de produção há trabalho o ano todo e pode acontecer termos maiores picos de trabalho e nessa altura contratam-se algumas pessoas para ajudar mas, muitas vezes, essas pessoas que vêm por dois ou três meses acabam por ficar”, diz Yves, continuando “termos estrangeiros é uma coisa recente porque não conseguimos contratar portugueses para trabalhar aqui, o que é estranho, mas os portugueses que vivem nesta região já têm muito trabalho na agricultura, na laranja, na framboesa, nas saladas... deve ser isso”, conclui.

 

 

 

 

A PRODUÇÃO

 

O bambu é uma planta que pertence à família das poaceae e tem como principal característica a sustentabilidade, a resistência, a flexibilidade, o rápido crescimento e é ainda uma fonte nutritiva.

 

 

“Aqui temos plantas que crescem mais de um metro por dia até chegarem à fase adulta”, informa Yves, “se formos muito pacientes e ficarmos a olhar, poderemos vê-las a crescer”, acrescenta com humor.

 

Em oito semanas o bambu fica adulto e depois não cresce nem alarga mais. Assim fica para o resto da sua vida. O bambu é uma erva não é como uma árvore.

 

Segundo Yves, a qualidade da terra do Bambuparque não é perfeita para o bambu mas é suficientemente boa para atingir bons resultados. “O bambu tem horror a demasiada água, se a terra fica encharcada o bambu não gosta, tem de ser uma terra que guarde alguma água porque a areia também não serve, uma terra ‘normal’ de jardim é o ideal”.

 

Pode depois haver problemas com as plantas quando vão para um cliente porque “as plantas são como os cães quando vão para um novo dono, podem ficar doentes ou ter dificuldade em adaptar-se”.

 

Como os bambus dão pouca flor não é fácil de encontrar sementes, por isso as plantas no Bambuparque são maioritariamente reproduzidas por estaca de rizoma ou por estaca do caule. “Há muitas maneiras de os multiplicar e é por isso que estamos ocupados o ano inteiro a produzir bambus”, sublinha Yves.

 

A maior parte gosta de ser regada, sobretudo no verão, quando o tempo está quente e seco, mas depende de cada variedade e da altura do solo. Apesar de muito finas, as suas raízes podem percorrer muitos metros na vertical até encontrar água “e quando a encontram não precisam de rega mas não vou aconselhar ninguém aqui no Alentejo a plantar bambu se não tiver água para regar no verão, senão seria um desastre”, diz Yves.

 

 

OS PRODUTOS

 

O Bambuparque produz e vende bambu maioritariamente em vaso. Mas a empresa vende também canas, que podem ser usadas na construção, na decoração, no artesanato, por exemplo, e vende regularmente um camião com canas de bambu fresco “como uma alface” para alimentar os Pandas do zoo de Madrid. O bambu também pode ser vendido para comer. Os rebentos de bambu são muito apreciados mas Yves diz que “esse é um mercado difícil e há ainda muito por fazer e eu prefiro fazer bem aquilo que estou a produzir antes de começar outras coisas”.

 

80% da produção do Bambuparque vai para França e o restante fica em Portugal e Espanha “que é perto”. O seu filho, que explora o viveiro de França, é o seu único cliente, para além de Portugal e Espanha. Compra-lhe as plantas e distribui para toda a Europa e, ocasionalmente, para outros lados do mundo porque o bambu não pode viajar muito tempo e o transporte é muito caro.

 

“Uma vez vendemos um bambu com cerca de 18 metros e tivemos de alugar um transporte especial que custou mais de três vezes o preço da planta, mas não estávamos muito preocupados porque o cliente era um banco suíço” (risos), conta Yves.

 

“Neste momento temos cerca de 850 mil vasos em produção, uns muito pequenos e outros muito grandes”, informa.

 

O preço de um vaso grande pode chegar ao de 500 vasos pequenos. 

 

Nas épocas mais fortes, final do inverno e primavera e final do verão e outono, sai do Bambuparque, um camião de 25 toneladas por semana. “Saem menos no inverno porque as pessoas têm frio à lareira e no verão porque estão com calor a tomar banhos na praia” (risos), explica.

 

 

AS CARACTERÍSTICAS

 

Para Yves, a generalidade das pessoas não sabe muito sobre bambus e ficam surpreendidas com as utilizações que se podem fazer num jardim, por exemplo. “Um jardim de bambu com uns 2.500 m2, que não é muito, com cerca de 40 variedades, pode ser espetacular”, diz.

 

Existem muitas diferenças nos bambus. A maioria tem a cana verde mas pode ter amarela, ou amarela e verde, outras são avermelhadas, principalmente no outono e no inverno. Também varia a cor das folhas, as alturas das canas, as suas larguras (das folhas e das canas), “finas, largas, curtas, médias e compridas... há uma grande diversidade”, remata Yves.

 

O bambu é também muito fácil de aparar e de lhe dar forma. “É muito versátil, num ano dá-se-lhe uma forma e no ano seguinte, outra, pode-se fazer uma sebe e decidir-se que este ano tem dois metros e no próximo ano apenas um e meio e no ano seguinte três metros”.

 

O bambu é uma planta de crescimento rápido. Yves diz que “não há planta que cresça tão rápido e que seja tão versátil e que se adapte tão bem e tão depressa, o bambu tem muitas qualidades!”.

 

Não só qualidades porque alguns bambus podem ser invasivos. 

 

O bambu rastejante, se o solo o permitir, pode crescer por todo o lado. São muito invasivos, “é verdade, mas há soluções muito simples para controlar isso, como uma pequena vala à sua volta, corta-se o rizoma uma vez por ano, em dezembro”, explica, continuando “outra maneira é cortar-se os rebentos, que aparecem na primavera durante um mês, mês e meio, com uma tesoura ou a máquina da relva e o rizoma, uma vez que já não alimenta nada, inibe-se de crescer”.

 

A velocidade de crescimento de um rizoma varia com a qualidade do bambu, do solo e da manutenção mas pode chegar a dois ou três metros por ano. “É muito mais rápido do que as pessoas julgam e é preciso fazer-se a manutenção no momento certo”.

 

“Mas há bambus que não são invasivos, não saem do lugar de onde foram plantados”, diz, “os rastejantes (invasivos) podem ser um problema mas são também uma vantagem: saem mais baratos” conclui com algum humor.

 

Das cerca de 1.600 espécies de bambu, existem mais de 200 no Bambuparque “mas só comercializamos cerca de 100”, diz Yves, explicando “que há variedades tão parecidas que não vale a pena produzir mais do que uma”.

 

Há bambus que ninguém sabe o seu nome. Podem ser variedades de alguma zona perdida na China. “São poucas mas é muito difícil saber o nome porque todas as plantas têm o seu nome relativo à flor, é a flor que define a família a que pertence, mas os bambus, que muita gente pensa que não têm flor, têm-nas tão raramente que pode passar-se uma vida sem ninguém as ver”, explica, “todos os bambus são assim, mais dia, menos dia têm flor, nem que seja daqui a cem anos”.

 

A flor do bambu assemelha-se à flor de uma cana-vieira (a cana mais comum em Portugal), como uma espiga, no topo da rama.

 

 

UMA PLANTA ECOLÓGICA

 

Segundo Yves, o bambu é uma planta que irá ser cada vez mais usada. É uma planta muito ecológica, cresce rapidamente e não estraga o solo. “Antes pelo contrário, o bambu purifica e fertiliza a terra”, explica, “não é em dois dias mas sim com o passar do tempo”.

 

Uma zona plantada de bambu consegue absorver mais dióxido de carbono e libertar mais oxigénio do que uma floresta padrão.

 

O bambu cresce sem aplicação de pesticida porque não é atacado por pragas. É uma planta que possui agentes antibióticos naturais. No Bambuparque são raros os produtos químicos utilizados na produção de bambu. “Nós preferimos a utilização de produtos e métodos respeitadores do ambiente, por exemplo, com insetos predadores como a joaninha que controlam os piolhos, para eliminar a cochonilha usamos água e sabão”.

 

A empresa tem auditorias frequentes por uma entidade reguladora europeia (MPS) cuja menor classificação aplicada ao Bambuparque foi 94 (até 100). “O que é muito bom”, diz Yves, com visível agrado.

 

AS APLICAÇÕES 

 

Em Portugal começa-se a descobrir o bambu para a decoração dos jardins e dos espaços públicos. Há cada vez mais pessoas interessadas por esta planta. Yves conta que tem um projeto com um arquiteto português, “Miguel Ferreira, que trabalha muito no Nepal (ele está lá agora que depois do terramoto tem lá muito que fazer) e que faz muitos projetos em taipa e bambu, como se faz no Nepal mas de uma maneira mais Alentejana do que asiática”.

 

No interior o bambu, se tiver a luz de que precisa, também se adapta bem. Uma casa que não tenha luz não serve. Nos centros comerciais Vasco da Gama e Colombo podem-se encontrar bambus comprados ao Bambuparque. “Vendemos muitos em França também, sobretudo para bancos e hotéis”, conta Yves, “se têm um átrio alto e com luz e espaço o que é que vão plantar? Bambus! Desde que tenham um bom vaso e água, não há problema”.

 

O bambu para os europeus é uma planta relativamente recente mas na Ásia (China, Japão, Indonésia, Índia, Vietname...) é uma planta que é essencial para a vida das pessoas. Usam-na todos os dias em variadíssimas aplicações. “Nas cidades modernas é outra coisa mas num meio mais rural as pessoas não conseguem imaginar a vida sem bambu, a sua tradição é muito ligada a estas plantas”, diz Ives, “usam-no na construção e no artesanato, como já se disse, mas também no papel (o melhor papel é feito de bambu) e na industria moderna porque o bambu tem uma fibra muito resistente, há muitas coisas que se podem fazer com o bambu como limpar a terra, a água e o ar”.

 

O crescimento do bambu pode ser orientado. Os japoneses fazem bambus ‘quadrados’, obrigando-os a crescer dentro de moldes de madeira. São muito caros mas muito bons para aduelas das portas, por exemplo, ou para mobiliário.

 

No Japão também se utiliza a biomassa do bambu para produzir eletricidade. “A lâmpada de Edison foi feita com bambu”, lembra Yves. “Edison tentou primeiro com ferro e outros metais mas foi com filamento de bambu carbonizado que conseguiu finalmente ‘dar à luz’”, brinca.

 

Outra aplicação do bambu é no fabrico de fibras têxteis que dão origem a um tecido muito suave. “É quase seda e muito confortável, excelente para a transpiração porque tem propriedades antibacterianas, é um material biodegradável e bacteriostático e que não polui o meio ambiente, antes pelo contrário”, sublinha.

 

 

O FUTURO

 

Yves conta um pouco dos seus projetos para o futuro.

 

“Acho que em breve o meu filho irá começar a dirigir o Bambuparque aqui em Portugal e eu, como adoro esta região e tudo isto, irei continuar por cá porque quero criar um lugar para workshops e para formação de curta duração para desenvolver projetos, por exemplo de aplicação do bambu no artesanato e na construção, ensinar como usar o bambu num jardim, ou como fazer uma cadeira ou como fazer sabão (que é muito bom para a pele), tudo de maneira não industrial e com muito respeito pela natureza” explica.

 

No Bambuparque existe um trabalhador nepalês, Niroj Khatiwada que, com a ajuda técnica de Yves, desenvolveu um projeto universitário, e que ganhou o primeiro prémio na Universidade do Mississípi, Estados Unidos da América, para a criação de um negócio que consiste numa parceria entre o Nepal e o Bambuparque, sendo que o primeiro tem um grande conhecimento na aplicação do bambu, na construção, decoração, artesanato e outras; e o segundo um grande conhecimento na sua cultura e reprodução. “Vamos juntar estes dois conhecimentos mas há outras coisas, há muitas coisas à volta do bambu e o futuro começa hoje”.

 

 

por Pedro Pinto Leite