OPINIÃO PÚBLICA

Viva a greve aos trabalhos de casa!

É urgente reduzir a carga letiva dos alunos


Por:Fernando Almeida

2016-11-30
É urgente acabar de vez com a medíocre memorização a curto prazo de terminologias inúteis

Acho que se qualquer trabalhador, depois de fazer todas as tarefas do dia no seu horário normal, tiver ainda que ir para casa continuar a trabalhar à noite, qualquer coisa não está bem: ou o trabalho que lhe dão a fazer é demais, ou ele trabalha a um ritmo exageradamente lento. Em qualquer dos casos algo deve mudar porque a situação a prazo é insustentável, e caso se perpetue, conduzirá necessariamente a uma saturação exasperante, à desmotivação e à baixa produtividade. As melhores e mais modernas empresas sabem isso, e têm o cuidado de criar condições para elevar motivação nos seus “colaboradores”, evitando sujeitá-los a atividades demasiado exigentes, como forma de conseguir excelência e elevados níveis de produtividade. 

 

Quando estes cuidados não existem e os “colaboradores” são sujeitos a exigências que vão para lá do razoável, mais cedo ou mais tarde os profissionais em causa começam a acusar desgaste e desmotivação, e a produtividade e o empenho acabam por baixar. Na verdade a situação até se pode prolongar no tempo, mas sempre sem conseguir deixar esse ciclo vicioso de “equilíbrio de baixo nível” em que as más condições de trabalho criam baixa produtividade e em que esta baixa produtividade impõe baixas condições de trabalho. É fundamental compreender que à medida que se aumenta o tempo dedicado ao trabalho, a partir de certo limite, a produção não aumenta, mas paradoxalmente até começa a diminuir.

 

Ora o que se passa no mundo do trabalho, passa-se de forma muito mais intensa na escola. No processo de ensino/aprendizagem os alunos não estão a repetir uma tarefa já conhecida mas antes a compreender o mundo, criar ou consolidar conhecimento nas mais diversas matérias, o que obriga a um esforço intelectual muito maior. Portanto, se um jovem, depois de estar todo o dia na escola, ainda tiver que ir para casa fazer “horas extraordinárias”, por certo algo não está bem. Ou o que o obrigam a fazer é demasiado – programas escolares demasiado longos, com conteúdos inadequados para o nível etário dos alunos – ou os alunos e professores produzem muito pouco. 

 

O que acontece com qualquer outra pessoa, cuja produtividade diminui quando aumenta acima de certo limite o tempo de trabalho, acontece também e de modo muito mais sensível com os estudantes. Cria-se assim na escola, num ciclo vicioso, um “equilíbrio de baixo nível” em que se aumenta a carga letiva exageradamente julgando que isso resolverá os problemas da aprendizagem, mas em que essa carga horária excessiva acaba por comprometer a própria aprendizagem. A somar à carga letiva exagerada (lembrem-se que por exemplo na Finlândia, país com excelentes indicadores de aprendizagem, a carga letiva é apenas de quatro horas diárias), os alunos ainda têm que ir para casa prolongar o seu dia de trabalho: não bastasse a carga letiva absurdamente elevada, ainda se impõe ao aluno “horas extraordinárias”… 

 

Aqui ao lado, na vizinha Espanha, os pais das crianças que frequentam a escola pública iniciaram uma greve de um mês aos trabalhos de casa: acham que é demais; acham que os filhos também precisam de estar em família; acham que os filhos devem conviver com os amigos; acham que se aprende mais numa viagem, que agarrado a um livro ou um caderno… E eu penso o mesmo. Não sei bem se todos os pais têm a mesma preocupação com o acompanhamento dos filhos, mas sei de muitos que sentem que a escola lhes tira os filhos tempo demais. Acresce no nosso caso particular do ensino secundário de Odemira que há muitos alunos que demoram horas todos os dias na deslocação entre a casa e a escola, o que também contribui para vidas em que a escola se torna esmagadora. Levantar ainda de noite, aulas todo o dia, chegar a casa de noite, e ainda ter que ir fazer os TPC’s! Não há vida para lá da escola.

 

É urgente reduzir a carga letiva dos alunos, mas é urgente também acabar de vez com a medíocre memorização a curto prazo de terminologias inúteis, até porque todos sabem que se trata de um falso conhecimento, destinado apenas a responder a provas escritas e condenado a ser esquecido quase de imediato. Mas não é fácil encontrar quem tenha a coragem (e a lucidez e inteligência) para fazer uma verdadeira reforma do sistema educativo português, subtraindo aos programas o que é inútil e desajustado do mundo atual, reduzindo a carga horária das atividades letivas a alunos e professores, investindo na qualidade do ensino e da aprendizagem procurando que o conhecimento seja perene e integrado. 

 

Se algum responsável pela educação de Portugal fizer o que tem que ser feito no sentido de adaptar a escola ao século XXI, terá a oposição encarniçada dos muitos interesses instalados. Há muito quem lucre com a absurda dimensão dos programas escolares, e há muito quem lucre com a carga horária exagerada que os alunos têm que suportar, e há mesmo quem, por conservadorismo primário, seja avesso a toda e qualquer mudança. Por isso não é difícil antecipar que quem queira realmente mudar a educação em Portugal tenha pela frente uma tarefa muito difícil. 

 

Mas, meus amigos, sem isso não conseguiremos nunca atingir o progresso económico, social e tecnológico, que permitam um verdadeiro desenvolvimento.