A MÁQUINA DO TEMPO

Trumplandia

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Por:Artur Efigénio

2016-11-30
Será que ainda temos margem para travar a fundo e repensar todo o nosso posicionamento estratégico ?

O Mundo mudou! Sim, mudou! Foi no dia 8 de novembro de 2016, com a eleição do próximo presidente dos Estados Unidos da América (EUA).

 

Tal como já tinha mudado com o 11 de setembro de 2001, o mundo não voltará a ser o mesmo com a eleição deste homem para governar o país com mais influência em todo o ocidente, e que para nós Portugueses irá implicar uma urgente clarificação de posições. 

 

Senão vejamos. Quem foram sempre os nossos parceiros e aliados, quer no domínio da segurança, quer no domínio económico? Inglaterra e EUA.

 

Em todos os conflitos e jogadas diplomáticas que o nosso país esteve envolvido, seja na União Europeia (EU), na NATO ou nas Nações Unidas, foram sempre estes dois países que nos ajudaram e livraram de males maiores.

 

Mas isto não é de agora. Quer contra os Franceses no Séc. XVIII, em África no séc. XIX, na Grande Guerra há 100 anos, ou na neutralidade durante a II Guerra Mundial, quer também em conflitos e contendas mais recentes como Bósnia-Herzegovina, Iraque, Afeganistão ou Kosovo, sempre alinhamos pelas suas fileiras, a seu convite. 

 

No domínio económico no seio da UE, foi sempre o Reino Unido que fez frente à França e à Alemanha contrariando uma hegemonia destes dois nas políticas agrícolas, na indústria, no setor energético, no setor dos serviços, etc. E com isso nós saíamos beneficiados. 

 

Agora analisemos o que poderá vir a passar-se a médio prazo com as alterações geoestratégicas que se anteveem.

 

 O Reino Unido vai sair da EU. Logo aí, nesta Europa cada vez mais destruturada e desnorteada, ficaremos isolados e dependentes economicamente do eixo Alemanha-França, que contará sempre com uma ajudinha da nossa vizinha Espanha para nos isolar e associar aos incumpridores. E a História ensina-nos como foi sempre bom o nosso relacionamento com estes países.

 

Esta saída vai implicar, para nós, o deixarmos de poder estabelecer tratados comerciais extra EU e usufruirmos da isenção das taxas aduaneiras com um dos países para onde mais exportamos, e vai também implicar, desde logo, o encerramento de portas para onde, infelizmente, muitos dos nossos jovens têm emigrado. 

 

Depois, no que toca à América, esta vai virar-se para dentro de si própria, dando voz e apoio aos milhões de WASP  (White Anglo-Saxon and Protestant) descontentes, que clamam e não têm, por agora, uma “Great América”. Pertencentes a uma classe média operária, enfiados nas entranhas profundamente incultas desse país, de onde nunca saíram, foram estes os eleitores de Trump. Este homem que vai renegar as alianças comerciais com a Europa e o mundo, pôr em causa o acordo assinado em Paris sobre o clima e até contrariar a imparável globalização, tendo já eleito como inimigo número um a China. País culpado de todos os seus males.

 

É claro que aqui a Europa, que já pouco contava, passará a ser um ator insignificante e até desprezível em termos geopolíticos, sendo Portugal apanhado por tabela. 

 

No meio disto tudo, nós, país sempre dependente de outros, que já vendemos quase tudo o que é estratégico à China e até já negociávamos com ela o uso da Base das Lajes, será que ainda temos margem para travar a fundo e repensar todo o nosso posicionamento estratégico e as nossas alianças? Não sei.

 

A nível global, quem está a adorar o que se está a passar é Putin, pois, após a troca de elogios com Trump, e antevendo o redirecionamento das ogivas dos EUA para a China, ficará tacitamente com o caminho livre para estender novamente a sua influência a países que já pertenceram à grande Mãe Rússia, enfraquecendo ainda mais a UE.

 

Bem-vindo pois à nova Trumplandia.

 

Local onde passará a não haver lugar para a entreajuda e a mesma parceria estratégica que têm ocorrido desde 1945 com a Europa. 

 

Local onde as mulheres, que se querem bonitas, tipo Melania, deverão idealmente passar novamente a estar em casa ou simplesmente a acompanhar sorridentemente os maridos.

 

Local onde a grande maioria da população voltará a não ter acesso a cuidados médicos e todos os muçulmanos terão de ser registados como tal.

 

Local onde os imigrantes que ajudaram a fundar esse grande país, vão deixar de ser bem-vindos e vão ser abatidos ao tentarem saltar os muros.

 

Local onde o aquecimento global vai deixar de ser um facto para ser uma invenção.

 

Enfim, uma América e um Mundo Great again!