VIDA SELVAGEM

Mau mau Maria que o lince já não mia!

Ninguém sabe do lince Kahn desde Março

2016-11-30
Kahn andou perto do concelho de Odemira, mas há largos meses que a sua coleira electrónica deixou de emitir.

Em 2013 houve outro lince que andou pelo sudoeste alentejano e estava isento de pagar quotas à associação de caçadores de Milfontes

 

Desde Março que ninguém sabe ao certo onde pára Kahn, um lince-ibérico nascido e criado e Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico, em Silves, e reintroduzido na natureza em Castilla-La Mancha, em Espanha, no âmbito do projeto LIFE + Iberlince, a 26 de Novembro de 2014. Em Março, a última posição conhecida pelos sinais que a coleira electrónica emitiu e os satélites receberam dava conta de estar algures entre os concelhos de Ourique e Odemira.

 

Mas, desde então, nada se sabe. O Projecto Lynx, uma página na Internet alimentada por um grupo de alunos da licenciatura de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi das poucas entidades que responderam ao repto, via correio electrónico, lançado pelo MERCÚRIO: “Onde está o Khan?”. Em Abril, enviaram uma mensagem à redacção onde revelavam que o projecto esteve “inactivo” e que após a sua revitalização com novo grupo de voluntários “sem acesso aos dados de localização dos linces por outro meio que não a imprensa”, aconselhando virarmos a nossa bússola para o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

 

O Mercúrio tem tentado junto do ICNF saber novidades acerca do lince, mas aquele organismo apenas respondeu que o pedido de esclarecimento tinha sido passado aos técnicos, remetendo para os comunicados de imprensa já publicados.

 

Na secção de comunicados do ICNF encontrámos a notícia da trágica morte do irmão Kentauro, vítima de atropelamento, dia 15 de Outubro. Os dois tinham sido libertados na mesma altura, mas enquanto Kahn escolheu voltar a Portugal pelo Alentejo e Algarve, o irmão Kentauro seguiu para o Norte, andando a vaguear entre a Galiza e Trás-os-Montes. “Kentauro iniciou, pouco tempo após a libertação, um movimento de dispersão que o levou ao norte da Península Ibérica, atravessando a cordilheira cantábrica e entrando em Portugal pela Serra de Montesinho. Regressou posteriormente a Espanha, onde foi alvo de uma tentativa de captura, em Dezembro de 2015”, explica o ICNF em comunicado. “A última emissão da sua coleira GPS, indicava que se encontrava em Ourense a 367 quilómetros, em linha recta, do local de solta, tendo percorrido 2410 quilómetros. Desde Março que a sua localização era desconhecida, ficando agora a saber-se que terá feito, pelo menos, mais de uma centena de quilómetros em território nacional até ao local do atropelamento, uma das principais causas de morte de linces ibéricos reintroduzidos”, adianta a mesma fonte.

 

As pilhas dos transmissores de rádio dos animais têm de ser substituídas de quando em quando para que os cientistas possam continuar a seguir o rasto dos animais libertados, informações úteis ao conhecimento do comportamento desta espécie ameaçada. Mas sendo caçadores furtivos, esquivam-se do contacto com humanos e com as armadilhas que lhe são colocadas.

 

O comportamento errante é, ao mesmo tempo, um factor de risco, uma vez que estes animais chegam a percorrer mais de duas dezenas de quilómetros por dia, atravessando estradas. De acordo com uma apresentação do projecto IberLince sobre a conservação in situ do lince ibérico em Portugal, o Khan teria feito 54 atravessamentos de estrada, entre Maio e Outubro de 2015, 11 dos quais na auto-estrada A2. 

 

 

Faltam coelhos para os linces

 

De acordo com um artigo de Pedro Sarmento, biólogo doutorado pela Universidade de Aveiro e um dos maiores especialistas em lince a nível nacional, recém-publicado na revista Wildlife Biology in Practice (WBP), publicação especializada em biologia de animais selvagens, “a conservação do lince-ibérico constitui, em termos de conservação da natureza, um dos maiores desafios da Península Ibérica nas próximas décadas, já que implica uma redução significativa das ameaças que levaram a espécie à quase-extinção, bem como uma escolha óptima de locais de reintrodução, um número substancial de animais para reintroduzir e ainda, um investimento monetário considerável”, lê-se numa citação do portal Iberlinx. “Na sua opinião, a conservação do lince enfrenta dificuldades em três frentes: a contínua perda de habitat devido ao desenvolvimento, a ainda reduzida abundância de coelho na maior parte das populações da Península Ibérica e, por fim, o aparecimento de uma nova ameaça – a leucemia felina – uma doença que já afectou uma das duas únicas populações que persistem em liberdade e que pode também vir a afectar os animais reintroduzidos”, acrescenta a mesma fonte.

 

 

Milfontes já teve um lince caçador

 

A Zona de Caça Associativa da Herdade das Casas Novas, em Vila Nova de Milfontes, comunicou às autoridades, em Maio de 2013, o aparecimento de um lince nos seus terrenos de caça. Era o Hongo, um macho de lince-ibérico, nascido em Aznalcazar em 2011 e que andava incógnito desde 16 de Outubro de 2012.

 

“Tudo começou na madrugada de 8 de Maio, quando uma câmara que tinha sido instalada num cevadouro para javalis fez uma sequência de 3 fotos, que não deixaram margem para dúvidas que de um lince se tratava”, relata o caçador Francisco Caim num testemunho disponível na página de Internet do ICNF. As autoridades ficaram estupefactas: há mais de 20 anos que um lince não era avistado em Portugal, mais precisamente na serra da Malcata. Em 2010 um lince assomou-se à raia, perto de Barrancos. Técnicos espanhóis trouxeram câmaras, criaram-se pontos de água e não tardou muito até Hongo ser caçado pelas objectivas. “No dia 26 de Maio, 18 dias após as primeiras fotos, pelas 09:46h e, de forma surpreendente, a tão desejada captura aconteceu em pleno dia. Foi através desta foto que, depois de ter sido submetido a análise, o padrão da pelagem foi identificado, havendo a confirmação que do Hongo se tratava. Este animal fez uma viagem de aproximadamente 300 quilómetros, tendo escolhido para seu território esta zona histórica em linces, pois segundo testemunhas, que antigamente nestes locais trabalhavam e caçavam, a Herdade dos Aivados, na freguesia de Vila Nova Milfontes, bem como a Serra do Cercal eram habitadas por linces, havendo mesmo alguns relatos de avistamentos num passado não muito distante”, conta Francisco Caim.

 

Dali até Junho foram obtidas 30 fotos e 68 vídeos do Hongo, num total de 98 capturas de imagem, sendo 32 dessas capturas em dias diferentes. “Entre essas imagens, há um clipe de vídeo de 15 segundos, obtido no dia 5 de Setembro 2013, em que o Hongo foi cheirar e roçar-se numa câmara, ao ponto de a ter deslocado do local onde se encontrava. Foram as imagens que mais me impressionaram, pois mais perto é certamente impossível”, exclama o caçador. O comportamento exemplar dos caçadores milfontenses que respeitaram o “amigo caçador” foi alvo de notícias nos jornais nacionais. “O lince-ibérico colabora de forma bastante activa no plano cinegético da ZC, sendo uma mais-valia no controlo de outros predadores existentes no seu território, tal como raposas, saca-rabos e gatos assilvestrados”, relata Caim.

 

Hongo foi encontrado morto, por atropelamento, dia 22 de Outubro de 2015, na A23 próximo de Vila Nova da Barquinha. Tinha quatro anos de idade e o ICNF estima que tenha vivido, de forma instável, durante cerca de dois anos no Sudoeste Alentejano. Pela altura da morte do Hongo, o ICNF assinalava a presença de Khan em Monchique, um dos concelhos algarvios vizinhos de Odemira.

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)