EDITORIAL

Bom-Bokas

Um 'bombom' com recheio pouco consistente


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração de Teresa Calado
2016-12-31
No concelho de Odemira verifica-se que tem havido falta de 'algo bom’ providenciado por Ambrósio ou de algo ainda melhor de fabrico artesanal

Bom-Bokas é uma espécie de bombom da marca portuguesa “Imperial”. A sua produção, com início em 1978, teve o auge de mercado nos anos 80 do século passado.

 

Essa espécie de bombom tinha como base uma bolacha de baunilha e um recheio ‘fofinho’, leia-se pouco consistente, coberto com uma fina camada de chocolate. O ‘jingle’ rezava assim: “por cima chocolate, por baixo bolachinha, por dentro é o recheio, humm, que coisa doce tão fofinha”.

 

Na altura foi um grande sucesso. A publicidade era persistente, sobretudo na época de Natal. Tornou-se um clássico dizer-se “só há estas, são para mim”.

 

Nuno Markl, em 2009, na sua “Caderneta de Cromos” dizia o seguinte: “Eu adorava Bom-Bokas (...) mas eu me pergunto se era realmente bom ou se nós é que tínhamos pouca oferta na altura e tudo nos parecia maravilhoso e é esse o meu medo em clamar pelo regresso das Bom-Bokas. E se afinal não era assim tão bom?...”.

 

De facto esta ‘ilusão’ de que as Bom-Bokas poderiam ser algo comestível apenas resistiu até à chegada, em 1988, de Ambrósio, o famoso ‘chofeur’ que tomou a liberdade de providenciar ‘algo bom’ para deleite da sua patroa. Os bombons ‘Ferrero Rocher’ (e outros) foram aniquilando as Bom-Bokas ao ponto de estas desaparecerem do mercado.

 

A ‘Ferrero’ é um dos mais conceituados fabricantes de chocolate de Itália.

 

A maior parte das pessoas desconhece que os italianos fabricam um dos melhores chocolates do mundo (não necessariamente os da ‘Ferrero’ mas os da ‘Bernardi’ por exemplo), tão bons, se não melhores do que os suíços (como os ‘Frey’) ou os belgas (os ‘Côte d’Or’ são muito conhecidos em Portugal mas melhor que esses são os ‘Jacques’).

 

Isto falando dos fabricantes industriais que até podem ser relativamente bons mas que não conseguem igualar os melhores fabricantes artesanais, independentes, muitas vezes instalados em fábricas/lojas, localizadas em lugares discretos, como é o exemplo dos ‘Chocolates Beatriz’, em Odemira, à semelhança de uns quantos outros por esse mundo fora.

 

Na política verifica-se que os bombons ‘de marca’ são todos muito parecidos ao estilo da ‘Ferrero’ que atrás dos ‘Rocher’, com algumas diferenças subtis, introduziu no mercado os ‘Raffaello’ e os ‘Rondnoir’. No fundo a base e a forma são as mesmas, variando os aromas. Mesmo os ‘Mon Chérri’, um bombom de chocolate negro com cereja e licor, algo mais conservador, embrulhado em papel vermelho, nascido a meados dos anos 50 do século XX, são do mesmo fabricante.

 

No concelho de Odemira verifica-se que tem havido falta de ‘algo bom’. A oferta foi, durante uns tempos, exclusiva das Bom-Bokas mas, com a abertura de outros mercados, estas foram sendo substituídas por uns bombons embrulhados num papel dourado.

 

O embrulho fez o encanto dos Odemirenses. Mas, aos poucos, aqueles têm vindo a descobrir que por debaixo daquela ‘folha de ouro’ não estão os verdadeiros ‘Ferrero Rocher’ tão proclamados mas uma variante das Bom-Bokas de baunilha, as de morango. A base é a mesma mas com outro aroma e cor-de-rosa por dentro.

 

No fundo tenta-se, e de certa forma consegue-se, fazer acreditar que há pouca oferta, como dizia Nuno Markl, e que as Bom-Bokas são coisa boa. As de morango, então...

 

Mas a oferta existe. Não se sabe é com que embrulho, se dourado como os ‘Rocher’, branco, como os ‘Raffaello’, ou castanho-escuro, como os ‘Rondnoir’.

 

Eventualmente não estão muito visíveis no mercado e a questão do embrulho das Bom-Bokas de morango de Odemira confundem o consumidor.

 

Mas se de leite, branco ou negro as diferenças são poucas e os interesses vão para o mesmo fabricante, o desejável será que em Odemira se comece a fabricar mais chocolate de forma artesanal, sem embrulhos enganadores, de forma independente, com matéria-prima de qualidade e preferencialmente de mercado justo.

 

Que venham mais ‘Beatrizes’ com uma oferta de algo, agora sim, verdadeiramente bom, que o povo já começa a ficar farto de tanto recheio ‘fofinho’ e enjoativo.