DE QUEM É O OLHAR

Duas realidades distintas

Época de balanços


Por:Monika Dresing

2016-12-31
“‘por cima’ da nossa realidade do dia-a-dia está a pairar uma outra realidade, o sistema económico e financeiro, cada vez mais absurdo e descontrolado, mas com efeitos muito concretos aqui na terra”

Estamos na época de Natal, aproxima-se a passagem do ano, altura em que muita gente faz um pequeno balanço da situação em que está a viver. O que correu bem, o que podia ser melhorado? Costuma pensar-se em novos projectos, planos para o futuro. É tempo para estarmos com a família e amigos e tal e qual como noutras alturas do ano, nestas reuniões grande parte das conversas é sobre assuntos concretos do dia-a-dia, sobre o trabalho, a política, livros, música, desporto, etc., etc., tudo o que faz parte da nossa “pequena vida”.

 

Neste jornal, já várias vezes escrevi sobre as desigualdades e injustiças existentes no mundo, os antagonismos na escala global, bem como dentro dos países e até na escala local. Os países ricos do hemisfério norte contra os países mais pobres no sul, a mesma situação na Europa e dentro das diferentes sociedades. São desigualdades que necessariamente levam a distorções e perigos para a nossa vida pacata, tais como guerras, miséria, dezenas de milhões de refugiados, terrorismo. Também os efeitos das alterações climáticas cabem aqui, visto que, neste momento, muitos dos países mais pobres já estão a sofrer com elas muito mais do que nós que ainda não sentimos quase nada.

 

No entanto, existe mais uma bipolaridade neste mundo que fica quase despercebida em relação ao seu significado e que, no meu entender, tem talvez o maior impacto para a nossa vida. É que “por cima” da nossa realidade do dia-a-dia está a pairar uma outra realidade, o sistema económico e financeiro, cada vez mais absurdo e descontrolado, mas com efeitos muito concretos aqui na terra. Nas bolsas, em fracções de segundos, negoceiam-se valores gigantescos, fazem-se “apostas”, ganham-se e perdem-se fortunas. Em parte são valores fictícios, virtuais e que nunca poderiam ser realizados, no entanto, mesmo assim existe sempre um ponto de ligação à nossa realidade. Quase todos os bens que utilizamos e contratamos e consumimos, inclusive os bens essenciais, fazem parte deste “jogo”, jogo este que influencia os preços, as ofertas, as condições sociais etc., etc. E nós não temos a mínima influência sobre aquilo que está a acontecer. É um espaço fora de qualquer área democrática. Por isso, quando estamos perante decisões a tomar, muitas vezes surge um sentimento de impotência visto que as opções parecem limitadas, sem alternativas.

 

Penso que é este sentimento de impotência que levou à situação que hoje se chama “pós-factualidade”. Para muitas pessoas já não são os factos que são tomados em consideração, mas sim as emoções, as realidades sentidas. Os comentários nas redes sociais são prova disso e, infelizmente, como se viu nos Estados Unidos, também os resultados eleitorais. Na Alemanha de leste, por exemplo, onde vivem poucos estrangeiros, o medo dum aumento da criminalidade ligado ao aumento dos imigrantes é enorme, uma opinião que resiste a qualquer esclarecimento sobre os factos (a criminalidade até diminuiu nos últimos tempos).

 

Theodor W. Adorno, o grande filósofo alemão, escreveu: Não há vida boa (no sentido de moralmente correcta e bem realizada) numa vida falsa. É uma frase da “Minima Moralia”, obra escrita nos anos quarenta do século passado, no exílio, perante a realidade do terror fascista na Europa. Hoje em dia, esta frase, nunca invalidada, ganha nova importância. Mas como é que podemos reconciliar a nossa “pequena vida” com aquela outra realidade que nos envolve? Não é fácil senão impossível mudar a vida falsa sem recorrer à solução radical, à revolução, que neste momento não está à vista. Podemos todavia tentar tornar o nosso dia-a-dia cada vez melhor (no sentido de Adorno), ficando atento e sempre consciente em relação ao nosso comportamento. Podemos desvendar mentiras e informações falsas, não as partilhar e dar esclarecimentos sobre os factos verdadeiros. Assim, um Bom Ano para todos!