NA PRIMEIRA PESSOA

40 anos de poder local democrático

Será que em Odemira terminou a idade da razão?...


Por:Manuel Cruz

2016-12-31
Não faltam exemplos em muitos lados e perto de nós podemos testemunhar atitudes e acções que me levam a ficar muito preocupado.

Ano 1982, numa tarde, calma, primaveril, no salão de festas da Sociedade Recreativa e Musical Sanluisense, à volta de uma mesa de castanho, sentados em cadeiras da mesma madeira, devidamente colocada sobre um brilhante mosaico preto e branco, lá estava eu, o meu amigo António Manuel, e o Dr. Justino Santos, digno presidente da Câmara municipal de Odemira.

 

Tínhamos recebido um pedido de reunião do presidente Justino e, para nós dirigentes da colectividade, era uma honra ter a possibilidade de no local podermos mostrar o trabalho que a população de S. Luís vinha realizando em prol da sua colectividade. Trabalho esse, que muito nos orgulhava, e ainda hoje orgulha, dele termos participado. Não sabíamos a razão dessa reunião, nem que motivo levaria o Presidente a vir à aldeia e à nossa colectividade.

 

Espaço visitado e já comodamente sentados, conversa puxa conversa, “cultura para aqui”, “obras para lá”, “tempos livres para acolá”, “movimento associativo”, “trabalho para a comunidade”, “o papel das colectividades no desenvolvimento das comunidades”, “os desafios que o poder local democrático estava a enfrentar”… e muitos outros motivos de conversa.

 

Finalmente, ficámos a saber a principal razão da visita e da conversa marcada com nós os dois. O Dr. argumentando que o concelho precisava de pessoas empenhadas, nomeadamente interessadas no desenvolvimento associativo em volta das actividades recreativas e culturais. Dizia ele que os Sanluisenses se podiam orgulhar do trabalho que vinham desenvolvendo.

 

Então, como um disparo dum “Colt 45”, senti um calafrio como se a bala me tivesse atingido. Com a sua voz acutilante, persuasiva e mostrando uma alegria e vontade de transformação, saía o convite, aos dois, para que aceitássemos fazer parte das listas de candidatos aos órgãos autárquicos nas eleições que se realizariam nesse final de ano.

 

Depois de ponderar se de facto podia ajudar, nesse modo de participação cívica, no desenvolvimento deste concelho de Odemira onde nasci e decidi viver, resolvi aceitar o desafio.

 

A colectividade era um espaço vivo de discussão e a discussão vinha dando os seus frutos pois muitas realizações vinham acontecendo.

 

Acontecia democracia e gosto de fazer coisas para a comunidade em S. Luís e os tempos não eram nada fáceis, pois o fervor partidário era grande.

 

Nas eleições de 12 de Dezembro de 1982 fui então eleito nas listas da coligação PCP/MDP/CDE e outros Democratas, para o órgão Autárquico: Assembleia Municipal de Odemira. Em 1985 fui de novo eleito para o mesmo órgão.

 

Nas eleições de 12 de Dezembro de 1982, fui pela primeira vez eleito vereador da Câmara Municipal de Odemira. A maioria CDU ficou composta pelo presidente Justino Santos, pelos vereadores: Cláudio Percheiro, Valentim Jacob e por mim; o vereador Humberto Encarnação e Aníbal Santos, eleitos pelo PS e António Amaro eleito pelo PSD.

 

Desde esse longo ano de 1982, passados, neste mês de Dezembro, 34 anos, ( só não fui eleito autarca deste concelho, por opção ter necessitado de descansar, por um único mandato).

 

Vem a propósito esta introdução para nestes 40 anos de poder Local democrático, aqui prestar a minha modesta homenagem a todos os homens e mulheres que se dignaram colaborar no desenvolvimento do concelho de Odemira no desempenho da missão de eleitos autárquicos, assim como a todos os trabalhadores e trabalhadoras das autarquias.

 

Sinto uma alegria grande pelo trabalho que foi desenvolvido e ter podido ter a possibilidade de nele participar.

 

Fico grato por ter podido partilhar com camaradas, companheiros e adversários momentos ímpares de vida democrática e poder dizer que nunca senti em momento algum ter qualquer sentimento de prepotência ou desrespeito por qualquer adversário. Sem nunca abdicar dos valores que politicamente defendo para o desenvolvimento do nosso concelho.

 

Obrigado aos eleitos nas listas da minha opção politica, e também aos eleitos de todas as outras listas.\

 

O que me levou, pacato cidadão, a dedicar o meu tempo nessa missão durante todos estes anos?

 

Meditando, simplificando, diria: as pessoas do “meu” concelho merecem que todos e cada um contribuam para que a sua vida seja melhor.

 

Mas outros valores, primeiros, levaram também a que tivesse optado por tirar tempo devido ao meu trabalho profissional e a minha família. E esses valores primeiros são a participação democrática em prol da discussão séria, respeitosa e plural.

 

Os tempos passam mas as democracias e a vivência democrática, não se consolidam por si só, têm que, dia a dia, por todos os cidadãos, ser cultivados, renovados e melhorados. Temos que estar vigilantes, para que a “Democracia Continue a Passar Por Aqui”.

 

O mundo está conturbado, os ideais totalitários estão à espreita. O caciquismo de má memória do tempo da outra senhora, travestido de democracia, está a proliferar e a minar a nossa democracia.

 

Não faltam exemplos em muitos lados e perto de nós podemos testemunhar atitudes e acções que me levam a ficar muito preocupado. Com discrição umas vezes, outras veladas e ameaçadoras, vai-se presenciando actos indignos do exercício de funções autárquicas, compatíveis da prática e obrigação de vivência democrática.

 

Será que as grandes maiorias cegam os seus autores e os levam ao desejo de poder único?

 

Será que os eleitores que elegeram os seus adversários nas listas suas opositoras, não tem valor?

 

Será que não pode haver, no concelho, outros projectos e outros Odemirenses preocupados com o desenvolvimento do concelho?

 

Será que os milhões de euros, dinheiro pertença de todos os Odemirenses, parte dele pago directamente pelo esforço dos munícipes, é para estar amealhado e a render juros no banco, sujeito a ser perdido por falência dessas instituições, em vez de ser investido nas infra-estruturas de água, esgotos e vias pavimentadas necessárias à qualidade de vida de muitos cidadãos excluídos do concelho?

 

Pensamento único? Não Obrigado.

 

A democracia nunca será definitiva se descurarmos no dia-a-dia a sua cultura.

 

Diz-se que “os trinta são os anos da razão” Será por estarmos nos “quarenta” da democracia, em Odemira terminou a “idade da razão democrática”?...

 

Estejamos alerta!