PALAVRA DE PALHAÇO

O Penúltimo Palhaço

Anas Al Basha mais conhecido como “O Palhaço de Aleppo"


Por:Enano Torres

2016-12-31
apesar da escalada da violência na sua cidade, tinha-se negado a abandoná-la, queria seguir trabalhando, seguir oferecendo sorrisos, cor, esperança no meio da escuridão, da barbárie, da desolação

Confesso que este artigo, foi escrito sem saber que nestes momentos o assunto do qual ia falar estivesse na ordem do dia, nas redes sociais, nos telejornais, televisões e tanto foco é devido a que a situação é tão catastrófica que até dá vergonha pertencer à espécie Humana.

 

Mesmo assim decidi publicar o artigo pois sinto que devo prestar Homenagem a este companheiro, que fez seu Circo num Inferno.

 

Alepo é uma cidade no norte da Síria, a maior cidade do Pais, desde há anos os aviões são como pássaros e as bombas caem como a chuva. Lá existia um colega de profissão.

 

Assim como eu, era Trabalhador Social, acreditava num mundo melhor, fez-se Palhaço para oferecer Alegria no lugar onde cresceu, onde existia um céu assim como o nosso e também crianças com necessidade de diversão, tinha 24 anos e também um nome “ Anas Al Basha” mais conhecido como “O Palhaço de Aleppo”, uma cidade síria devastada pela Guerra, onde a maioria da população fugiu da cidade e de seu próprio Pais quase obrigado pelo espírito de sobrevivência perante um cenário atroz, próprio dos filmes de guerra que estamos habituados a ver nos cinemas, mas com uma diferença: neste filme as armas são de verdade, assim como o cenário e os Heróis são todos aqueles que sobrevivem no dia-a-dia perante os bombardeamentos da aliança russa e o exercito de Al Assad, e claro os mortos também são de verdade.

 

Anãs, apesar da escalada da violência na sua cidade, tinha-se negado a abandoná-la, queria seguir trabalhando, seguir oferecendo sorrisos, cor, esperança no meio da escuridão, da barbárie, da desolação.

 

Dedicava-se a animar as crianças encurraladas na parte rebelde da cidade, com uma peruca laranja era um alvo fácil, com seu figurino e seu sorriso caminhava pelos escombros da cidade destruída levando presentes, ajudando as vítimas, tratando de dar sentido ao absurdo da Guerra, era um alvo de luz e cor entre tanta escuridão, um sopro de ar para os milhares de crianças inocentes que ainda acreditavam na diversão e no jogo, no fundo ele levava algo de humanidade entre tanta morte a sua volta.

 

Muitas destas crianças nunca conheceram a Paz, pois desde o ano 2012 a cidade ficou dividida e desde essa data tem que viver diariamente com o bombardeamento incessante carregando as consequências psicológicas; apenas existia um tempo de alegria quando se deparavam com Anas e seu nariz vermelho.

 

O que se previa confirmou-se, no passado 29 de novembro, a aviação da aliança Russa e o exercito de Al Assad massacrou outro grupo de civis; apertando o botão para eliminar do radar outro punhado de pontos que procuravam refúgio; entre eles estava um ponto laranja, um ponto fácil de localizar, um ponto que separava a Alegria do Drama, o ponto da peruca de Anas.

 

Foi seu irmão quem tornou público o seu desaparecimento num post no Facebook.

 

“Anas não era um terrorista. Era um membro ativo da sociedade que trabalhava dia e noite para levar um sorriso às crianças sírias”.

 

Anas negou-se a ir embora com o circo para outra parte, a sua tenda era a sua casa e sua casa era um dos lugares mais perigosos do planeta.

 

Seu riso deve ressoar ainda nas ruínas da cidade destruída, da montra da ignorância humana, da loucura do capital e o maldito negócio das armas de destruição massiva.

 

Tua valentia é o espelho de muitos que acreditamos num mundo melhor onde a felicidade, a esperança, a partilha, a solidariedade e o Amor são nossas armas de construção massiva.

 

Obrigado caro Anas por teres ficado oferecendo alegria até à tua partida, por visitares durante a noite os improvisados Hospitais-Refúgios para desdramatizar com tua arte as crianças feridas; o teu nariz é o exemplo de muitos que acreditamos num mundo sem guerras e acredita que sempre serás o Penúltimo Palhaço de Alepo.

 

Em quanto perdure a destruição continuaremos sendo necessários; nossos pontos laranjas, verdes, amarelos, vermelhos são tão Grandes como o Mundo em Paz que sonhamos seguir “Circombatendo”!

 

Qual “Feliz” Natal!?

 

Requiem por Anas e já agora, quem é que ainda usa o termo Palhaço como um insulto?