MÚSICA

Sérgio Godinho e a Liberdade em Odemira

Em Fevereiro de 2017 vai lançar o seu primeiro romance

Imagem de António Falcão
2016-12-31
O cantor vai estrear-se nos romances em 2017, mas antes veio à vila alentejana cantar os seus êxitos de sempre e celebrar o aniversário do poder local democrático

Antes que o tempo faça cinza da brasa e outra maré cheia venha da maré vaza, Sérgio Godinho anuncia que em Fevereiro de 2017 vai lançar o seu primeiro romance, Coração Mais Que Perfeito. “É o meu primeiro romance e será editado pela Quetzal, que já tinha editado o meu primeiro livro de ficção, Vidadupla”, conta ao MERCÚRIO o cantautor. Este último foi a estreia nos contos, mas já antes Godinho tinha pisado o palco da escrita, nos géneros de crónicas, ficção juvenil, teatro e guiões de cinema.

 

O primeiro romance está no prelo, o segundo já está escrito e o terceiro já está a ser escrito, estando a publicação prevista para 2018 e 2019, porque “é preciso deixar cada obra respirar”, defende. “É uma vida que até a mim me surpreende, escrevo todos os dias, é um vício, um maldito vício”, brinca soltando uma gargalhada.

 

A conversa decorre nos bastidores do Cineteatro Camacho Costa, onde Sérgio Godinho veio apresentar o seu concerto “Liberdade”, a convite da autarquia local, para celebrar os 40 anos do Poder Local. “Foi uma grande alegria ter regressado a Odemira, foi um exercício de partilha com uma sala cheia muito reconfortante”, assinala.

 

A entrada foi livre e gratuita. Mas o espectáculo não foi oferecido: a autarquia pagou 7.240 euros à Vachier e Associados, uma agência artística que tem na carteira outros artistas conhecidos, tais como José Mário Branco, Rita Redshoes, Samuel Úria e David Fonseca.

 

O cantor tem mais anos de carreira que o repórter tem de vida. O artista percebe o embaraço e incentiva, sem demoras: “Vá, deixe-se de coisas e faça lá as perguntas”. Vem-nos à memória uma pergunta batida: o que pensa Sérgio Godinho da democracia local? “É uma conquista muito importante, mas não é um dado adquirido”, analisa. Insistimos, lembramos que no palco cantou, irónico, “a democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros”. O cantor não desarma e franzindo uma ruga que terá crescido nos nove anos que passou exilado politicamente no estrangeiro atira: “como disse em palco e repito, a democracia conquista-se todos os dias”. Então e os “Vampiros”, de Zeca Afonso, que como interpretou, “comem tudo e não deixam nada”? “Ah, continuam a existir, cada vez mais”, diz entre sorrisos.

 

Em palco, com um desenho de luz impecável e acompanhado de uma banda com profissionais de primeira, comungou com o público odemirense temas recentes e temas de sempre. Mas alguns temas de sempre têm roupagem nova, novos ritmos, novos arranjos. Nada que o público estranhe, pelo contrário, cantam com aquele… sim, o leitor já adivinhou, com aquele brilhozinho nos olhos. “As canções não são objectos”, explica Sérgio Godinho. “Ao contrário de um quadro, que está sempre pintado e fixado numa parede, uma canção está em movimento, acompanha os tempos e, além disso, se fosse sempre a mesma coisa era uma chatice, não a fazíamos”, precisa.

 

E “Liberdade” é tudo menos chato. O artista domina os tempos das intervenções, sabe que o público as quer curtas, que ali foram para o ouvir cantar, mais do que falar. Mas também há aplausos quando celebra a eleição de António Guterres como Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas.

 

Nos bastidores, entre a azáfama, um fã, de meia-idade, espera no corredor por uma palavra é um autógrafo. A produção impacienta-se, mas o fã defende a sua posição: “Era o que faltava o espectáculo chamar-se Liberdade e eu não poder estar aqui, além disso a malta em Odemira é toda fixe”. E ainda antes da comitiva de lembranças encabeçada pela vereadora da Cultura vir dar os presentes da praxe, o fã leva o autógrafo numa mortalha de cigarro. Para ele será o primeiro dia do resto da sua vida.

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)