OPINIÃO PÚBLICA

Nós e a propaganda

Detesto que queiram fazer de mim parvo


Por:Fernando Almeida

imagem: UNICEF
2016-12-31
Fica a ideia que a guerra em Aleppo é uma ofensiva criminosa do governo sírio contra democratas e populações indefesas, e que em Mossul o ataque do governo iraquiano é um ato heroico e libertador

Detesto que queiram fazer de mim parvo. Sempre fui assim, mas com o passar dos anos cada vez me aborrece mais que me tentem enganar. Há os que nos tentam enganar com mentiras descaradas, mas esses são geralmente trapaceiros pouco sofisticados e rapidamente são descobertos. Mas há os que nos tentam enganar de forma mais requintada, misturando as mentiras que nos querem vender com algumas verdades: como dizia o poeta António Aleixo “para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. É por isso que hoje os maiores profissionais do logro, que são os fazedores de propaganda dos serviços secretos dos maiores países do mundo, se especializaram a enganar as gentes de forma tecnicamente quase irrepreensível: as suas mentiras vêm acompanhadas de algumas verdades. Nós por cá só temos acesso às falsidades e enganos fabricados pela propaganda dos serviços secretos dos países ocidentais, mas imagino que os métodos sejam semelhantes um tanto por todo o mundo.

 

Tudo isto tem que ver com a Síria e com o Iraque, em particular com as cidades sitiadas de Alepo e de Mossul, e com as notícias que sobre elas nos têm inundado os noticiários televisivos. Repare-se na diferente forma como nos mostram dois cenários de guerra que devem ser muito semelhantes no terreno. No caso de Mossul, atacada pelas forças do exército iraquiano aliado do ocidente, só nos mostram explosões ao longe, além dos desertores arrependidos que vêm pedir publicamente a decapitação dos dirigentes do “Estado Islâmico”; quanto a Alepo, atacada pelas tropas do governo sírio aliadas de Moscovo, as imagens foram durante meses presença obrigatória nos noticiários televisivos, e são radicalmente diversas. Neste caso mostram sempre as casas destruídas, as mulheres a gritar, as crianças ensanguentadas ao colo de homens desesperados... Sabemos que as bombas são semelhantes e que lançadas sobre qualquer das cidades com o intuito principal de atacar os inimigos armados, farão em qualquer dos casos vítimas civis absolutamente inocentes. Fica contudo a ideia que a guerra em Alepo é uma ofensiva criminosa do governo sírio contra democratas e populações indefesas, e que em Mossul o ataque do governo iraquiano é um ato heroico e libertador.

 

Claro que qualquer pessoa, mesmo que pouco informada e conhecedora destas coisas da política mundial, perceberá que há um diferente tratamento das duas situações que visa “diabolizar” o regime sírio e seus aliados russos e iranianos, e desculpabilizar e mesmo enaltecer o regime iraquiano e seus amigos ocidentais: uns são tiranos, outros são libertadores. Mas o logro, neste caso da conquista (ou libertação) de Alepo, vai muito mais longe. Quem veja a conferência da irmã Guadalupe missionária argentina da família religiosa do Verbo Encarnado, que viveu os últimos anos em Alepo, terá acesso a uma fonte mais próxima da verdade dos factos, porque não comprometida com regimes políticos ou interesses económicos. Diz essa testemunha viva da realidade que os ditos “insurretos” que o ocidente trata como “democratas libertadores” são no essencial mercenários estrangeiros que praticam todo o tipo de crimes, e não democratas sírios que se opõem ao regime de Assad. Essa gente tem praticado todo o tipo de atos bárbaros como seja matar cristãos (apenas porque são cristãos) e deixá-los esquartejados em sacos de plástico nas ruas acompanhados de um cartaz dizendo “não tocar, é cristão”…

 

Mas também nos diz que logo no início do conflito (que ela afirma não ser uma guerra civil, mas antes um ataque de estrangeiros à Síria) as manifestações que se realizaram em Alepo de apoio ao regime e ao presidente Bashar al-Assad, foram mostradas nas televisões do ocidente como sendo manifestações contra o regime e a pedir a Assad que se demitisse… Nós não falamos árabe, podem mentir-nos à vontade.

 

Um observador atento verá que as mentiras e enganos não param por aqui. Os filmes que passaram nos noticiários televisivos sobre Alepo, uns com uma menina que supostamente estaria a fazer um diário de guerra, outros com jovens rapazes de ar frágil e suplicante a pedir pela sua vida, são seguramente obras da propaganda anti Assad realizados por equipas de televisão completas, com técnicos de som e de imagem, além de atores bem preparados e competentes. É fácil acreditar mesmo que as referidas peças publicitárias nem sequer tenham sido filmadas em Alepo, já que a área estava cercada, não tinha eletricidade nem internet, e seria virtualmente impossível publicar esses filmes na rede ou fazê-los sair por outros meios para as agências noticiosas internacionais.

 

Os mesmos que falsificaram todo o tipo de informações e documentos para justificar a invasão do Iraque, aproveitaram a “primavera árabe” da Tunísia e do Egito para promover os ataques aos regimes que não são favoráveis ao ocidente como os da Líbia e da Síria. Ainda assim continuam a apresentar-se como se fossem verdadeiros paladinos da verdade, da justiça e da liberdade. A mentira devia ter limites.

 

No meio de tudo isto, que resulta dos inconfessáveis interesses de potências estrangeiras, estão as gentes da Síria e do Iraque, povos esmagados, com centenas de milhares de mortos e feridos, milhões de refugiados, cidades destruídas, e a barbárie generalizada da guerra… Tudo isto com o apoio ou consentimento dos que se dizem defensores dos direitos humanos, da democracia e legalidade. O cinismo dos políticos é vergonhoso.