A MÁQUINA DO TEMPO

Há 100 anos

Passados agora 100 anosas incertezas mantêm-se


Por:Artur Efigénio

2016-12-31
Passados agora 100 anos, pode-se afirmar, que na generalidade, os portugueses vivem melhor que nesses tempos. Mas as incertezas mantêm-se grandes

O novo ano em que entramos assinalará os 100 anos de um dos mais marcantes anos na História contemporânea portuguesa. 

 

O ano de 1917 pautou-se pelas dificuldades, ambiguidades e posições extremadas da nossa jovem república instaurada em 1910, onde, tanto a política como a Igreja, registariam factos que ainda hoje nos levam à formação de divergentes opiniões.

 

Enquadrados por uma conjuntura internacional muito extremada, encimada pelos ventos de leste iniciados na Rússia com a Revolução Bolchevique e pela intensificação da primeira Guerra Mundial, este ano marca a partida dos primeiros portugueses do Corpo Expedicionário Português a 30 de janeiro para o atoleiro da Flandres em França, de onde regressaríamos com cerca de 14.000 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos.

 

É também neste ano que é criada em Lisboa a “sopa dos pobres”, sinal da crescente penúria em que se encontrava o país, ao mesmo tempo que se verificavam, um pouco por todo o lado, os assaltos a estabelecimentos comerciais e armazéns, o que levaria também no nosso concelho à revolta do Vale de Santiago, fazendo com que José Júlio da Costa, homem de Garvão, assassinasse, no ano seguinte, o Presidente da República, Sidónio Pais.

 

Vivia-se então um estado de completa anarquia. Durante este ano de 1917, Portugal contou 5 governos. O estado da economia era caótico, agravado pela entrada na guerra. Dissensões, assassinatos e atentados eram o dia-a-dia. A Igreja tinha sido banida da sociedade por Afonso Costa, perseguida por todas as maneiras e reduzida ao silêncio. Todos os conventos, mosteiros e ordens religiosas foram suprimidos, os religiosos foram pessoalmente expulsos e os seus bens confiscados. Os Jesuítas foram obrigados a desistir da sua cidadania portuguesa. O toque dos sinos e as horas de culto foram sujeitos a restrições, e a celebração pública das festas religiosas foi proibida.

 

Neste contexto, muitos portugueses compreendiam que a única salvação possível estava na misericórdia do céu.

 

A 13 de maio de 1917, brincavam os três pastorinhos na Cova da Iria, uma pequena propriedade localizada próximo de Fátima, quando por volta do meio-dia e depois de rezarem o terço, observaram dois clarões como se fossem relâmpagos. Com receio de começar a chover, reuniram o rebanho e decidiram ir-se embora, mas no caminho, outro clarão teria iluminado o céu. Nesse instante, teriam visto em cima de uma pequena azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições), uma imagem de Nossa Senhora: “era uma Senhora vestida de branco e mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente”, descreve Lúcia.

 

Era a primeira das aparições marianas que voltariam a ocorrer todos os meses até ao dia 13 de outubro de 2017, dia de chuva, em que, segundo os relatos da época, cerca de 50.000 pessoas assistiram ao milagre do Sol, girando vertiginosamente sobre si. O relato foi publicado na imprensa por diversos jornalistas que ali se deslocaram e que foram também eles, testemunhas.

 

Verdadeiros milagres? A resposta é dada pela convicção de cada um. E existem teorias para todos os gostos. Mas por certo, este facto foi determinante e contribuiu para a degradação da Primeira Republica, marcando uma viragem política na forma de encarar a Igreja, que a par de outros factos mais reais e violentos, viria a consubstanciar as revoltas que se seguiram e que só terminariam no dia 28 de maio de 1926 com a instauração da Ditadura Militar e a chamada do professor António de Oliveira Salazar para o cargo de ministro das finanças.

 

Passados agora 100 anos, pode-se afirmar, que na generalidade, os portugueses vivem melhor que nesses tempos. Mas as incertezas mantêm-se grandes. E se considerarmos os ventos vindos, quer de leste, quer do outro lado do oceano, as analogias com o passado não poderão deixar também de ser feitas.

 

Esperemos, pois, que o ano de 2017 seja, ao contrário de há 100 anos, um ano de esperança, de prosperidade e de paz e para todos.

 

Um feliz Ano Novo!