EDITORIAL

Cultura e desenvolvimento

Foram 40 anos de democracia local durante os quais os autarcas eleitos votaram ao esquecimento este assunto


Por:Pedro Pinto Leite

2017-01-31
Sendo Vila Nova de Milfontes a segunda freguesia com o maior número de habitantes mas com a maior densidade populacional, porque é que não há um equipamento cultural público e adequado naquela localidade?

Há uns tempos, numa conversa com um grupo de pessoas, o professor José Pacheco (criador da Escola da Ponte, um projeto educativo baseado na autonomia, na responsabilidade e na solidariedade dos alunos), respondendo a uma pergunta que lhe tinha sido feita e, citando, por “não gostar de papaguear”, dizia que havia um ‘livrinho’ acerca do assunto, que o facultaria e que, ao lê-lo, a pessoa ficaria devidamente esclarecida.

 

A forma como José Pacheco efetivamente abreviou a sua resposta e evitou uma extensa explicação acerca de um tema cujo conteúdo estaria sobejamente discutido e documentado e que poderia facilmente ser consultado, foi bem entendida.

 

Se a resposta existe em vários formatos, em papel ou digital, pesquise-se e pronto.

 

Por essas mesmas razões, por existirem estudos e publicações escritas acerca da relação entre desenvolvimento e cultura (por ex.: os portugueses Augusto Santos Silva e Augusto Mateus. Falando de ‘Augustos’, também, na Roma Antiga, César Augusto já entendia a importância da cultura no desenvolvimento), e porque eventualmente os leitores deste editorial são já conhecedores do tema, evita-se aqui alguma “papagueação”. O mesmo se aplica à distinção entre cultura e folclore, já aqui abordada.

 

Vem a propósito a falta de um equipamento cultural condigno em Vila Nova de Milfontes.

 

Para além da sede de concelho, S. Miguel, Brejão, S. Teotónio, Vale Santiago, Longueira, S. Luís, Odemira, S. Martinho das Amoreiras, Amoreiras-Gare, Cavaleiro, Zambujeira, Luzianes e Bicos têm equipamentos socioculturais. Uns mais modernos que outros mas todos são equipamentos que servem, à sua medida, as diversas atividades que se desenrolam naquelas localidades.

 

Sendo Vila Nova de Milfontes a segunda freguesia com o maior número de habitantes (em época baixa) mas com a maior densidade populacional (perto de 66 habitantes por km2, duas vezes e meia a de Odemira e três vezes e meia a de S. Teotónio) é motivo para pensar: porque é que não há um equipamento cultural público e adequado naquela localidade?

 

O que é que têm feito, até hoje, os autarcas, quer os da freguesia quer os do município, no sentido de se criarem condições para a sua existência?

 

Nada!

 

Foram 40 anos de democracia local durante os quais os autarcas eleitos votaram ao esquecimento este assunto.

 

Há muito tempo que os representantes da Câmara Municipal são confrontados, com regularidade, por escrito e de outras maneiras menos formais, com a ideia da necessidade de um espaço cultural naquela localidade.

 

Há muito tempo que os representantes da Câmara Municipal não compreendem a necessidade de um espaço daquele cariz naquela freguesia.

 

Se há uns anos poderia haver um ou outro ‘visionário’ que entendesse a ideia de que um espaço cultural alargado e versátil em Vila Nova de Milfontes seria imprescindível e necessário para o desenvolvimento da terra e para o bem-estar da sua gente (visitantes incluídos), isso hoje é já sentido por grande parte da população. A vila e o concelho só teriam a ganhar com isso.

 

A realização de um espaço destes poderá ser mais fácil do que se imagina, ou do que se quer fazer querer.

 

A falta de dinheiro não é uma razão credível. Há dinheiro nos cofres da câmara.

 

A falta de espaço também não parece um problema uma vez que existem terrenos em localizações perfeitas para um centro cultural.

 

O Cinema Girassol, por exemplo, um espaço privado que funcionará apenas até que o seu proprietário, António Feliciano, puder e/ou quiser, poderá ser uma solução. É uma boa oportunidade. É tudo uma questão de negociação.

 

Tem duas frentes: uma sobejamente conhecida que dá para a Rua Custódio Brás Pacheco, mesmo em frente ao Colégio e outra, que passa despercebida porque está emparedada, dá para o parque de estacionamento ao lado da GNR. O Girassol é um espaço com uma localização excelente e estratégica e com grande potencial. Com uma pequena intervenção, está apto a acolher qualquer tipo de atividade cultural. Não é preciso mexer muito. “Perdê-lo”, seria uma pena.

 

De salientar que aquele espaço tem um sistema de climatização a funcionar.

 

Não havendo dificuldade financeira, nos terrenos nem em espaço o que é que tem faltado, então? Vontade? Certamente!

 

Acima de tudo não há, nem nunca houve, uma visão clara (não há visão, sequer) daquilo que o município ou a junta pretende a nível cultural. Acrescenta-se a falta de valores culturais e como consequência não poderá haver qualquer estratégia definida para atingir qualquer objetivo inexistente.

 

Mudem-se os costumes, então.