DE QUEM É O OLHAR

O futuro era ontem

Já não é necessário uma instituição para o controlo dos pensamentos


Por:Monika Dresing

2017-01-31
Muitas pessoas informam-se apenas através das redes sociais onde as informações já chegam filtradas ou até falsificadas, de acordo com as suas preferências anteriores

Quando andava na escola, nos anos sessenta, existiam dois livros de ficção utópica pessimista, já naquela altura considerados clássicos: “Brave New World” (Admirável Mundo Novo), escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932, e “1984”, escrito por George Orwell e publicado em 1949. 

 

O futuro imaginado por Huxley é um futuro distante que existe por volta do ano de 2500. Depois duma grande guerra e dum colapso económico nos meados do século XX, os diferentes governos tinham formado um “governo do mundo” com o objectivo de impor uma ideologia de consumo. Para suprimir qualquer oposição, este governo tinha decidido fazer uma reformação pacífica da sociedade, criando uma sociedade global feliz e de bem-estar. No futuro descrito, as pessoas já não nascem naturalmente, são artificialmente criadas e condicionadas para assumirem o seu papel na comunidade. Promovem-se contactos sexuais com numerosos parceiros, sendo o divertimento o único objectivo destes contactos. O amor e a paixão são considerados perigosos para a estabilidade da sociedade. Para se evitarem grandes oscilações emocionais, as pessoas tomam “soma”, uma droga sintética sem efeitos secundários. A educação abrange apenas habilitações úteis para a sociedade. Uma educação humanística é rejeitada, visto que esta poderia provocar pensamentos profundos, possibilitando um olhar crítico sobre o mundo. É um sistema político totalitário, mas – à primeira vista – não violento.

 

Orwell, por sua vez, descreveu o mundo no ano de 1984. No seu futuro imaginado existem três grandes potências que tinham dividido o mundo entre si. Estas superpotências vivem num estado de guerra permanente onde as alianças e os inimigos mudam constantemente. As acções belicistas limitadas ocorrem apenas na periferia, mas devido ao estado de guerra os governos podem persuadir as populações de ficarem contentes com a pobreza em que estão a viver.

 

O governo, isto é, o partido, tem vários métodos para exercer o seu poder: 

 

- Existe uma vigilância total através de écrans e microfones (Big Brother). Há ainda helicópteros a circular e pessoas a espiar.

 

- O partido controla os pensamentos de tal forma que as pessoas acreditam em assuntos objectivamente errados. Não existe uma verdade fora do partido.

 

- Há espectáculos de propaganda para provocar ódio nas pessoas e dirigir este ódio contra quaisquer inimigos.

 

- A língua é artificialmente modificada com o objectivo de reduzir o vocabulário para assim dificultar pensamentos diferenciados. São também criados eufemismos e neologismos.

 

- 85% da população são pessoas que de propósito são mantidas ignorantes e passivas. Para as satisfazer, o estado produz música pimba, novelas baratas e filmes pornográficos, organizando também uma lotaria.

 

E hoje? Algumas destas coisas são inimagináveis? Parece-me que já alcançámos ou até ultrapassámos uma combinação das duas visões utópicas, pelo menos parte delas. Que iria Orwell dizer ao saber do Facebook, Twitter, Instagram, onde as pessoas fornecem voluntariamente todos os seus dados, ao ver os telemóveis que mostram a localização dos utilizadores, etc.? Que iria Huxley dizer ao conhecer grande parte dos eventos “culturais” de hoje, os currículos que parecem ter como único objectivo a preparação, sem desvio, para uma “vida útil”? Já não é necessário uma instituição para o controlo dos pensamentos. Muitas pessoas informam-se apenas através das redes sociais onde as informações já chegam filtradas ou até falsificadas, de acordo com as suas preferências anteriores. 

 

Vale a pena olhar para estes dois livros onde podemos encontrar muito mais paralelas com o mundo em que actualmente vivemos. A utopia descrita é uma visão pessimista, onde as pessoas são forçadas, de forma mais ou menos violenta, a funcionar e viver unicamente para o bem do estado, do partido, duma entidade superior. Queremos ser este tipo de escravos limitados? A escolha é nossa.