PALAVRA DE PALHAÇO

Espelho Meu

Quantas vezes ao rir se chora?


Por:Enano Torres

2017-01-31
Nossa alma quando está cheia de tempestades lança um relâmpago triste: o sorriso. /br>

Um homem sumido na mais profunda depressão apresenta-se na consulta dum psicólogo. Subitamente, em monólogos entrecortados, conta que uma melancolia esquisita lhe agarra o coração. Tudo é pesado na sua vida sem sentido.

 

Desde há um tempo atrás que não consegue dormir, como se tivesse agulhas no seu colchão. Quando não dorme, passa noites a caminhar pela cidade silenciosa à procura de luzes de vida, onde encontra os gatos solitários de sempre, os homens do lixo que regam a sujidade de mais um dia passado, os sem-abrigo a dormir debaixo do teto amparado do céu, o cheiro a pão e a rádio em alta da Padaria do lugar, a prostituta de turno que lhe oferece serviços…

 

As mãos da sua alma procuram carícias para seu coração dorido.

 

Já pensou em desistir pelo caminho, mas algo interior lhe diz para continuar. Algo inexplicável.

 

O psicólogo escuta-o pacientemente, observando os seus olhos, tentando decifrar o enigma do seu paciente; por vezes, os olhos dizem mais do que as palavras. Pelo seu relato e pelo facto de ter sido admitido na sua consulta, tão cara, se dá conta que o senhor é um homem rico. Pelo que sugere:

 

- Se calhar seria conveniente realizar um Cruzeiro pelas Ilhas Gregas, até poderia passar antes pela Bella Itália! Tome o seu tempo, viva, sinta os pequenos prazeres que a vida dá. Não conheço ninguém que após essa viagem tenha desejado desistir.

 

O paciente suspira e confessa:

 

- De lá venho eu e a minha viagem não foi curta. Todas as regiões de Itália tenho visto, de norte a sul, e tenho as mãos da alma sujas pelo ouro da melancolia.

 

- O Amor! Exclamou o doutor, e o Amor? Sei que é tarefa complicada de ter mas são possíveis as aventuras: Tem cultivado as citas clandestinas?

 

- Tenho esposa e filhos que me amam.

 

- Sugiro, sendo assim, morar num espaço rural, fora da cidade, onde consiga ouvir o som dos passarinhos quando acordar, as baladas das ovelhas, aprender a ouvir a linguagem do vento…

 

- Há 5 anos que moro nas aforas da cidade, numa Quinta Rural chamada “O Paraíso” onde criamos saudavelmente nossos filhos, doutor.

 

O psicólogo começava a pensar que não havia maneira de conseguir abrir uma porta de esperança ao paciente. A depressão era evidente, as descrições de seu estado de ânimo eram muito precisas e aterradoras.

 

- A cada noite os cães do sono ladram e me despertam; todas as noites, cada vez que acordo e levanto para me tranquilizar, olho-me ao espelho para verificar que continuo a ser eu mas só vejo uma máscara imperfeita no meu rosto e atrás dela aparece um rosto real de um inimigo que me quer matar. Peço-lhe então que seja piedoso e que não demore mais, que acabe comigo apagando minha dor. Mas ele goza comigo e diz-me que se me matasse se mataria a ele próprio privando-se do seu maior prazer: torturar-me.

 

O paciente era um homem culto, o médico um homem que confiava no senso comum. Após horas de conversação, intercaladas pelo necessário silêncio, nasceu entre eles uma simpatia, consolando-se no conforto do momento, onde existia a bandeira da confidência desafogada. A liberdade de falar sem prejuízos, em total liberdade e comunhão.

 

O médico levantou-se da cadeira, aproximou-se da janela, donde viu umas crianças a brincar e seguidamente lembrou-se de algo que, com certeza, poderia ajudar o paciente.

 

- Tenho uma proposta que, sem dúvida, vai aliviá-lo e com certeza, quando for feita, vai mudar o seu estado: este fim de semana atua de novo na cidade um Grande Palhaço de fama mundial, o Palhaço Pagliucci, um clown muito bom, suas observações e números põem o mundo ao contrário e todo o seu público sai do espetáculo com um sorriso na boca e com a convicção de que o mundo está bem feito; eu próprio já o vi duas vezes e tenho aqui três bilhetes para voltar este fim de semana. Tome, se faz favor, aceite a oferta de uma delas.

 

Os olhos do doutor brilhavam no momento de oferecer o convite quando de repente o paciente levantou-se virou-lhe as costas e foi à mesma janela que anteriormente ao convite o médico tinha ido. Lá continuavam as crianças a brincar saltando à corda, uma corda muito parecida com a de um dos números do Palhaço Pagliucci.

 

- Anime-se homem, vá ao espetáculo e mude de ares! Com certeza que vai voltar melhor!

 

Virou-se para ele e uma sombra de incomodidade e agonia brilhou no paciente e com a voz entrecortada a sussurrar diz:

 

- Doutor, eu sou o Palhaço Pagliucci, e começou a chorar, abandonando o consultório.

 

Quantas vezes ao rir se chora?

 

Nossa alma quando está cheia de tempestades lança um relâmpago triste: o sorriso.

 

O Carnaval do Mundo engana tanto, que existem vidas mascaradas, onde se aprende a rir com choro mas também a chorar com gargalhadas.

 

Isto faz-nos refletir de que muitas vezes não reparamos quando encontramos gente que nos contagia com seu ânimo e nos habituamos a isso. Não imaginamos que, se calhar, “levam a música por dentro” venerando o dito filosófico “adoro caminhar pela chuva porque as pessoas não conseguem ver minhas lágrimas” e motivos não faltam no nosso dia-a-dia para andar à chuva.

 

Adoro estar com o nariz de palhaço para afastar os pesadelos das noites que me levam a acordar e olhar-me no espelho da alma e improvisar no palco dançando entre as gargalhadas da audiência com a cumplicidade da nossa triste Alegria.