HORTICULTURA

ALENBAGA

Produtor de framboesa

2017-01-31
O encontro de duas gerações na produção de frutos vermelhos

O MERCÚRIO foi à procura de um pequeno produtor de frutos vermelhos no concelho de Odemira. Encontrou a Alenbaga, empresa constituída por cinco sócios e, neste momento, com doze hectares de produção, oito de framboesa e quatro de mirtilos. Falámos com o seu ‘porta voz’, Nuno Silveira, que nos mostrou toda a área de produção e nos explicou porque é que surge a Alenbaga, como funciona e como se desenvolveu.

 

A Alenbaga é uma empresa que se dedica à produção e venda de frutos vermelhos: framboesa e mirtilo.

 

 

O INÍCIO

 

A ‘viragem’ da vida de Nuno para a área agrícola vai no seguimento da vontade da sua filha mais nova enveredar por esse caminho. Inês e o primo, Salvador, recém-jovens agricultores, desafiaram os pais a apoiarem-nos na constituição de uma sociedade agrícola na área dos frutos vermelhos. “Foram eles que nos trouxeram para aqui”, comenta Nuno com algum humor, “eu não percebia nada disto” (risos).

 

A ideia foi crescendo, “o nosso sócio, Rui Rebelo de Andrade, pai do Salvador, acabara de vender a sua exploração de bovinos e tinha algum capital disponível “e eu pude contar como apoio dos meus sogros”, explica, “decidimos então apostar na nova geração e avançar com a Alenbaga”.

 

A experiência de Nuno na área da construção de jardins e de assistência e manutenção das regas e a de Rui na gestão agrícola, ajudou muito no entendimento de toda a organização da produção. A energia dos mais novos facilitou todo o processo.

 

O investimento inicial para a produção de framboesa é grande. Nuno e Rui procuraram outras fontes de capital e conseguiram o acordo com um terceiro investidor, António Barreto, primo de Rui.

 

“Tivemos também de recorrer à banca”, explica Nuno, “e a partir daí falámos com a Driscoll’s para saber a forma e as condições de poder trabalhar com eles e as ‘coisas’ começaram logo a andar”.

 

Os sócios não cruzaram os braços à espera do “dinheiro comunitário”, arregaçaram as mangas, alugaram um terreno de seis hectares e deram início ao processo: “primeiro as instalações, depois a preparação do terreno, de seguida a implantação dos dois primeiros hectares de túneis de produção e todo o sistema de rega”.

 

No início de cada projeto da Alenbaga esse trabalho foi entregue a uma empresa especializada em montagem de sistemas de túneis e de rega, “tipo chave na mão porque não vale a pena termos por aqui uma quantidade de empreiteiros diferentes se há quem faça o trabalho todo e ainda por cima bem feito”, clarifica Nuno.

 

Finalmente a plantação foi feita pela Alenbaga.

 

À medida que o projeto avançava iam-se pagando as devidas despesas.

 

 

A EVOLUÇÃO

 

A Alenbaga começou o seu processo de produção com dois hectares em terreno de seis hectares, arrendado. “Isso no primeiro ano”, conta Nuno.

 

No segundo ano duplicaram a área, para os quatro hectares, ainda no mesmo terreno. No terceiro ano a Alenbaga arrendou novo terreno, também de seis hectares e duplicou, mais uma vez, a área de produção com mais quatro hectares. “E aí foi feita mais uma candidatura a fundos comunitários, ao PDR 2020 (Programa de Desenvolvimento Rural, 2014-2020), e continuámos com a produção de framboesa”.

 

Entretanto foi arrendado mais um terreno de seis hectares onde “estamos a fazer um projeto de produção de mirtilos com quatro hectares, o que faz um total de produção de doze hectares”, informa Nuno.

 

Segundo o Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV), “nas áreas agrícolas do Perímetro de Rega do Mira as regras de utilização agrícola do solo, e para a instalação de pomares ou de culturas protegidas em abrigos, estufins ou túneis elevados obedecem às seguintes condições: para qualquer exploração agrícola desta natureza o total de áreas livres de pomar ou de culturas protegidas deve ser igual a pelo menos 20 % da área total ocupada pelo pomar ou pelas culturas protegidas; e quando a área total explorada com hortifruticultura e culturas ornamentais, de ar livre ou protegidas, for superiora 10 hectares, deve ser garantida uma área de dimensão igual a 20 % desta, ocupada com culturas melhoradoras do solo, de prevenção de pragas e doenças, para alimentação das espécies selvagens ou em pousio”. Daí a Alenbaga deixar sempre dois hectares livres, por cada quatro cultivados.

 

Para já Nuno não se mostra muito preocupado com a evolução da produção na região, “até porque há produtores aqui instalados que largaram as produções que tinham noutras regiões do mundo, o mercado ainda está a crescer e os preços, por enquanto, ainda são bons. O que me preocupa mais é a questão da mão-de-obra”.

 

 

AS PLANTAS

 

Para Nuno, a parceria com a Driscoll’s, enquanto estrutura fortemente organizada com um sistema de apoio aos produtores associados da Lusomorango, foi determinante para o sucesso da Alenbaga. “Para quem não tinha muitas noções acerca de como produzir framboesa, como era o caso de qualquer um de nós na empresa, foi fundamental termos ao nosso lado pessoas que nos dessem apoio e ‘know-how’. E isso a Driscoll’s tem!”.

 

Todas as semanas os campos da Alenbaga recebem a visita de um engenheiro agrónomo da Driscoll’s. Nuno clarifica: “é ele quem ‘olha’ pela saúde das plantas, que nos diz quais os tratamentos e adubações necessários, bem como outros conselhos de extrema utilidade”.

 

As plantas da Alenbaga foram desenvolvidas pela Driscoll’s. “Com essas plantas conseguimos maior produção do que com outras variedades existentes no mercado”, sublinha.

 

Para comprar essas plantas é necessário um contrato onde consta que as plantas são propriedade da Driscoll’s. O que, para Nuno, é “perfeitamente aceitável porque a Driscoll’s investiu muito tempo e dinheiro no desenvolvimento das suas plantas e nós não temos o direito de as reproduzir e vender a outros”.

 

Os produtores com plantas da Driscoll’s, associados da Lusomurango, segundo Nuno, têm toda a sua produção garantidamente comprada, seja ela de dez ou de cem toneladas. “Eles compram tudo, faz parte do contrato. Aliás, nem podemos vender a outro cliente, só podemos mesmo vender a eles”.

 

 

O PESSOAL

 

Para além dos cinco sócios a Alenbaga conta com mais quatro pessoas no quadro da empresa: duas na supervisão e duas na manutenção e “muito polivalentes. Destas, duas são portuguesas e duas são moldavas e têm sido uma grande e indispensável ajuda neste processo todo. São extremamente disponíveis!”, refere Nuno.

 

No início de cada projeto é necessário fazer a plantação. Nos anos seguintes, durante o inverno é necessária a manutenção da planta, dos túneis e do sistema de rega. “E para isso é preciso pessoal. Neste momento temos sempre que contratar pessoas de trabalho temporário para as manutenções. Ainda a semana passada tinha aqui cerca de 20 pessoas a trabalhar, e não estamos a produzir”, explica, “acabado o ciclo de produção temos de preparar a planta para o próximo”.

 

O pessoal temporário é contratado ao dia. A previsibilidade do tempo necessário para um determinado número de pessoas fazerem um certo tipo de trabalho é falível e essa é, para Nuno, uma das grandes vantagens de trabalhar com empresas de trabalho temporário. “É por isso que essas empresas existem”, afirma continuando, “os produtores, pelo menos os pequenos produtores, não conseguem ter 20 pessoas a contrato que durante 6 meses pouco ou nada teriam para fazer. Como é que conseguiríamos pagar? Isso não é bom para ninguém”.

 

A Alenbaga só trabalha com empresas de trabalho temporário da sua confiança. Para Nuno é “muito simples” fazer essa seleção: “se me aparece aqui alguém de uma empresa de trabalho temporário que me pede por pessoa três ou quatro euros à hora, eu sei que essa empresa não vai conseguir pagar os seus trabalhadores e penso que nenhum produtor com bom senso quer isso porque vai refletir-se na apanha”.

 

Os contratos entre a Alenbaga e as empresas de trabalho temporário, segundo Nuno, são realizados por um valor à hora justo para ambas as partes, que dê para os trabalhadores receberem pelo menos o ordenado mínimo e a empresa ganhar a sua comissão e ainda suportar o transporte até ao local de produção e o alojamento dos trabalhadores. “Essa é uma das grandes vantagens. Nós, enquanto pequenos produtores, não teríamos condições para o fazer. Um grande produtor, eventualmente, poderá fazer de maneira diferente, mas nós não”.

 

A Alenbaga, nos seus três anos de existência, tem já um grupo de trabalhadores ‘fiel’ à empresa. “Gente que gosta de trabalhar connosco”, diz Nuno. A sua maioria vem do Nepal, outros da Moldávia e da Ucrânia e “começa a haver quem venha da Índia e do Bangladeche”.

 

Relativamente aos baixos salários pagos aos trabalhadores agrícolas de “que muitas pessoas falam” Nuno sugere que “façam as contas a um ordenado mínimo, que muitos portugueses ganham noutros setores, dividam isso pelas horas de trabalho e vejam quanto é que vale cada hora”.

 

 

O TRABALHO (REGIME E MODELO)

 

Tirando as pessoas do quadro a Alenbaga não tem portugueses a trabalhar.

 

Para Nuno é tudo uma questão do tipo de regime de trabalho com muita maleabilidade dos contratos e instabilidade causada pelo trabalho sazonal, um regime incerto que, “embora vá havendo trabalho o ano quase todo, não é um trabalho das nove às cinco, por vezes é necessário fazer-se horas extra e por isso é um trabalho difícil para quem tem uma família para cuidar. Os portugueses que vêm à empresa não vêm pedir trabalho mas sim um carimbo no papel do IEFP (instituto do Emprego e Formação Profissional). Lamento dizê-lo mas é a realidade”, comenta e prossegue, “diz-se que se tratam mal as pessoas nesta industria mas eu não acho que isso seja verdade mas, como em tudo, há sempre quem se queira aproveitar das situações. Uma coisa é certa, eu não conheço nenhum produtor que não queira ver o seu pessoal satisfeito e bem tratado porque isso se reflete no trabalho que produzem”.

 

Para Nuno há maneiras de saber o grau de satisfação de um trabalhador “como conversar com eles e compreender o que sentem”.

 

A maioria dos trabalhadores da empresa são jovens nepaleses que não têm família em Portugal, “estão aqui uns tempos a ganhar algum dinheiro e depois vão-se embora, uns para casa outros para Inglaterra ou para onde for”, diz.

 

Os supervisores da Alenbaga controlam tudo na produção e na balança. Andam no campo a ensinar a colher, a controlar a colheita “porque a framboesa é muito delicada e tem de ser bem apanhada, isto não é como a azeitona”, diz Nuno, “é preciso muito cuidado como se apanha, como se coloca dentro dos copos de colheita, não deixar que os copos fiquem cheios demais para não pisar a fruta por debaixo e também colocá-la como deve ser dentro das cuvetes que vão para o mercado”.

 

Durante a campanha de colheita a fruta é todos os dias transportada para as instalações de frio da Driscoll’s, na Zambujeira do Mar.

 

As campanhas vão, sensivelmente, de finais de maio a meados de dezembro.

 

No final de cada campanha a Alenbaga dá prémios de produtividade. “Isso é uma coisa que se faz muito por aqui nesta zona”, remata Nuno.

 

 

A ÁGUA, OS PRODUTOS QUÍMICOS E O PLÁSTICO

 

Nos sistemas modernos de agricultura a utilização de rega gota a gota e de sondas que medem a humidade do solo que, por exemplo transmitem os dados para uma aplicação no telemóvel ou abrem e fecham automaticamente a rega necessária, permitem que haja uma racionalização extrema da água.

 

“Ainda há pouco tempo nesta região, na agricultura tradicional, abria-se a torneira, deixava-se a água correr e alagavam-se os terrenos. Agora com estas sondas, que medem a humidade do solo a dez, vinte, trinta, até aos sessenta centímetros cada vez se cultiva mais área com menos consumo de água”, informa Nuno.

 

A Alenbaga, como a maioria das empresas da região, é uma empresa alimentar exportadora e como tal necessita de certificações como a “Global Gap” que obriga a uma série de requisitos como o consumo de água. “Tudo é controlado. Inclusivamente a Driscoll’s vem controlar a nossa produção, porque nós utilizamos as etiquetas deles e a responsabilidade é grande”, diz Nuno, “até o interior da nossa carrinha de transporte é vistoriado diariamente, tal e qual as casas de banho. O controlo, hoje em dia é muito apertado. E ainda bem”.

 

Nuno considera que a possibilidade de contaminação dos solos e dos lençóis freáticos por causa da produção de frutos vermelhos em túneis é remota, uma vez que a concentração de produtos químicos é muito reduzida e porque os nutrientes, inseridos na gota a gota, são os estritamente necessários para alimentar a planta e também porque os tratamentos que a Alenbaga faz às plantas, sobretudo após cada poda e através de pulverização dentro dos túneis, são em quantidades mínimas e alguns deles são como o enxofre que não causam problemas. “As pessoas falam muito dos químicos associados à produção em túneis e estufas mas é exatamente o contrário: quanto mais ‘plástico’ menos químicos”, diz, “há por aí muito olival, a céu aberto, onde não se vê um caracol sequer”, remata.

 

Na Alenbaga os tratamentos às plantas são sempre realizados dentro dos parâmetros legais e por ordem dos engenheiros agrónomos da Driscoll’s “e é porque realmente são necessários”. Nos tratamentos feitos em tempo de produção “que raramente são necessários”, os intervalos de segurança antes do consumo da fruta são rigorosamente cumpridos.

 

Relativamente à quantidade de ‘plástico’ usado, Nuno diz que é tudo uma questão estética e que os túneis que estão mais junto da costa são aqueles que causam maior impacto mas “também temos de perceber que aqueles foram os primeiros a serem implantados e que agora há uma maior preocupação por parte das entidades que dão pareceres para a implementação de túneis e de estufas”.

 

Hoje em dia os projetos agrícolas no PRM (Perímetro de Rega do Mira) necessitam de uma série de pareceres como os do PNSACV, da RAN (Reserva Agrícola Nacional), da REN (Reserva Ecológica Nacional), do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) “e até temos de pedir parecer da Câmara Municipal de Odemira, para nos dizerem que não têm de se pronunciar mas é assim”, remata com algum humor e prossegue, “isto não é só chegar aqui e colocar túneis e começar a produzir framboesa”.

 

 

A RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

Para Nuno os pequenos produtores têm poucas possibilidades de grandes colaborações com entidades sociais no entanto a Alenbaga faz regularmente e dentro da medida do possível, donativos em dinheiro à APCO (Associação de Paralisia Cerebral de Odemira) e aos BVO (Bombeiros Voluntários de Odemira), “isso para além dos donativos em espécie, que são raros”.

 

 

NOTA FINAL

 

Há três situações que Nuno destaca relativamente à evolução da produção agrícola no PRM que “foi algo de muito positivo para o país, para a região mas sobretudo para os odemirenses”.

 

“Primeiro, criou postos de trabalho e aumentou o rendimento que algumas pessoas tiravam das suas terras. Quem não aproveitou os seus próprios terrenos para novas explorações ou que não os estavam a explorar, arrendou-os e, o valor de alguns terrenos que costumavam ser arrendados praticamente triplicou e isso faz toda a diferença, sobretudo aos proprietários de maior idade”.

 

Segundo, a grande maioria dos investidores na região vem de fora “e isso contribui para o desenvolvimento económico do concelho, quer pelo investimento feito, quer pelo aumento de quadros técnicos na região, pessoas com maior poder de compra que consomem localmente, e temos também de ter em conta que toda a população emigrante também consome a mercearia local e isso reflete-se nas vendas dos comerciantes”.

 

E terceiro, salienta que praticamente todas as empresas agrícolas a trabalhar na região “têm a sua sede no concelho de Odemira, produzem uma enorme variedade de produtos diferentes, em quantidade considerável e quase tudo para exportação e pagam cá os seus impostos”.

 

“Só tenho pena que a grande maioria das empresas de trabalho temporários não tenham também sede no concelho”, remata.

 

por Pedro Pinto Leite