OPINIÃO PÚBLICA

Anda petróleo na costa

Agora querem explorar petróleo na nossa costa


Por:Fernando Almeida

2017-01-31
Não consigo deixar de pensar nas barragens do Douro e nos estádios do euro

Lembro-me bem de andar pelas terras de Miranda do Douro, entre o planalto e o rio, e ouvir os desabafos dos agricultores: “vieram cá fazer as barragens, levam a eletricidade para vender nas cidades, ganham bom dinheiro para os seus luxos, e nós por cá, nada. Nem eletricidade, nem dinheiro, e ainda por cima depois das barragens veio o nevoeiro, o míldio nas vinhas, menos azeitona nas oliveiras… para eles foi um bom negócio, para nós foi tudo a perder!”

 

Há negócios em Portugal que são assim, e não são tão poucos quanto isso. Vejam-se exemplos como grandes eventos, campeonatos de futebol, exposições mundiais, etc. Diz-se que as receitas geradas por esses eventos compensam o investimento, o que do ponto de vista “macro” até é verdade. Há evidentemente que fazer grandes investimentos para que se possam realizar, e para isso há que ir buscar dinheiro ao orçamento de estado, o que significa na prática que todos somos chamados a pagar. O problema é que se todos somos chamados a pagar os custos, nem todos somos chamados a receber os lucros… lucram as empresas de obras públicas, os hotéis, etc., mas cada um de nós, contribuintes que pagámos o investimento, ficamos como os transmontanos de Miranda com as barragens: para nós só o prejuízo.

 

Agora querem explorar petróleo na nossa costa, e eu, que já por cá ando faz muitos anos, que já vi e ouvi muita coisa no mundo, não consigo deixar de pensar nas barragens do Douro e nos estádios do euro. Acho que eu, e os demais moradores desta costa e deste Alentejo, não vamos retirar desta atividade qualquer proveito, mas vamos por certo ter que sofrer as consequências negativas que ele possa acarretar.

 

Além do mais esta atividade de pesquisa e exploração de hidrocarbonetos pode vir a recorrer à chamada “fraturação hidráulica” (que também é conhecida pelo nome inglês de “fracking”) que tem provocado problemas graves no que se refere à qualidade do ambiente em vários locais do mundo. Mas, evidentemente que os que podem lucrar com esta atividade no nosso território não moram cá, e não se preocupam nada se a água do nosso furo ou poço ficar contaminada… Também perdas nas receitas do turismo e no emprego do setor serão problemas que não afligem os “investidores” dos petróleos, que poderão estar refastelados a gastar os lucros do negócio dos petróleos em qualquer hotel de luxo de um paraíso tropical enquanto os nossos filhos terão que continuar a emigrar pela degradação da economia ou do ambiente. Se houver uma fuga de gás ou de crude, virão talvez lamentar a contaminação do mar e do ar, mas quem vai sofrer com ela seremos nós.

 

Além do mais o tempo do petróleo está a acabar. O petróleo é passado, e o futuro são as energias renováveis. Mais geradores eólicos, mais e melhor aproveitamento do solar, inovar e desenvolver a energia das ondas e das marés, utilizar os resíduos florestais… futuro não é petróleo. Precisamos de olhar para o futuro, de o procurar e atingir, de forma lúcida e audaciosa, não de reeditar modelos gastos e em substituição, que o mundo desenvolvido está a abandonar.

 

É preciso que os cidadãos se mobilizem na defesa dos seus próprios interesses, se unam e desenvolvam ações que mostrem a quem decide que este canto do mundo tem gente que deve ser respeitada como qualquer outra. Sem isso continuarão a olhar para o Alentejo (e para todo o interior do país) como as metrópoles sempre olharam para os territórios coloniais: tirar deles os recursos mais valiosos, sem promover o seu desenvolvimento e sem respeitar os povos que os habitavam.

 

As barragens do Douro, minas de ouro infindável para os acionistas das empresas de eletricidade, recurso roubado aos locais para enriquecer estrangeiros, não me saem da cabeça. A expressão triste dos homens olhando a magra produção de azeitonas da encosta da albufeira, também não. A história repete-se, os cenários e os atores podem ser outros, mas a essência do enredo é a mesma. Os poderes de Lisboa preocupam-se mais em agradar às empresas mesmo que estrangeiras, que aos cidadãos do seu próprio país. Temos que lhes lembrar que também somos portugueses.