MIRADOIRO

Petróleo na costa: o papão e o papinho


Por:António Quaresma

2017-01-31
Se a extracção de petróleo não é a única ameaça ambiental no Litoral Alentejano, ela é a mais imediata e premente

A capacidade humana de provocar transformações ambientais à escala global, especialmente verificada após a Revolução Industrial, gerou uma aguda consciência da necessidade de controlar as acções que conduzem a desequilíbrios potencialmente perigosos para, em última instância, a própria sobrevivência da espécie humana. Um destes desequilíbrios deriva da introdução, na atmosfera, de grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2), gás resultante da queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo), que, sabe-se hoje, está relacionado com as alterações climáticas que começam a ocorrer. Dramáticas mudanças climáticas sempre houve na história da Terra, mas pela primeira vez é o homem que está na sua origem.

 

Naturalmente em sociedades altamente complexas, apoiadas em energias fósseis e com lógicas de crescimento baseadas no consumismo, não é fácil inverter a situação. Ademais os grandes interesses económicos alicerçados em negócios instalados sobre este tipo de economia não veem com bons olhos qualquer mudança de paradigma. Neste quadro, a aptidão tecnológica hoje existente para produção de energia “limpa” não é levada às últimas consequências.

 

A luta de interesses tem levado alguns sectores à negação das alterações climáticas ou, pelo menos, à contestação das causas humanas. Temos visto como um dos países mais consumidores de energia, os Estados Unidos da América, tem passado por fases de suspeita e mesmo de recusa da ideia de alterações climáticas de origem humana e tem rejeitado a tomada de medidas para diminuir as emissões de CO2.

 

Para muita gente o poço de petróleo continua a ser símbolo de riqueza, como no século XV o era em Portugal o saco de pimenta, e, há uns anos, quando se falou na possibilidade de petróleo na costa portuguesa muita gente pensou que era o fim dos problemas financeiros do País. Deu-se o exemplo da Noruega – mas esqueceu-se o da Nigéria um dos grandes produtores mundiais que continua a ter uma população miserável.

 

A contestação à prospecção e à exploração de hidrocarbonetos em Portugal, inclusive com o recurso ao fracking – palavra inglesa para fracturamento hidráulico, cujos riscos têm sido largamente denunciados – surgiu no Algarve e alargou-se ao Litoral Alentejano. Não se trata directamente de uma reacção contra as emissões de gazes com efeitos de estufa, mas de evitar os impactos da extracção, clássica ou com fracking. Como alguém disse, entre uma e outra, a opção é entre o “papão e o papinho”.

 

Com o surgimento, em Sines, do movimento Alentejo Litoral pelo Ambiente (ALA) e a sua difusão por Santo André, Odemira, Milfontes, Porto Covo e Zambujeira, a população tem aderido à impugnação, persuadida dos possíveis prejuízos em termos ambientais e do impacto negativo sobre a economia turística. Nas reuniões públicas realizadas foram dados a conhecer alguns factos chocantes, entre eles, de como o último governo distribuiu apressadamente licenças na véspera de sair e de como os contratos são, mais uma vez, desequilibrados, com todas as vantagens para um dos lados, isto é, para os concessionários. Só por esta razão se vê que a realidade portuguesa é muito diferente da norueguesa. 

 

O poder político, em Odemira, tem tomado posições. A Câmara e a Assembleia Municipal, bem com a Assembleia de Freguesia aprovaram unanimemente posições contra a prospecção e a exploração de hidrocarbonetos. Ao nível partidário, o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda também tomaram posições no mesmo sentido.

 

Se a extracção de petróleo não é a única ameaça ambiental no Litoral Alentejano, ela é a mais imediata e premente. Por isso, a atitude mais acertada é que cada um procure informar-se e se empenhe consequentemente.