DE QUEM É O OLHAR

Barricadas precisam-se

O perigo de se impor um novo tipo de fascismo é um perigo iminente


Por:Monika Dresing

2017-02-28
O politólogo alemão Claus Leg-gewie diz que os partidos “tóxicos”, tais como os partidos populistas, podem levar à situação de que um país se torne ingovernável

Neste momento, metade das populações ocidentais (e não apenas delas) olha estupefacta para a outra metade que se deixa seduzir pelas “soluções” supostamente fáceis oferecidas pelos novos líderes radicais. Apareceu um populismo que vai do centro político das sociedades até à extrema-direita onde os discursos dos agitadores já são apelos abertos à violência. Nos Estados Unidos e em muitos países europeus podemos observar que não são os factos reais que grande parte da população toma em consideração, mas sim os “factos alternativos”, até oficialmente chamados assim, bem como os factos sentidos, as emoções.

 

Na vida real, não existe um exemplo histórico ocidental em que um povo viveu tão livre, tão pacífico e com tantas garantias básicas como na democracia, mas o que se ouve é que “o povo” já está farto do jogo democrático, que quer um líder, um sistema autoritário.

 

Na vida real, não há um único estado europeu em que pioraram as condições de vida depois da entrada na UE. Os desenvolvimentos em cada país foram enormes (embora houvesse também bastantes aspectos negativos, um tema para outra altura), mas o que se ouve é que é necessário acabar com o projecto europeu.

 

Na vida real, todos os progressos das civilizações baseiam-se, há milhares de anos, no intercâmbio de mercadorias, de sabedoria e de cultura, mas o que se ouve é que apenas fronteiras fechadas, a xenofobia e o nacionalismo podem levar a um grande futuro.

 

Qual a razão destas percepções distorcidas? Uma das razões parece-me ser a complexidade do nosso mundo em permanente e rápida transformação. É difícil senão impossível compreender o que se está a passar. O passado é visto como uma época em que a vida era mais clara, enquanto o presente provoca sentimentos de impotência. As soluções oferecidas pelos governantes muitas vezes não funcionam, eles ficam desacreditados, são vistos como (ou são) gatunos que querem roubar aos cidadãos.

 

Já no princípio do século passado, altura em que muitas das monarquias foram substituídas por repúblicas ou outras formas democráticas, altura em que as populações tiveram que aprender a lidar com a democracia, o que levou a muita confusão e grandes incertezas, já naquela altura surgiu também a saudade dos tempos passados, dum líder forte que tomasse conta da vida. Nasceu então o fascismo com as suas consequências horríveis.

 

Acho que o perigo de se impor um novo tipo de fascismo é um perigo iminente. O politólogo alemão Claus Leggewie diz que os partidos “tóxicos”, tais como os partidos populistas, podem levar à situação de que um país se torne ingovernável. Para ele a situação actual é o ataque mais sério à democracia desde Hitler e Estaline. Afirma ainda que uma democracia nunca morre por causa daqueles que a desafiam autoritariamente mas por causa da passividade dos democratas que dizem: -Eu não posso fazer nada. - Vai correr tudo bem. Para Leg-gewie é urgente organizarem-se movimentos que se oponham ao populismo.

 

Já nasceram várias iniciativas deste tipo, desde movimentos pró-europeus, p.ex. “Pulse of Europe”, até a plataforma satírica “everysecondcounts.eu” onde se ridiculariza o trumpismo. Já aumentou o número de pessoas que aderem aos partidos políticos tradicionais com a intenção de fornecer esclarecimentos e organizar oposição contra o populismo ao nível local. Fazem ouvir-se cada vez mais vozes contra a irracionalidade. Cada movimento cívico concreto, tal como a nossa luta contra a prospecção dos hidrocarbonetos, pode ser a semente dum movimento mais abrangente, um movimento a favor do esclarecimento geral, a favor da democracia. Lutemos pela renascença da racionalidade, erguendo barricadas contra o populismo!