EXPERIMENTAÇÃO

CULTIVAMOS CULTURA

O mundo da experimentação em S. Luis

2017-02-28
Luis Graça e Marta de Menezes, o casal que se atreveu a experimentar /br>

Num concelho essencialmente agrícola e turístico, onde estas atividades crescem diariamente, principalmente no litoral, o MERCÚRIO foi encontrar, em S. Luís, uma associação que cultiva cultura, que promove o desenvolvimento de projetos experimentais em artes visuais

 

 

COMO SURGE

 

A Cultivamos Cultura nasceu, formalmente, em 2009, para promover a experimentação em artes visuais. “Começou por razões muito pessoais: pela minha formação, pela minha experiência dos meus seis anos vividos em Inglaterra e pela minha primeira exposição como artista plástica”, explica Marta.

 

Os primeiros trabalhos de Marta foram expostos na Ars Eletrónica (um dos festivais, e prémios, anuais mais importantes no campo da arte interativa e eletrónica, da música e da animação e cultura digitais). De facto, este não é um lugar ‘qualquer’. Marta, de vez em quando, ainda acorda a pensar: “Wow, eu tinha uns 23 anos, acabadinha de sair da universidade e a minha primeira experiência como artista plástica foi num evento de experimentação artística com impacto mundial e extremamente condensado no tempo, com televisões do mundo inteiro, desde a Coreia do Sul até à Argentina a entrevistar-me”.

 

A partir daquele momento Marta não parou de conhecer pessoas com trabalho ‘semelhante’ ao seu, interessadas na área da experimentação artística e por isso a sua carreira é principalmente internacional.

 

Antes de sair de Portugal Marta queria ser professora mas a sua vida tinha mudado ‘lá fora’ e isso já não era possível “porque, volta e meia, dizem-me com um mês de antecedência que tenho de montar uma exposição na China e que tenho de lá estar durante três ou quatro semanas”.

 

Marta é casada (com Luís) e mãe de dois filhos. Percebe-se que as deslocações frequentes ao estrangeiro não são um grande problema para si, mas a ideia de, em vez de se deslocar tanto, atrair os seus pares e dar-lhes a oportunidade de ter um lugar de experimentação “e mostrar-lhes o que é S. Luís em termos locais” ganhou forma.

 

A casa dos avós de Luís, em S. Luís, concelho de Odemira, era grande e estava vazia há já dez anos e ali se fez a Cultivamos Cultura, “um espaço de residência artística de uma maneira mais clássica, no início, em que o artista é convidado a trabalhar um tema em particular ou uma questão predeterminada”, explica Marta. “E nós começámos logo ‘em grande’ com Ken Rinaldo e Amy Youngs que responderam imediatamente que sim ao meu convite”, lembra.

 

Para Luís a Cultivamos Cultura é um reflexo dos interesses de Marta e sobretudo da rede nacional e internacional de contacto com pessoas que fazem experimentação em arte e desenvolvimento de novas expressões em arte. A ideia foi criar uma infraestrutura que pudesse facilitar esse tipo de atividades e está a ser um processo “muito divertido”. Começou devagar mas em 2012 a Cultivamos Cultura recebe um convite para comissariar e produzir uma exposição para ‘Guimarães 2012’ e “a meio, quando estávamos lá em cima, realizámos que não fazia sentido, nós, uma associação de Odemira, nunca termos feito nada de relevante no concelho e estarmos em Guimarães a fazer a nossa atividade principal de sempre”.

 

Marta e Luís conversaram com o vereador do pelouro da cultura de então, Helder Guerreiro, explicaram que tinham algumas das principais peças da área de “new media” - algumas que tinham sido expostas na bienal de Veneza, muitas que se encontram em livros sobre tecnologia e arte, e tínhamos que arranjar maneira de as trazer de Guimarães para as apresentar à população de Odemira.

 

E assim foi montada a primeira a exposição da Cultivamos Cultura na biblioteca municipal de Odemira. Onde um dos critérios do comissariado foi selecionar “aquilo que coubesse na carrinha ‘caixa aberta’ que alugámos”, conta Luís.

 

A Cultivamos Cultura financia-se através do PAACR (Programa de Apoio às Atividades Culturais e Recreativas) e, por vezes, através de apoios da Direção Geral das Artes (Ministério da Cultura).

 

As pessoas que frequentam a Escola de Verão, pagam para isso. No entanto os artistas das Residências Artísticas são convidados. Apenas têm de pagar a sua deslocação, sendo a estadia e a alimentação por conta da Cultivamos Cultura.

 

“Nós tentamos ter uma estrutura que seja ligeira para podermos tomar rapidamente decisões sobre as atividades que temos em função dos meios que possamos ter e todas as atividades fora do concelho têm de ser autofinanciadas. Se alguém nos convida para fazer uma exposição na Bélgica ou uma escola de verão na Croácia, como já aconteceu, têm de cobrir os custos todos.

 

Também o Naturarte (turismo rural da família de Luís) foi essencial no arranque da Cultivamos Cultura dando o apoio inicial até estar tudo em funcionamento, explica Luís.

 

 

O LUGAR

 

A casa parece pequena mas é bastante grande. Tem lugar para umas vinte pessoas ao mesmo tempo.

 

Aos poucos tem vindo a ser renovada mas só o essencial para criar melhores condições. “O facto de termos renovado o telhado o ano passado fez com que este ano possamos começar a ter residências mais cedo”.

 

S. Luís sempre atraiu as pessoas. “Eu acho que é um local absolutamente único. Ninguém efetivamente sabe o que é que S. Luís tem que é tão atrativo para pessoas criativas, mas cada vez há mais criadores... e uns atraem outros...”, repara Marta.

 

Na cultura contemporânea existem muitas ofertas em grandes cidades com uma produção cultural importante. Para Luís, “o contraste com S. Luís oferece um contexto único: isto aqui funciona quase como um retiro, o que acaba por ser um pouco paradoxal porque entra-se num sítio onde existe um grande sossego mas as pessoas estão vinte e quatro horas por dia em contacto umas com as outras e tudo é muito intenso. O que é engraçado e enganador porque o ritmo é lento, isto é, há tempo para se fazerem as coisas e há tempo para se beber um café e para conversar”.

 

Marta acrescenta que “os cheiros, a temperatura, o vento, tudo é estimulado e na cidade parece que tu desligas esses sensores e aqui não, aqui tens espaço para os manter a funcionar e é também por isso que as pessoas vêm”.

 

 

COMO FUNCIONA

 

A certa altura, Marta percebeu que acabaria por ser mais “divertido e mais proveitoso” os artistas, sobretudo já com a “Escola de Verão” em funcionamento (ver tema mais à frente), trazerem consigo o tema que estão a trabalhar no momento. “Os artistas estão sempre a trabalhar e têm interesses específicos. Eles não precisam de saber muita coisa sobre o local, os seus interesses já existem e eu não lhes vou impingir outros porque acho que isso é criar ruído e remar contra a corrente. Peço-lhes que tragam os seus interesses, o seu know-how, os projetos em que estejam a pensar e quando chegarem cá logo se vê como é que reagem ao lugar”. “Invariavelmente as pessoas reagem ao local porque esta zona tem um impacto que não se consegue evitar, o cheiro, o solo, a temperatura, as pessoas, a história, tudo se sente”. E, segundo Marta, isso reflete-se nas peças, “vê-se mesmo que aquilo foi pensado aqui, que tem os ingredientes daqui, nem que seja só a água de cá” dando por isso coerência às exposições que não têm comum um tema mas o lugar onde as peças foram feitas. “E as peças são todas espetaculares e vê-se que há uma linha de ligação entre elas muito forte aqui a S. Luís, aqui ao Alentejo, a Portugal”.

 

Um dos aspetos mais importante da Cultivamos Cultura é tentar fazer com que o esforço individual habitual passe por se tornar num esforço colaborativo, “apesar de em artes visuais haver alguma tradição nisso, não existe uma colaboração enorme entre artistas, existe até um grande conflito entre produção individual e aquilo que é a influência de outros nessa produção”, comenta Luís.

 

 

O ENVOLVIMENTO COM A COMUNIDADE LOCAL

 

A Cultivamos Cultura procura que haja sempre uma ligação com a comunidade local.

 

Tem havido uma ligação próxima com o Centro de dia de S. Luís, onde a Cultivamos Cultura desenvolve algumas atividades, e com a biblioteca municipal onde são realizadas exposições regulares. “Tem sido por aí a nossa penetração na comunidade mais nova, Odemira tem uma quantidade enorme de estudantes do secundário que frequentam a biblioteca e este tipo de obras de arte é muito apelativo para essa população, além disso a área das artes da secundária tem levado visitas a estas exposições”, sublinha Luís.

 

Para cada exposição a Cultivamos Cultura elabora o “guia do professor”, um conjunto de atividades propostas com base nas peças expostas para fazer, depois da visita, na sala de aula.

 

Há alguma dificuldade de ligação direta com as escolas uma vez que o período mais ativo com das residências é no verão mas “ainda havemos de concretizar um projeto que temos, muito ambicioso e inovador, que envolve as escolas secundárias do concelho e que ficou adiado por falta de financiamento”, diz Luís.

 

Existem ainda as exposições em S. Luís. “Sendo o espaço da Cultivamos Cultura o espaço onde habitualmente se faziam as sessões de cinema itinerante, uma das estratégias para levar público às exposições é fazermos projeções às quintas-feiras à noite e as pessoas agora vêm já a contar com a visita à exposição e acabam por ficar por ali até quase à meia-noite para participarem nas nossas conversas”.

 

Como é frequente existirem artistas residentes no espaço, as pessoas acabam por ter uma interação direta com alguns dos artistas que têm as suas obras expostas para além de terem a oportunidade de ver obras que estão no processo de realização.

 

Luís conta que o envolvimento da Cultivamos Cultura nas ‘Montras de S. Luís’ (evento cultural anual que contou já com duas edições) tem levado “uma ‘barbaridade’ de gente ao nosso local onde começámos a organizar performances de dança especificamente para esse evento”.

 

 

AS RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS

 

A Cultivamos Cultura começou pouco a pouco com experiências feitas por Marta ao longo dos anos e foi evoluindo seguindo aquilo que correu bem e melhorando assim o foco da sua atividade.

 

Para Luís as residências artísticas “é algo que corre verdadeiramente bem e ao trazermos artistas, portugueses e estrangeiros, em diferentes etapas da sua carreira, que trabalham com materiais diferentes, com técnicas diferentes, com formas de fazer arte diferentes, acaba-se por gerar um espírito de entreajuda e de partilha que tem muito a ver com o facto de estarem na mesma casa e de viverem uma vida comunitária e próxima, o que faz com que artistas conceituados, com carreiras internacionais extensas, peçam para voltar ano após ano”.

 

São artistas de várias áreas dentro das artes plásticas mas também da performance e sobretudo da dança. “E começa a haver uma certa dificuldade em definir a fronteira entre performance, em termos de artes visuais, e dança porque incluem muita projeção de luz, de vídeo e som, sendo tudo algo mais completo”.

 

Marta esclarece que “a tecnologia sempre interessou a estas áreas mas cada vez mais interessa-lhes ter um espaço com boas condições para treinar ou para desenvolver uma peça, sem problemas, longe da cidade, e durante algum tempo”.

 

 

A ESCOLA DE VERÃO

 

A Escola de Verão junta profissionais das artes de diferentes graus de experiência. Uns a acabar a sua formação artística, outros já acabaram a sua formação mas pretendem ter outras experiências e outros são já artistas estabelecidos mas querem simplesmente participar. “No fundo acaba por ser um workshop que dura uma semana com a colaboração de especialistas conceituados, também nacionais e estrangeiros”, informa Luís.

 

Trata-se de uma semana, com horário formal, de exposição a diferentes formas de fazer as coisas, com palestras e demonstrações práticas em diferentes áreas. No final, cada participante poderá ficar até mais três semanas para fazer o seu trabalho com apoio e interação das outras pessoas que ali estão “e isso tem sido um sucesso extraordinário ao ponto de termos cá pessoas de toda a Europa, da China, dos Estados Unidos, do Canadá, de todo o mundo”, afirma.

 

Marta entende que a culinária é algo que aproxima as pessoas e todos os participantes da Escola de Verão têm de ir para a cozinha cozinhar com ela. “Há pessoas que nunca cozinharam na vida e que saem de cá apaixonadas pelo ato de cozinhar”. Os almoços são mais leves mas os jantares são mais elaborados e confecionados por Marta com a colaboração de alguns dos residentes. “Eu só faço coisas daqui: sopa de tomate, lombo de porco com castanhas ou batata-doce, feijoada que é um pouco pesada mas é daqui...”.

 

O sucesso do formato desta Escola de Verão tem levado ao convite da Cultivamos Cultura a organizar este modelo de cursos noutros locais, por exemplo na Croácia e em Corfu (ilha grega no Mar Jónico), “apesar da Cultivamos Cultura não ter nada de académico nem a Marta ter qualquer ligação a nenhuma universidade, muitas universidades, que têm interesses nas artes plásticas, acham que isto permite ter uma formação muito diferente da habitual, ao ponto de termos tido nos últimos anos estudantes de Erasmus a estagiar, passando por todos os processos da escola e da montagem de exposições, etc.”

 

 

A EXPERIMENTAÇÃO EM ARTES VISUAIS

 

Neste momento há várias linhas em termos de arte experimental e experimentação em artes visuais e artes plásticas. “E uma linha muito importante tem a ver com a exploração de tecnologias e de meios de comunicação em arte. Ou seja, explorar maneiras de representar conceitos visuais que não eram possíveis com os meios mais tradicionais, como pincéis e tintas”, explica Luís.

 

Um bom exemplo desses novos meios, que já não é assim tão novo, é o vídeo. Mais recentemente toda a parte das tecnologias de informação permitiu trazer para as artes visuais uma interatividade que não era possível com os meios tradicionais. “E outro desenvolvimento em termos de experimentação em arte ligado à tecnologia, é a utilização de matéria viva, ou matéria biológica, como é o caso das obras da Marta”, diz Luís.

 

A carreira de Marta tem sido realizada sobretudo no estrangeiro e para Luís “não há, neste momento, nenhuma antologia que seja escrita sobre arte e biologia que não referencie o trabalho da Marta, porque a Marta é um dos quatro ou cinco fundadores do campo de arte e biologia. Assim, todas as exposições antológicas, feitas na Coreia, nos Estados Unidos ou onde for, têm sempre uma peça da Marta”.

 

Na Cultivamos Cultura a experimentação tem um objetivo claro: “desenvolver arte experimental no sentido em que não é experimentação como o fim em si mesmo em que o artista faz experiências e fica contente com as experiências mas essa experimentação deve conduzir a uma solução, que nem sempre resulta, é sempre um risco mas isso faz parte da experimentação”.

 

 

EXPOSIÇÕES E OUTRAS ATIVIDADES FORA DE ODEMIRA

 

A vice presidente da Cultivamos Cultura, Maria Manuela Lopes, é uma artista muito ativa que se mudou recentemente para o Porto e por isso tem também contribuído na circulação nacional de exposições com obras criadas em Odemira.

 

Para Luís “fazer uma exposição artística com obras que utilizam meios de comunicação e tecnologia, não é trivial. Ao contrário de uma exposição tradicional, onde se penduram uns quadros ou se colocam esculturas aqui e ali, estas exposições têm uma grande componente tecnológica e as coisas podem correr mal”.

 

Por exemplo, esteve em Odemira uma peça de António Caramelo que é uma projeção da imagem de um céu, que vem de um tablet. Nesse céu vão aparecendo nuvens que são criadas pela ação mecânica de gotas de água a bater no tablet. “Estas obras exigem uma grande complexidade na montagem”.

 

Marta acrescenta “um vídeo ou uma pintura não tem que ter mais do que uma legenda porque o resto é a parte interpretativa daquilo que cada um está a ver, agora o exemplo do tablet não se consegue expor sem que haja uma explicação ao público a dizer o que é que está a acontecer”.

 

Um bom exemplo é o de uma outra peça de António Caramelo que é uma coleção de caixas com borboletas. Cada caixa tem um altifalante na tampa e as borboletas reagem ao ruído. “Parecem borboletas reais, as pessoas não se podem aproximar demasiado por questões de segurança e por isso não se apercebem que as borboletas são mecânicas”, explica Marta, “há microfones no ambiente as borboletas sobressaltam-se e esvoaçam dentro da caixa por exemplo ao bater de palmas de alguém”.

 

É por estarem habituados e saberem como fazer este tipo de coisas e terem capacidade de montar obras tão complexas que a Cultivamos Cultura é muito solicitada a fazer exposições também no estrangeiro como na Croácia ou, no caso do último ano, na Bienal de Londres.

 

“Agora estamos numa rede europeia que é coordenada por conservadores museológicos que tentam estudar em conjunto os desafios que as tecnologias em artes visuais colocam em termos de exposição, transporte, conservação, enfim todas as questões museológicas para este tipo de obras”, conta Luís, “por exemplo como deve um museu manter uma obra que tem plantas?”.

 

Luís e Marta fazem questão de referir a importância de Cláudia Figueiredo na equipa. “Uma pessoa absolutamente extraordinária, uma profissional com imensa experiência que trata da produção e da logística, lida com a alfandega, os transportes, os seguros e todas essas coisas. É a Cláudia que garante que todos os componentes das obras chegam a uma cidade estrangeira a tempo da montagem”.

 

por Pedro Pinto Leite