MÚSICA

Odemira recebe festival de música sacra

Invocação Mariana vai ecoar na igreja de São Salvador

2017-02-28
A 13.ª edição do Festival Terras Sem Sombra convida a uma visita guiada à Igreja da Misericórdia, dia 4 de Março, antes do concerto pelo grupo Polyphonos, de Lisboa e a um passeio pelo rio Mira no dia seguinte

A igreja de São Salvador, em Odemira, recebe, dia 4 de Março, pelas 21h30, o grupo vocal e instrumental lisboeta Polyphonos que vai oferecer um concerto de música portuguesa de invocação mariana dos séculos XVI, XVII e XVIII. Trata-se do segundo de oito concertos do Festival Terras sem Sombra que alia música sacra internacional ao património local do Baixo Alentejo.

 

O ensemble Polyphonos (termo grego que designa a coexistência de muitos sons ou vozes) criado pela soprano Raquel Alão, com direcção artística do barítono e musicólogo José Bruto da Costa e ainda a participação de Carolina Figueiredo (mezzosoprano), Marco Alves dos Santos (tenor) e Tiago Mota (baixo), trazem a Odemira um repertório com autores da craveira de Estêvão de Brito (natural de Serpa), Duarte Lobo, D. Pedro da Esperança, Diogo Dias Melgá (natural de Cuba), João Rodrigues Esteves e Francisco António de Almeida.

 

Nesta edição do festival, antes de cada concerto, haverá um momento dedicado ao património local. Em Odemira, esse momento está previsto para as 14h30 com uma visita guiada à Igreja da Misericórdia.

 

Uma das peculiaridades que tornam o Terras Sem Sombra único entre os festivais internacionais de música sacra, para além do facto de trazerem a luz erudita às vilas e cidades longe das capitais onde tais concertos escasseiam - as entradas são livres - é convidarem o público e artistas para uma visita ligada à biodiversidade local. 

 

E, em pleno litoral alentejano, biodiversidade é fácil de encontrar, mas nem sempre fácil de preservar. Na edição do ano passado, o festival foi visitar os charcos temporários perto de Almograve. Este ano o protagonista é o rio Mira: a organização tenciona levar os interessados numa visita guiada pelos meandros do grande rio do Sudoeste. Ao longo de um percurso de barco, dia 5 de Março, serão reconhecidos os habitats mais relevantes deste rio, incluindo as pradarias marinhas e comunidade de lontras, e analisadas as suas principais ameaças.

 

A organização - Associação Pedra Angular, em estreita ligação com o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja - considera que os locais dos espectáculos representam “uma magnífica oportunidade para conhecer parte do património edificado mais representativo do Baixo Alentejo.” As acções de biodiversidade, por sua vez, acontecem aos domingos de manhã em diferentes espaços naturais.

 

“Nesta edição do Terras sem Sombra estabelecemos uma série de olhares de cumplicidade com Espanha”, explica Juan Ángel Vela del Campo, director artístico do festival desde 2015, lembrando que o Brasil foi o país convidado o ano passado. “Agora, trata-se de Espanha, por considerações geográficas e culturais, além de afectivas”, justifica. “Na realidade, trata-se de estabelecer um diálogo, chamemos-lhe ibérico”, precisa aludindo ao “lirismo comum” do par formado pela meio-soprano estremenha Elena Gragera e o pianista catalão Antón Cardó, que encherão de textos e músicas familiares o seu recital hispano-português em Ferreira do Alentejo. A originalidade das associações entre Gil Vicente, Camões, Ernesto Halffter ou Joaquín Nin-Culmell, sugerem que este será um dos pontos altos do festival.

 

A proximidade ibérica esteve, de resto, em destaque no primeiro concerto, em Almodôvar, num concerto onde se fundiram o barroco e o flamenco. Este último estará em destaque em Serpa, onde casará com textos de José Saramago.

 

A aposta noutras geografias mantém-se: Santiago do Cacém é presenteada com quarteto de cordas de Nova Iorque e Castro Verde receberá a Academia Franz Liszt, de Budapeste. 

 

Mais informações sobre o festival em www.festivalterrassemsombra.pt

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)