NA PRIMEIRA PESSOA

Património municipal

Comprar para cumprir funções ou só comprar?


Por:Manuel Cruz

2017-02-28
Olhando para alguns dos investimentos realizados pelo Município, fico perplexo e com dúvidas se algumas compras tiveram como fim o interesse dos Odemirenses ou se de facto foram outros interesses

Decorria o mandato autárquico referente ao quadriénio 1989/1993 e na ordem de trabalhos o Presidente da Câmara Municipal, Justino Santos, apresentava a proposta da aquisição para o Município de Odemira de um terreno.

 

Tratava-se da aquisição de mais um espaço destinado à expansão dos loteamentos municipais.

 

O desejo, do Presidente Justino Santos, era o de que todos os Odemirenses, independentemente da sua condição social ou económica, pudessem ter a sua própria habitação. Ele soube, como poucos, interpretar o sentimento e o desejo dos Odemirenses de que o ter casa própria estava acima de qualquer outra aspiração patrimonial, muito antes de outras ambições como, por exemplo, possuir carro ou viajar. Ele sentia que a primeira prioridade, era que todos tinham o direito de ter uma habitação digna, onde pudessem usufruir das condições básicas de vida, com abastecimento de água, recolha dos resíduos e saneamento, electricidade, conforto face às condições climáticas e a segurança das suas famílias.

 

Nesses tempos, com financiamentos mínimos do poder central, porque ainda não havia sido aprovada a lei de finanças locais, ele sabia que não teria possibilidade de levar a toda a população que vivia dispersa em montes e pequenos lugares espalhados pelo concelho todos esses benefícios e direitos básicos, logo uma solução seria concentrar os habitantes do Concelho.

 

Para a sua aquisição era necessário que a Câmara Municipal contraísse um empréstimo. O executivo estava dividido. Alguns vereadores estavam receosos de contrair dívida, e também nem todos tinham ainda apreendido que o investimento na habitação seria de facto prioritário, alegadamente até por não constar das competências dos municípios essa obrigação.

 

Apesar de ser o Vereador mais jovem, orgulho-me de ter podido estar ao lado do Presidente, sem receios, nessa proposta de decisão e o grato prazer do conjunto da vereação ter aprovado nessa sessão esse investimento. Depois desse momento, muitas outras vezes dei o meu apoio ao investimento e engrandecimento patrimonial do concelho.

 

Orgulho-me de ter sido possível ajudar a que o objectivo de ter casa própria fosse ao longo de muitos anos, por muitos Odemirenses, sendo concretizado.

 

Os Odemirenses meteram, de facto, mãos e ombros à obra e recorrendo a financiamentos de familiares ou entidades bancárias, para a aquisição dos materiais e reunindo a ajuda de trabalho voluntário de familiares e amigos conseguiram realizar esse seu objectivo.

 

Percorrendo o concelho víamos loteamentos municipais em todas as freguesias, uns construídos de raiz outros em processo de recuperação e legalização de loteamentos espontâneos.

 

Hoje, milhares de Odemirenses vivem nessas habitações, entre os quais tenho o gosto de me incluir, sabendo portanto a ajuda que o município teve nessa concretização.

 

Pode ser comprovado quão importante, oportuno e útil foram esses investimentos feitos pelo poder local democrático no concelho de Odemira.

 

Outros tempos vieram, outros investimentos foram sendo feitos, outras aquisições de património imobiliário se foram efectivando e o património Municipal do Concelho, crescendo.

 

Quase sempre me aliei na afirmação das suas aquisições. As poucas vezes que me opus com o meu voto, foram aquelas que indiciavam investimentos com destinos que me pareceram inadequados e/ou inoportunos ou por valores pouco razoáveis.

 

Olhando para alguns dos investimentos realizados pelo Município, fico perplexo e com dúvidas se algumas compras tiveram como fim o interesse dos Odemirenses ou se de facto foram outros interesses, o dos vendedores, que prioritariamente levaram a que a Câmara os comprasse.

 

Ora vejamos:

 

Será que basta comprar?

 

Terá o executivo Municipal, do Partido Socialista, em permanência, no seu dia-a-dia, gosto em ir às janelas dos seus gabinetes e verem a tristeza que esses imóveis revelam por não poderem ser úteis à comunidade?

 

Terão um coração assim tão frio para não sentirem essa agonia?

 

Não deviam sentir, também, a tristeza que os edifícios sentem pelo seu abandono?

 

Quantos anos decorreram desde que foram comprados esses edifícios junto à Câmara Municipal?

 

Para que servem, além da imagem negativa que dão ao Centro Histórico da Vila?

 

Está cumprido o motivo alegado na apreciação e aprovação da sua compra?

 

Estes são de facto investimentos questionáveis.

 

As obras não são feitas porque, certamente pensam, o melhor é ter o dinheiro no banco.

 

De facto os políticos não são todos iguais e a visão do destino a dar aos recursos do Município, que são recursos pertença de todos os Odemirenses, também não é igual.

 

As prioridades de aplicação dos meios colectivos são, de facto, muitas vezes muito diferentes.

 

Obrigado camarada Dr. Justino Santos pela visão e amor pelos Odemirenses.