OPINIÃO PÚBLICA

A avaliação e a escola

A avaliação realmente rigorosa não passa por números


Por:Fernando Almeida

JJ Thompson
2017-02-28
A verdadeira avaliação é a qualitativa

Há poucas coisas mais difíceis de mudar que aquelas “verdades” aceites por todos como indiscutíveis e irrevogáveis, que com o passar do tempo se transformam quase em mitos tão sólidos que passa a ser tabu questioná-los.

 

Entre as muitas “verdades” que temos por sagradas, estão algumas na educação. Achamos por exemplo que sem exames a educação seria caótica, algo de inconsistente, de baixa produtividade, mais diversão que trabalho sério. Por isso com os resultados dos exames nacionais são constituídos “rankings” que servem de referência e são usados mesmo para graduar as escolas.

 

Também se toma como verdadeira a ideia que a avaliação quantificada é necessária e rigorosa. Ninguém o discute, e parece mesmo que é tomada como “verdade” tão sagrada, que ninguém está disposto a discuti-la. Parece que sem aqueles numerozinhos na pauta (ou seja lá onde for) a educação não poderá ser de qualidade e séria.

 

Alguns, na verdadeira obsessão da quantificação, levam a extremos quase impensáveis o jogo dos números. Conheci em tempos um professor que classificava os testes dos alunos até à milésima. Aquilo é que era rigor, pensarão alguns! Mas para mim esse rigor é semelhante a estar a medir o comprimento de uma mesa com uma fita métrica de pedreiro e apresentar os resultados com um rigor à milésima de milímetro…. No entanto muitos julgarão que a avaliação assim apresentada numa escala numérica é mais rigorosa e reflete um melhor conhecimento dos alunos. Como se engana quem não sabe!

 

Aqui há algumas semanas esteve entre nós um finlandês que veio conhecer a realidade das nossas escolas. Quando se preparava para partir foi entrevistado, e mesmo sem querer criticar a nossa realidade, sempre deixou escapar que no seu país não há avaliação quantitativa até ao sétimo ano de escolaridade… Pensarão de novo alguns: sem classificação, deve ser uma “balda” nas escolas! Mas não é, e todos sabemos disso. Pelo contrário, a Finlândia é um bom exemplo da qualidade da educação e dos bons resultados que ela permite obter.

 

Vamos então desmanchar essa ideia que diz que a educação sem avaliação quantitativa não é séria. Eu sou professor. Quando me pedem para avaliar os alunos de forma quantificada sei como o fazer de forma fácil e rápida. Um teste (ou um exame), resolvido em pouco mais de uma hora, permite atribuir uma classificação. Se num período de três meses o aluno realizar dois testes será possível classifica-lo com um numerozinho na pauta. Qualquer um o fará sem grande dificuldade, e provavelmente essa classificação será aceite por todos (desde o próprio aluno, aos seus pais, aos colegas…) como algo de rigoroso e quase indiscutível. O mesmo acontece com os exames nacionais. Em menos de duas horas o aluno realiza uma prova que lhe ditará uma classificação que por sua vez lhe decidirá o futuro. E, pergunto eu, e os anos que ele conviveu com o professor, as centenas de horas em que realmente se revelou conforme é, são menos fiáveis e seguras que aquele numerozinho que saiu do exame de duas horas?

 

Para mim, a avaliação realmente rigorosa não passa por números. Um número na verdade quase não diz nada sobre o aluno, nem sequer sobre os seus conhecimentos em determinada matéria. A verdadeira avaliação é a qualitativa, mas isso requer um conhecimento profundo do aluno, e não apenas uma média aritmética de algumas provas escritas. Será verdadeira avaliação se o professor for capaz de conhecer as características do jovem que tem a seu cargo. Pode escrever mal, mas ser brilhante a apresentar oralmente um trabalho; pode ser ágil de raciocínio, mas pouco trabalhador; pode ser dotado para as artes, mas sem vocação para a atividade física; pode ser um verdadeiro criativo, mas falhar redondamente na ortografia do português; pode ser brilhante em línguas mas… E só esse conhecimento das falhas e das potencialidades ajuda a melhorar.

 

O professor que avalia quantitativamente não tem que saber nada de realmente importante sobre o jovem que está a avaliar. Só aparentemente existe rigor na avaliação quantitativa. É a produção industrial em série aplicada à educação. Quantos professores chegam ao fim do ano, depois de ter classificado os alunos várias vezes, e mal lhes conhecem os nomes… Peçam a esses professores uma avaliação qualitativa séria e por certo terão pouco mais que as frases estereotipadas que se repetem nas fichas de avaliação entregues aos pais.

 

Mas se insistirem para que realmente se faça uma apreciação qualitativa dos alunos que os ajude a superar as suas dificuldades, os professores terão que admitir que só com turmas mais pequenas isso é realmente possível.