MIRADOIRO

Fotografia

Desde as famosas selfies às panorâmicas


Por:António Quaresma

2017-02-28
Captar imagens tornou-se perfeitamente banal

As possibilidades técnicas permitem, hoje em dia, que cada um de nós transporte regularmente um aparelho que, além de chamadas telefónicas e de outras funções, possibilita fotografar e fazer vídeos. Captar imagens, desde as famosas selfies às panorâmicas, tornou-se perfeitamente banal e criou uma cultura própria da relação de cada um com o momento e com o espaço envolvente. Claro que os mais exigentes utilizam equipamento dedicado, mas certos modelos de smartphones competem em qualidade com ele nas utilizações mais correntes. Ao mesmo tempo, a revolução do digital embarateceu extraordinariamente a obtenção de imagens.

 

O Facebook é o espaço virtual onde grande parte das fotos é apresentada. Evidentemente não é tudo a mesma coisa. Estou a recordar-me de alguns dos meus “amigos do facebook”, que utilizam material fotográfico apropriado, e não telemóveis. As excelentes fotografias de aves, de José Manuel Góis, resultantes de importante trabalho de registo das espécies na nossa região, ou as “reportagens” de Margret Mendes são bons exemplos disso.

 

Há dias, organizando o meu arquivo de fotografias a preto e branco, já com algumas dezenas de anos, para um trabalho histórico, detive-me a apreciá-las. A maioria é trabalho de amadores, que recolhiam imagens de paisagens e de acontecimentos triviais, por vezes familiares, sem preocupação de lhe inculcar dimensão poética. No entanto, por detrás das câmaras que as registaram estavam pessoas que escolheram o assunto, seleccionaram o ângulo, enfim trabalharam a imagem, dizendo, também de si, algumas coisas. Outras dessas fotos são, porém, trabalho de profissionais, ao serviço da imprensa.

 

A foto n.º 1, cuja autoria não foi possível apurar, pertence ao arquivo do Diário do Alentejo, que a cedeu a Constantino Piçarra, meu colega historiador. Foi colhida em meados da década de 1970 e representa uma situação, no monte do Pereiro Grande (Relíquias). Uma jovem mulher, alta, de cabelo atado atrás da cabeça, os braços caídos ao longo corpo, olha para a objectiva. Por detrás, a imagem do monte e uma cena campestre em que o homem dá de beber ao bezerro. A mulher parece ser o tema central, mas o contexto é fundamental. O autor da foto sabia, certamente, que estava a fotografar Maria da Glória Silva Guerreiro, então animadora da “comissão de moradores” local.

 

A foto n.º 2 tem a mesma origem. Representa o Mercado de Milfontes, igualmente na década de 1970, bem diferente do de agora. Na altura Milfontes iniciava decisivamente o novo ciclo turístico, mas a rusticidade dos equipamentos sugere um meio pouco sofisticado, até pobre. Vislumbram-se ainda algumas tendas, certamente do mercado mensal. A foto é, quando muito, documental, aparentemente tirada para ilustrar um trabalho jornalístico sobre Milfontes. No conteúdo humano, a vendedora e a freguesa prestam atenção à criança e, ao fundo, à esquerda, dois homens sentados à mesa da esplanada do bar, talvez jogando dominó.

 

 

Algumas destas antigas imagens, hoje relativamente raros documentos de tempos passados e de lugares transformados, remetem-nos para uma época, também ela já terminada, em que o registo fotográfico não estava, como agora, ao alcance de todos.