CAIXA DE PANDORA

Non ou o princípio da inevitabilidade

O non assume-se como o instrumento de poder


Por:Paulo Barros Trindade

2017-02-28
Temos de insistir, rondar, rogar da forma mais submissa, para que o poder, de forma magnânima, permita o toque de Midas ao nosso projecto

O “Non ou a vã gloria de mandar” é, na minha opinião, um dos filmes mais interessantes do realizador Manoel de Oliveira. O filme discorre sobre a História de Portugal, não de uma forma triunfalista, como provavelmente seria representada pelos filmes mais comerciais dos nossos dias, mas descrevendo as batalhas em que os Portugueses se envolveram e perderam, desde o episódio do assassinato de Viriato, passando por Alcácer Quibir e até à Guerra Colonial.  Na parte final do filme existe um monólogo do actor Ruy de Carvalho, em que este divaga sobre o Non, a palavra em latim que quer dizer “não” e “(...) que não tem direito nem avesso, por qualquer lado que tomeis sempre soa e diz o mesmo, lendo do principio para o fim ou do fim para o principio, é sempre um non (...). É a palavra que “(...) mata a esperança que é o último remédio que a natureza deixou para todos os males (...).”

 

Em Odemira o non é a palavra chave. Quantos empreendedores já tiveram a experiência de apresentar um projecto ao poder local e ouvir discorrer sobre todos os aspectos negativos, sobre todos os problemas que esse projecto poderá acarretar. É o non... Para aqueles que têm mais sorte, depois de ouvirem discorrer sobre o non, ouvem o Nim, essa palavra tão presente no léxico político português e que, com o tempo, inevitavelmente se transforma num non.

 

O non como forma de governar, o non como forma de controlar. O desenvolvimento económico e social traz consigo a perda do controlo, porque traz a perda do sistema autocrático ou mesmo feudalista, em que deixa de ser necessário o beija-mão para tomar iniciativas de desenvolvimento, com a decorrente perda de poder e de importância. Desta forma o non assume-se como o instrumento de poder. Temos de insistir, rondar, rogar da forma mais submissa, para que o poder, de forma magnânima, permita o toque de Midas ao nosso projecto, evitando-se assim anos de guerras inúteis e inglórias e que apenas esgotam a oportunidade de investimento.

 

O non é um instrumento que num ambiente pouco informado e facilmente encarneirado, pode ser bastante potente. Veja-se o que aconteceu com o tema da agricultura intensiva e das necessidades de mão-de-obra. Não obstante os 10% de desemprego que ainda existem em Portugal, o facto é que o país ainda mantem muito presente as suas raízes rurais e as pessoas ainda têm muito presente o sacrifício que os seus antepassados fizeram para cultivar as terras, pelo que a agricultura continua a não ser de todo o emprego de sonho para os portugueses. Mas é preciso produzir e é preciso mão-de-obra, pelo que a alternativa é obtê-la no estrangeiro. No entanto, em Odemira ainda se vive muito com base na ideia de que “os que cá estão chegam bem”, máxima muito cultivada inclusive por políticos locais, provavelmente com muito pouca visão.

 

Se realizássemos em Odemira um referendo sobre a construção do muro Trump, aquele que pretende separar o México dos EUA, a maioria provavelmente insurgia-se contra essa ideia, no mínimo, pouco solidária. Mas, no entanto, muitos são aqueles que manifestam o seu desagrado por ver o litoral do concelho invadido por hordas de estrangeiros que vêm trabalhar nas empresas agrícolas da região, que são os maiores empregadores locais. E dizem-no num tom tão inflamado que, por vezes, parece que voltámos aos tempos das invasões bárbaras.

 

Não obstante o non tentado contra a agricultura no litoral do concelho, parece ser quase impossível travar o actual desenvolvimento do sector primário na região. O non pretendia impedir mais uma vez o desenvolvimento económico e social, trazido por aqueles que não precisam de ir ao beija-mão porque têm os meios necessários para desenvolver as suas actividades e porque vêm de países onde estão pouco habituados a ter o estado central ou local a atrapalhar, só para dizer “presente” e desta forma afirmar o seu poder e importância. É obvio que as empresas têm de cumprir escrupulosamente todos os normativos sobre o direito do trabalho e o ambiente, devendo aí as autoridades agir sem contemplações, porque Portugal não é um país do terceiro mundo e não pode ser complacente com atitudes menos éticas.

 

Assumindo, talvez inocentemente, que não fará parte do programa eleitoral do poder local instituído, a construção de um muro à volta de Odemira que impeça a entrada de estrangeiros, o non tentado contra o fenómeno de imigração também não terá muito sucesso, sugerindo-se que essas energias sejam concentradas em garantir que todos aqueles que escolhem Odemira para trabalhar, o possam fazer de forma condigna, com todos os direitos e deveres de qualquer cidadão nacional.

 

Mas com tantos non que têm dado tão poucos frutos políticos e sendo ano de eleições autárquicas, eis que surge mais um non mesmo a calhar - o non à prospecção de petróleo na costa alentejana. Depois de tanto tempo a ver, como se diz em bom português, “para onde caiam as modas” e depois de toda a gente ter assumido publicamente o que pensa, eis que o poder local instituído toma uma posição e uma pseudo-liderança de um processo, onde todos querem liderar. Tudo isto lembra-me aquele surfista que deixou passar os outros todos a cavalgar potentes ondas e que finalmente lá se deixa ir na onda mais fraquinha da sequência, onde no meio de tanta espuma e com o seu homem do jet-ski de apoio desaparecido para outras praias, já nem sequer vê para onde vai, mas lutando para se manter equilibrado, numa prancha desgastada mas sempre pintada e repintada de dourado, tentando manter a atenção sobre si, como se fosse o único a cavalgar ondas naquele sítio. 

 

Não sei se faz sentido a exploração de petróleo na Costa Alentejana. É um assunto que deve ser bem estudado, devendo assumir-se de base que não somos um país rico e, portanto, não podemos pura e simplesmente ignorar os recursos que temos, sejam os que nos permitem condições agrícolas excepcionais, sejam os que nos permitem uma eventual exploração de petróleo. Gostaria de assistir a um verdadeiro debate sobre o tema, onde não estivessem apenas os partidários do non mas todas as partes e com espaço para apresentarem os seus argumentos, deixando a cada um de nós o juízo final. No entanto e mesmo sem ter ainda muita informação sobre o assunto, desconfio sempre quando as coisas são apresentadas apenas sob a forma de um non, um non que aparentemente pretende apenas tirar partido da onda populista já criada junto da população, que duvido que esteja suficientemente esclarecida para tomar uma posição clara sobre o assunto.

 

É inevitável pensar que um projecto baseado num grande non, é um projecto com os dias contados. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a alguns anos, mas o non não é o melhor modelo de desenvolvimento de uma região. Àqueles que têm o verdadeiro poder e que somos todos nós cidadãos e eleitores, caberá decidir quando se deverá mudar o paradigma. Até lá sabemos o que teremos – um non...