OPINIÃO PÚBLICA

Par onde vais tu, Europa?

Em tempo de comemoração dos 60 anos do Tratado de Roma


Por:Fernando Almeida

2017-04-03
A Europa parece que ainda não aprendeu o valor supremo da paz, da entreajuda e cooperação entre povos, e mantém uma lógica quase feudal de pequenos reinos concorrentes

Mais um atentado, desta vez em Londres, lembra-nos a dor e o sofrimento de outros episódios que pela Europa se têm multiplicado criando a insegurança, o medo e a dor. A arma não foi explosivo nem bala, mas apenas uma faca e o próprio automóvel, coisas absolutamente e inevitavelmente acessíveis a qualquer um.

 

Longe daqui, em terras da Ásia mais próxima de nós, as bombas vindas do céu ou da terra, de militares convencionais ou de suicidas, as balas, e a violência no geral, são quase uma rotina. Interrompemos as emissões televisivas para noticiar um ataque à facada em Londres, ato efetivamente desumano que provocou quatro mortes inocentes. A insegurança e a intranquilidade reforçam-se. Reforçam-se também os meios de defesa, e como tem acontecido noutros casos as polícias (várias) saem a ganhar – mais gente, mais meios, mais notoriedade, mais autoridade… Reforçam-se também os extremismos isolacionistas e os perigosos nacionalismos populistas. Aceita-se a perda de direitos dos cidadãos, a redução da privacidade, os estados de exceção. E estas serão possivelmente as maiores vitórias dos “estados islâmicos” do mundo e a maior derrota dos povos da Europa: a democracia tende a perder qualidade em nome da segurança.

 

Ao mesmo tempo que quase ignoramos (ou tentaremos mesmo esconder?) os mortos que todos os dias acontecem em cidades como Mossul. Por lá continuam as operações militares dos “aliados” (e basta tratar essas forças por “aliados” para que achemos que, como dizem as crianças, esses são os “bons”), com bombardeamentos contínuos e massivos a abrir caminho às tropas terrestres. Agora, ao contrário daquilo que acontecia na batalha por Alepo, não se mostram diariamente as imagens da dor e do desespero; não se mostram as crianças mortas entre escombros e prédios, mostram-se antes os combatentes “vitoriosos” em ações descritas como gloriosas batalhas pela liberdade. Mas as crianças mortas entre os escombros estão lá, podem ter a certeza. Serão eles menos gente que nós? Será que os pais por lá sofrem menos que nós quando têm um filho morto nos braços? Mas centenas de milhares de desalojados, os milhares e milhares de mortos, parecem não ser motivo para notícias importantes…

 

A distância, a continuação quase rotineira do desastre da guerra, e a forma muito parcial como a nossa comunicação social trata o assunto (nesta matéria com uma atitude absolutamente indigna e vergonhosa), criam-nos indiferença. Quando ouvimos num noticiário televisivo que mais uma bomba no Iraque matou dezenas de pessoas, ou quando essa informação passa apenas em rodapé, é algo a que a generalidade das pessoas já nem sequer atribui qualquer importância, enquanto um ataque em Londres é motivo para ocupar mais de metade do espaço informativo das televisões.

 

Mas será mesmo pela liberdade que se combate por lá, ou será antes pelas riquezas que a terra tem? Serão atos generosos e altruístas dos ocidentais que apoiam o governo do Iraque, ou será a busca de riqueza e poder? Alguém de bom senso pensa que os povos que bombardeamos acham que os estamos a ajudar? Como seria melhor o mundo se nós, os ocidentais, não tivéssemos desencadeado e fomentado tantas guerras por esse mundo fora.

 

E a Europa, em tempo de comemoração dos 60 anos do Tratado de Roma, parece que ainda não aprendeu o valor supremo da paz, da entreajuda e cooperação entre povos, e mantém uma lógica quase feudal de pequenos reinos concorrentes. Longe vão os tempos dos sonhos puros dos fundadores da CEE! Hoje a realidade de uma Europa a “várias velocidades” vai-se impondo e sobrepondo à ideia antiga da “convergência” e de desenvolvimento harmonioso do espaço europeu. É pena. É pena o antagonismo norte/sul, forjado nas costas dos povos e que lhes vai sendo incutido pelos nacionalistas e políticos sem escrúpulos nem vergonha; é pena a real política externa da Europa, cínica e brutal, escondida debaixo da capa dos direitos humanos e da democracia; é pena a saída do Reino Unido da União que cada vez parece menos unida…

 

A Europa começa a ser cada vez menos um exemplo para o mundo, um espaço invejável e um modelo que se quer copiar. A Europa já é o inimigo declarado de centenas de milhões de seres humanos de outros continentes, e pior que isso, a sua união começa a ser também um alvo a abater para muitos dos próprios europeus… Espero, e penso que esperamos todos, que um novo fôlego de solidariedade e visão para o futuro ilumine os dirigentes europeus, para que o projeto europeu não se perca e recupere mesmo o rumo das suas origens para que novas gerações possam nascer e viver num espaço de desenvolvimento, concórdia e paz.