MIRADOIRO

Imagens e palavras

Uma foto, a preto e branco


Por:António Quaresma

2017-04-03
Não é só uma fotografia do forte; é uma composição, em que o forte é o componente central

“Uma imagem vale mais que mil palavras” é uma expressão muito usada para demonstrar o poder comunicacional das imagens, a sua capacidade discursiva. Mas, como todas as sentenças, esta também é redutora. Ela é sobretudo válida quando a imagem expressa um intuito estético ou representa um momento ou um acontecimento especiais. E, claro, no domínio da comunicação e da propaganda, de que existem flagrantes exemplos em fotografia e em cinema.

 

No período do nacional-socialismo na Alemanha, a talentosa cineasta do regime Leni Riefenstahl, dotada de recursos inovadores, produziu imagens de grande efeito propagandístico, como os conhecidos planos contrapicados de Hitler, em que é sugerida a grandeza quase divina do líder nazi. Ainda no plano da propaganda, são recordadas algumas montagens “fabricadas” durante a guerra da Jugoslávia, por equipas de televisão, para ilustrarem a “limpeza étnica” alegadamente cometida pelos Sérvios. Ou, mais recentemente, aquando do ataque terrorista em Londres, foi denunciada a utilização da fotografia de uma mulher muçulmana, por sites racistas, identificando-a, maliciosamente, com o trágico acontecimento. Naturalmente, nos dois últimos casos, a palavra foi fundamental para estabelecer a associação das imagens à mensagem que os autores pretendiam passar. Todos os exemplos citados são situações perversas da utilização da imagem para manipulação das mentes, mas hoje, na Internet e na televisão, elas fazem constantemente parte de agendas mais ou menos encobertas.

 

Para o bem e para o mal, as imagens produzidas contêm geralmente uma tensão e/ou uma intenção. Na fotografia e no cinema documental, por detrás da câmara, está sempre alguém que faz a mediação entre a realidade e a imagem dela captada, como, muito melhor do que eu, sabem os muitos fotógrafos amadores, e alguns profissionais, existentes neste Litoral, que, além dos recursos técnicos de que dispõem, afinaram a sensibilidade de “leitura” da realidade exterior. Mesmo que nunca tenham lido qualquer tratado de Semiótica.

 

Passando a um registo local e mais positivo, noto que em algumas belas imagens da área de Milfontes, que estão na Internet (Facebook, etc.), o olho do fotógrafo conseguiu imprimir carga poética ao “objecto” fotografado, ou destacou do objecto um pormenor, a que conferiu um significado e uma harmonia. Só não junto aqui uma delas, por serem a cores e porque tenho dúvidas sobre os direitos de autor. Deixo, contudo, uma foto, a preto e branco, já com alguns anos, em que o castelo de Milfontes é visto de um plano mais baixo, o que permite valorizar a robusta presença do edifício e a sua arquitectura militar, e de um ângulo que inclui outros elementos que o complementam, como o muro da Barbacã, com o sino do salva-vidas, e a escadaria que desce (ou sobe) e confere um certo ritmo ao conjunto. Não é só uma fotografia do forte; é uma composição, em que o forte é o componente central.